Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba
Apresentação II - do autor
Eh! Viva meu mestre!
Entrei na roda
Tô gingando! Tô dançando!
Aú, rasteira, negativa e rolê
Tô jogando! Tô capoeirando!
Na volta que o mundo dá…
Pesquisar sobre a capoeira tem sido um desafio constante em minha vida profissional. Um desafio repleto de boas surpresas, que tem se transformado em imenso prazer e num ganho de conhecimento sem precedentes.
Mestre Bimba sempre dizia que a ginga é base do jogo. Pesquisar capoeira é simplesmente gingar pelo processo da experimentação. É problematizar o jogo no sentido de encontrar uma solução plausível. É hipotetizar o jogo visando responder, antecipadamente, a questões do objeto investigado, o que vale, quer pela confirmação de características, quer pelo encontro de novos caminhos e evidências.
Um belo dia, lá pelos idos dos anos de 1966, cheguei à academia de Mestre Bimba que me pegou pelas mãos, me guiou até o centro da roda e me ensinou a gingar. Uma ginga de mandingueiro, leve, descontraída e fluida, que me fez ter um novo olhar para o mundo, e tem me levado para muitos lugares.
Gingar é a arte de viver! Gingando para lá, gingando para cá, passei pela roda vivenciando o jogo duro, subi nos palcos e teatralizei a capoeira, dediquei-me à docência por mais de vinte cinco anos e enveredei cheio de energia pelo ambiente da investigação científica.
Na escola de Bimba me formei. Passei a integrar o grupo seleto dos formados em Capoeira Regional, ao tempo em que comecei a fazer parte do Grupo Folclórico de Mestre Bimba, fazendo apresentações no Sítio Caruano, Boate de Ondina, escolas, Ginásio Antonio Balbino e na viagem inesquecível a Vitória do Espírito Santo.
Nesse período, meu foco era o vestibular e por não ter uma escola de Educação Física na Bahia, fiz uma opção por estudar Medicina Veterinária na Universidade Federal da Bahia. Ao ingressar na UFBA, interessei-me sobremaneira em participar do movimento estudantil, principalmente daquele relacionado com a prática esportiva e cultural. Na Escola de Veterinária participei do seu grupo folclórico, o que me oportunizou o ingresso no Grupo Folclórico Ganga Zuma da Federação Universitária Baiana de Esportes (FUBE).
Durante minha estada na FUBE, tive a oportunidade de fazer parte, não apenas do Grupo Ganga Zuma, mas também da seleção de atletismo em que participava das corridas de velocidade, do futebol de salão e na qual cheguei a atuar como diretor de modalidade e diretor técnico, com participação em vários eventos universitários, inclusive os Jogos Universitários Brasileiros.
Nesse sublime período de aprendizagem me apresentei juntamente com Ganga Zuma na televisão gaúcha, no Teatro São Pedro, em Porto Alegre, no tempo em que participava como fundador do Grupo Folclórico do Clube de Praia Avenida — o Princesa de Aioká — onde fizemos diversas apresentações de capoeira, maculelê, samba de roda e samba duro nas cidades de Jacobina e Maceió.
Na década de 1970, começaram as primeiras competições de capoeira incentivadas por Mestre Bimba e reconhecidas pela Federação Baiana de Pugilismo. A FUBE foi uma das primeiras instituições que realizou esses campeonatos e, nessa oportunidade,
participei do 1 o Campeonato Baiano de Calouros Universitários, em
1970, e do 3 o Campeonato Universitário Baiano de Capoeira, nos quais fiz bonito tendo sido campeão.
A capoeira cada vez mais fazia parte da minha vida, oferecendo-me ótimas oportunidades e reconhecimento, quando Itapoan e eu resolvemos fundar a Ginga Associação de Capoeira, uma escola de Capoeira Regional baseada na metodologia utilizada na academia de Mestre Bimba. Essa associação veio suprir a lacuna que sofreu a Capoeira Regional baiana com a ida de Mestre Bimba para Goiânia. A Ginga era um local de encontro e treinamento dos alunos de Bimba.
Os objetivos da Ginga ultrapassavam os limites do treinamento de capoeira. Partimos para outros empreendimentos; idealizamos os cursos de atualização em convênio com a Federação Internacional de Educação Física e a Federação Baiana de Pugilismo; dessa maneira realizamos a primeira experiência do “Iº Curso de Capoeira Teórico”, uma singular novidade, realizado em 1979, nas instalações do Colégio Marista de Salvador. Continuamos o nosso caminho proferindo palestras e participando de eventos, seminários, debates, batizados, formaturas e cursos no Brasil e no exterior.
Ao mesmo tempo em que me envolvia na capoeira, o atletismo também me absorvia, pela dedicação ao esporte escolar iniciado no Colégio Estadual Manoel Devoto, passando pelo Colégio Dois de Julho, pelo Serviço Social da Indústria, pela Federação Baiana de Atletismo, pelo Departamento de Educação Física da Secretaria de Educação e Cultura e pela Seleção Brasileira Juvenil, como técnico.
Juntamente com esse forte envolvimento no atletismo, vieram muitos cursos internacionais e trabalhos em projetos regionais e nacionais, que culminaram no Curso de Especialização em Atletismo, na Cidade do México, a convite da Organização dos Estados Americanos, do Comitês Olímpico Brasileiro e Mexicano.
Mas a ginga estava incrustada no meu corpo, me incitava a molejar para frente, para trás e para os lados, usando as pernas e os braços, o tronco e a cabeça, em movimentos que pareciam desengonçados, desencontrados, contudo consciente dos objetivos a serem conquistados.
E foi gingando que tive a oportunidade de incluir a capoeira como disciplina obrigatória na prática desportiva da UFBA. Em seguida, estava novamente gingando e fazendo parte da comissão que criou o curso de licenciatura em Educação Física da FACED/UFBA e mais uma vez sugeri a inclusão da capoeira como disciplina curricular no curso de Educação Física. Mais tarde, tive a prerrogativa de ministrar, juntamente com o professor Edivaldo Boaventura, a disciplina Educação, Cultura e Capoeira para os cursos de mestrado e doutorado da Faculdade de Educação da UFBA.
Aí, volto no tempo aos anos de 1980 e 1990 quando me lembro perfeitamente dos dias em que estava na FACED ministrando aulas de capoeira da prática desportiva e lá recebia constantemente uma visita inusitada que sempre prometia voltar no próximo dia para participar das aulas e que, todavia, marcava bem sua presença, pelas rápidas conversas, verdadeiras dicas, vindas do âmago professoral. Edivaldo Boaventura aproveitava os instantes para dizer: Helio, você precisa escrever sobre a sua práxis. Um recado direto que mexeu comigo para sempre, me fez refletir bastante sobre a minha práxis e me motivou decisivamente a pesquisar a capoeira.
Nas minhas experiências adquiridas como professor de Educação Física no Colégio Estadual Manoel Devoto, superando as dificuldades do espaço físico e de material, pude aos poucos inserir a Capoeira Regional como uma parte dos métodos de ginástica. O resultado foi bastante favorável e, então, encorajado, passei a ministrar aulas inteiras, privilegiando o aspecto didático-pedagógico da capoeira, o que muito me gratificou.
Outra experiência que me marcou profundamente foi a passagem como Coordenador de Atletismo do Departamento de Educação Física da SEC. Neste órgão treinava atletas escolares, fazia consultorias, ministrava cursos, organizava competições de atletismo, selecionava escolares para participarem dos Jogos Escolares Brasileiros e ainda tinha o privilégio de integrar a equipe que produziu o Programa Curricular de Educação Física para o Ensino de Primeiro e Segundo Graus, ficando responsável pela parte da capoeira, do atletismo e da consultoria geral.
A ginga é o movimento fundamental que propicia substantivamente os golpes, os aús, as esquivas, as defesas e os rolês; daí, na volta ao mundo, o jogo me conduziu para a roda da literatura capoeirística quando publiquei os livros “Capoeira na Escola” e “Capoeira na Universidade: uma trajetória de resistência”; este último, fruto da minha Tese de Livre Docência pela American World University, USA em 1999.
O estar gingando na roda propiciou-me elaborar um dos mais relevantes projetos de minha trajetória profissional, o da outorga, pela UFBA, do Título de Doutor Honoris Causa (post-mortem) a Manoel dos Reis Machado, Mestre Bimba, o qual foi recebido pelos seus familiares em sessão solene no Salão Nobre da Reitoria, em 12 de junho de 1996.
Todos esses caminhos têm me levado a estudar a capoeira cada vez mais a fundo. Inquieto, resolvi permanecer na roda e gingar mais um pouco, agora realizando o curso de doutorado em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da UFBA, onde pude me debruçar numa investigação exaustiva procurando novas evidências sobre a CAPOEIRA REGIONAL: A ESCOLA DE MESTRE BIMBA.
Hellio Campos - Xaréu
Figura 1 - Mestre Bimba: o mito sagrado da capoeira.