Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Hellio Campos · Capítulo 63 de 66

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Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Conclusões e recomendações

 

Esta investigação desenvolveu-se a partir de três direções básicas e complementares: na primeira, nos ocupamos exaustivamente da fundamentação teórica, buscando alargar os conhecimentos e facilitar uma análise minuciosa e criteriosa dos dados obtidos em entrevistas. Na segunda, nos debruçamos sobre a biografia de Mestre Bimba, objetivando aprofundar o conhecimento de sua vida pública, da vida privada, de sua liderança na capoeira, da criação da Capoeira Regional e principalmente do mito Mestre Bimba, o rei da capoeira. Na terceira direção, nos inclinamos atentamente para a pesquisa empírica, objetivando a análise dos conteúdos obtidos nas entrevistas com os alunos de Mestre Bimba, na sua maioria em vídeo, e por meio de questionário previamente respondido pelos mestres, contramestres e professores de capoeira da atualidade. Vale registrar que nesta fase também foi contemplada a observação direta obtida nos eventos de capoeira, dos quais este pesquisador participou intensamente.

De posse da análise dos resultados e das evidências encontradas neste estudo, podemos finalmente responder à questão principal: Qual era a metodologia de ensino e a ação pedagógica que usava Mestre Bimba para ensinar a Capoeira Regional e quais seus desdobramentos na formação educacional, cultural e de filosofia de vida dos seus alunos?

Nesta exposição, partimos de nosso objetivo geral: analisar a metodologia utilizada por Mestre Bimba para o ensino da Capoeira Regional, bem como os desdobramentos decorrentes desta ação pedagógica na formação educacional e cultural e na filosofia de vida de seus alunos. Em seguida, tratamos dos objetivos específicos listados na primeira parte deste estudo.

Em nossa investigação, encontramos informações desencontradas sobre o perfil de Mestre Bimba, relativas ao seu relacionamento com pessoas, especialmente com seus alunos: alguns afirmaram ser Mestre Bimba um homem fechado, introvertido e que somente aparentava ser alegre e extrovertido nos dias de festas, durante os eventos, batizados, formaturas e apresentações folclóricas do seu grupo. Alguns informantes disseram ser ele um sujeito alto, forte, disciplinador embrutecido, chegando mesmo a ser grosseiro, o que coadunava com a sua reduzida escolaridade formal.

Por outro lado, nos deparamos com informes controversos, que asseveraram ser Bimba um homem simples, semi-analfabeto, com uma conduta que se utilizava da autoridade sem ser autoritária, mas disciplinador, educador, amigo dos seus alunos, preocupado com os seus, a exemplo das viagens que empreendia juntamente com suas baianas, tocadores e alunos, quando assumia toda a responsabilidade, procurando o bem-estar dos seus “comandados”, como se reportou Nalvinha: “meu pai se preocupava para que tivéssemos boa alimentação, ficássemos em bons hotéis e o conforto dos seus alunos”. Cafuné, Escurinho, Sariguê e Angoleiro distinguiram, sobretudo, o lado afetivo de Bimba contando detalhes em que Bimba demonstrava ser carinhoso.

Outros entrevistados disseram considerar Mestre Bimba um pai, um orientador, um exemplo de vida; um homem dotado de sabedoria, um gênio, um conselheiro preocupado, que ensinava muito mais que simplesmente capoeira, ensinava a viver. Ensinava a arte de gingar na vida.

Para os capoeiristas da nova geração, os mestres, contramestres e professores de capoeira, Mestre Bimba representa um mito, um símbolo de resistência, um revolucionário; o criador de algo novo, o descobridor de uma capoeira diferente, contundente, eficiente; um homem que mudou o rumo da história, um líder, uma pessoa dotada de inteligência emocional; um guerreiro, um sujeito forte, lutador e que acreditava no seu ideal; uma pessoa perseverante, de forte personalidade, um grande estrategista, uma pessoa que deve ter sofrido muitos preconceitos, mas soube trilhar seu caminho, sem olhar para trás.

Pela análise dos depoimentos, encontramos evidências do reconhecimento, do apreço, da admiração, do respeito e da reverência, que revelam ser Mestre Bimba um mito, concebido na imagem de um sujeito iluminado, criador e que enxergava à frente do seu tempo; um exemplo a ser seguido por todos aqueles decididos a perseguir a profissão de mestres de capoeira.

Distinguimos indícios de que os alunos de Mestre Bimba sempre gozaram de espaço, junto ao mestre, para a finalidade de contribuir de alguma forma na estruturação da Capoeira Regional. Decanio, um dos alunos mais influentes da Capoeira Regional, afirma claramente a efetiva participação de Cisnando na década de trinta. Outros entrevistados igualmente afirmaram terem visto ou mesmo participado de eventos com a intenção de colaborar na sistematização e para a divulgação da Capoeira Regional.

É sabido que a capoeira foi considerada, outrora, como uma atividade marginalizada, sendo reprimida e chegando mesmo a constar do Código Penal Brasileiro, mas o que tem causado espanto é como a capoeira em pouco tempo conseguiu se inserir nas instituições “nobres e conservadoras” da sociedade hegemônica.

Constatamos que, ao criar a Capoeira Regional, Mestre Bimba estabeleceu uma ruptura marcante entre a capoeira praticada na época e a sua nova proposta de capoeira, criada a partir da junção da Capoeira Angola e do Batuque. Este fato atribuiu a Bimba muitos adjetivos, a exemplo de: “o Lutero da capoeira”, como disse Carybé; “o tal”, como disse Fred Abreu; “um divisor de águas”, como disse Muniz Sodré; “um agente de mudanças”, como afirmou Luiz Renato; e “um verdadeiro mestre”, com se refere Itapoan.

Este novo projeto de capoeira liderado por Mestre Bimba, e compartilhado de perto por seus alunos, extrapolou os muros do CCFR e avançou, conquistando espaços no exército, em escolas, universidades, clubes sociais, festas cívicas, seminários nacionais, ginásios de esportes e até apresentação para o Presidente da República, Getúlio Vargas, no Palácio do Governo em Salvador. Todo esse esforço tinha uma intenção declarada de mostrar o valor da Capoeira Regional, como luta, esporte, cultura, educação e de filosofia de vida.

Além disso, pudemos identificar vários fatos marcantes vivenciados pelos alunos de Mestre Bimba durante a sua permanência no CCFR. São fatos que, na sua maioria, revelam uma significância particular, pois entendemos que cada indivíduo tenha a sua maneira peculiar de perceber e assimilar os acontecimentos, já que tudo depende de muitos fatores, do momento psicológico, do estado emocional, da condição motivadora, da disposição, do engajamento, da capacidade de concentração, do nível de aprendizado e principalmente do amadurecimento. Por conseguinte, os olhares em direção a acontecimentos corriqueiros ou mesmo extraordinários são divergentes, têm conotações diferenciadas. Aqui, vale ressaltar, no que respeita aos alunos de Mestre Bimba, que a nossa amostra se ateve propositalmente a épocas diferentes de convivência na academia de Mestre Bimba, com a finalidade de podermos identificar melhor os fatos que marcaram essas vidas para sempre.

Uma outra investigação, cujo resultado nos chamou a atenção em especial, foi a de conhecer melhor como se dava a convivência com os diferentes na academia de Mestre Bimba e em quê este fato impactou a vida dos nossos entrevistados.

Encontramos evidências de que na academia de Mestre Bimba a convivência com os diferentes, o forte e o fraco, o hábil e o inábil, o preto, o branco e o mulato, o alto e o baixo, o escolar e o universitário, o rico e o pobre, o violento e o manso, o formado e o calouro e mais as diversidades religiosas, ideológicas e políticas, proporcionaram uma experiência sem igual à vida dos nossos informantes. Eles pontuaram alguns aspectos de real significado para eles, a exemplo da irmandade, da amizade, de “um por todos, todos por um”, como se referiu Arara: “mexer com um aluno de Bimba é mexer com todo o enxame de abelhas”. Para Nenel, as diferenças não se consolidavam “devido à presença equilibrada de Bimba, por esse motivo e uma atitude firme, segura do mestre as pessoas aprendiam a respeitar os limites de cada um”.

Itapoan ressalta com veemência que na escola de Mestre Bimba existia uma irmandade, que ninguém queria ser melhor do que ninguém, todos tinham o foco em treinar capoeira; ficar bom era uma consequência. Na busca desse objetivo, existia, sobretudo, o respeito pela diversidade, a amizade pelo compartilhar, o zelo do aluno formado pelo aluno calouro e atitudes constantes, firmes e exemplares, de Bimba. Destacamos que a rigor esse sentimento de amizade, de reconhecimento por ter sido batizado na Capoeira Regional, perdura até os dias de hoje.

Observamos, ainda, se os alunos de Bimba têm incorporado no seu comportamento uma filosofia de vida adquirida nas rodas da Capoeira Regional, e se a colocam em prática em seu cotidiano. Dessa análise, encontramos indícios que nos levam a ter clareza de que os alunos de Mestre Bimba incorporaram de alguma maneira as lições ministradas. Eram lições bem simples e, na maioria, passadas de maneira descontraída e bem-humorada. Lições como: não passar em baixo de árvore polpuda; quando for dormir na casa de estranhos, fique de olho aberto contando as telhas; ao andar pela rua durante a madrugada não dobre a esquina pelo passeio, vá para o meio da rua; a fruta só dá no tempo; apenas para citar algumas lições, alguns conselhos.

Pela expressividade dos nossos entrevistados fica evidente a existência de uma filosofia de vida adquirida na Capoeira Regional, consubstanciada por uma maneira de ser diferente, observada no modo de andar, na maneira de olhar, no tom da conversa, no jeito desconfiado, na agilidade dos movimentos e na certeza de gingar sempre.

Procedendo à análise da metodologia de Mestre Bimba para o ensino da Capoeira Regional, optamos por examiná-la sob a ótica dos dois tipos de população que serviram de base ao nosso estudo empírico. Nos detemos, inicialmente, nos alunos de Mestre Bimba, cujas informações nos levam a asseverar que a grande diferença entre ele e outros mestres de capoeira de sua época está no fato de que ele pesquisou a capoeira e, de acordo com suas experiências, criou um método de ensino que desafia o tempo, e vem sendo aplicado até hoje nas aulas de capoeira.

Uma outra característica observada é a sistematização do método, que propicia um aprendizado mais rápido, eficiente, seguro, sequenciado e repleto de desafios, o que deixa os alunos ávidos por novos conhecimentos, além de ser mais participativo, praticado em duplas, e muito estimulante, pela ludicidade.

No entendimento dos mestres, contramestres e professores de capoeira da atualidade, encontramos algumas afirmações interessantes, que listamos: a) foi um artifício bastante apropriado para dar visibilidade à capoeira no seio da classe média de sua época; b) todos os movimentos das sequências estão inseridos em qualquer proposta de jogar capoeira, em qualquer estilo da atualidade; c) esta combinação de movimentos reflete o que há de mais moderno em termos de metodologia de ensino, pois proporciona o aprendizado de estruturas simples de defesa e ataque, evoluindo para estruturas mais complexas; d) acredito que este método ajuda muito no aprendizado, pois condiciona o aluno a treinar os movimentos e em consequência a aprendê-los; e) ajuda o aluno novo a ter uma melhor apresentação quando entra numa roda, pois as sequências não deixam de ser uma pequena simulação de jogo (ataque e defesa); e f) o método usado por Bimba ainda é bastante atual. “Para a nossa época é super eficiente, imagine há setenta anos atrás. O mestre ‘sistematizou’ o treino, importante para um melhor entendimento do aluno”.

Neste resgate de algumas considerações dos nossos entrevistados percebemos o quanto suas colocações despertam neles a certeza de que Mestre Bimba usava uma metodologia eficiente para o ensino da Capoeira Regional, a qual rompe a barreira do tempo e continua sendo atual, própria para o jogo da capoeira de qualquer estilo.

Concluímos, portanto, que Mestre Bimba tinha um projeto para a sua criação, a Capoeira Regional, todavia não tinha uma instrução formal que o capacitasse a escrever suas idéias; sua vivência também era outra, seu aprendizado e conhecimento foram adquiridos através da oralidade, uma prática do seu tempo, da sua época, da sua gente. No entanto, Bimba, tocado pela sua genialidade e audácia, levou à frente seu projeto, compartilhando sua estruturação com seus alunos durante aproximadamente quarenta e seis anos. Essa estruturação ocorreu em épocas diferentes, o que denota a parceria constante que tinha Bimba com seus discípulos. Sabiamente, possibilitava a interferência dos alunos, experimentava, criticava: se boa, a proposta era adotada e partilhada com eles. O seu Projeto Pedagógico para a Capoeira foi se constituindo ao longo dos anos, sendo enriquecido no dia-a-dia, pois Bimba, apesar de ver além do horizonte, de enxergar à frente, balizava seu trabalho no cotidiano, vivia cada dia intensamente até finalizar sua missão em Goiânia apresentando no palco sua capoeira.

O seu Projeto Pedagógico foi composto do exame de admissão, sequência de ensino, sequência da cintura desprezada, batizado, roda de capoeira, esquenta-banho, formatura, iúna, curso de especialização, toques de berimbau, cantos, músicas, golpes e regulamento. Além de ter fundado uma escola de capoeira, o Centro de Cultura Física Regional, mais conhecida como academia de Mestre Bimba, mantinha um grupo folclórico apresentando-se regularmente em espaço próprio no Sítio Caruano, no Nordeste de Amaralina.

A ação pedagógica de Mestre Bimba era inteiramente coerente com seus propósitos e através da Capoeira Regional influenciou toda uma geração, sendo um verdadeiro construtor de homens, forjou cidadãos brasileiros e, por mérito próprio, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da UFBA (Post-mortem), em 12 de junho de 1996. Um reconhecimento pelo seu valor como uma personalidade distinguida pelos relevantes serviços em favor da educação, da cultura e das artes, no cenário baiano, nacional e internacional.

Entendemos ser Mestre Bimba uma personalidade muito grande para caber em uma obra só, por isso recomendamos e sugerimos a ampliação deste estudo com a finalidade de produzir novas investigações na área da capoeira. Reconhecemos que urgem novas pesquisas nas mais variadas vertentes, a partir de abordagens metodológicas diferenciadas, objetivando a construção de um marco teórico sedimentado sobre estas manifestações afro-brasileiras, ricas de elementos culturais, mas carentes de pesquisas cientificas aprofundadas.

A Mestre Bimba, que um dia me pegou pelas mãos e na roda me ensinou a gingar, a ter fluidez nos movimentos do corpo e da alma; me fez olhar o mundo diferente, extrapolando o limite pobre do corpo, e a emergir no privilégio dos sonhadores de tocar as estrelas pela infinidade do espírito.

 

Mestre Xaréu