Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Hellio Campos · Capítulo 27 de 66

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Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

A vida privada do Mestre

marinetes9 eram os meios preferidos, e quando as árvores existiam em abundância e faziam parte da arquitetura da cidade.

Nos ensinamentos da Capoeira Regional, aprendemos a dar a “volta ao mundo”; praticávamos essas ações na roda, girando nela quando cansados, ou simplesmente como estratégia para um novo jogo, uma nova situação. Na prática, utilizávamos principalmente da surpresa, desferindo um golpe inesperado em instantes diversos, exigindo do companheiro de jogo uma reação imediata adequada àquele momento. A grande lição tirada dessa atividade é entender que o “mundo dá muitas voltas”.

Esses ensinamentos e tantos outros, alguns sutilmente passados no processo de ensino-aprendizagem, instigavam o aluno a estar vigiando o ambiente, permanentemente, além de despertar uma prontidão consigo, mesmo no sentido de vivenciar intensamente o presente e vislumbrar um futuro melhor.

Nas minhas investigações, e pelos depoimentos baseados na história vivida de cada um dos alunos de Bimba, constatei a unanimidade em afirmarem que as lições foram incorporadas de maneira marcante, inclusive influenciando no estilo e filosofia de vida de cada um.

 

A vida privada do Mestre

 

Mestre Bimba chamava a atenção por onde passava. Era logo distinguido pelo porte atlético que possuía, evidente pelos 1,90 metro de altura e os 90 quilos de músculos fortes, longos e delineados. Essa figura imponente e de andar firme era muito cobiçada pelas mulheres.

Fala-se que as mulheres ficavam irrequietas e se cutucavam quando aquele negro vistoso passava diante delas. Sempre bem vestido, usando um traje branco que realçava seus músculos e avivava sua elegância. Costumava cumprimentar a todos, demonstrando segurança e altivez.

Bimba teve vinte e uma mulheres quase que simultaneamente, reproduzindo o costume da poligamia admitido pelos povos iorubás. Na cultura ioruba era permitido a um homem ter várias esposas e isso o credenciava a conquistar a liderança, porque se partia do pressuposto de que, em sendo ele capaz de cuidar da família e da comunidade, poderia então assumir o comando da nação. Segundo Felix Ay-oh’omidire, da Universidade de Ifé, “quem sabe lidar com as mulheres sabe lidar com o mundo”.

Existem poucos estudos sobre as mulheres que abordaram o coração de Bimba. Três obras dão destaque a esse assunto: o primeiro é o livro “Mestre Bimba: corpo de mandinga”, de Muniz Sodré, publicado em 2002; o segundo, “Memórias da Bahia II”, publicado pelo Correio da Bahia, em 2003; e o terceiro, o recente filme Mestre Bimba: a capoeira iluminada, de Luiz Fernando Goulart.

Muniz Sodré testemunha que:

 

Mãe Alice não esconde: “Bimba era um homem de muitas mulheres, e sem

maiores esforços, porque era muito bom amante”. Sem contar as inúmeras

aventuras e flertes, ela afirma ter sido a vigésima primeira mulher dele. Isso

significa que foi a de número 21 das que viveram ou tiveram uma ligação

mais forte com ele. Era muito ciumento de todas, principalmente dela, filha

de Iansã com juntó de Obaluaiê e Oxum, que ele chamava carinhosamente

de Liu. Costumava gastar tudo o que ganhava com suas mulheres, às quais

dava presentes, e fazia questão de vesti-las muito bem. (2002, p. 96).

 

Convivi com Mãe Alice (Alice Maria da Cruz), no período de 1966 a 1972. Ela sempre estava com o mestre no CCFR, ajudava a atender os alunos e ganhava uns trocados lavando a nossa roupa de treino. Para nós, alunos, era um status autorizar Dona Alice a lavar e organizar nossa roupa de capoeira. Era uma certeza ir para a academia treinar e saber que lá estava a nossa calça branca de pano de vela, meia perna, lavada, passada e pronta para o treino. Dona Alice também costurava as calças e preparava escudo e camisa. Tinha uma postura serena, com um ar de protetora, e sempre pronta para nos atender em qualquer que fosse a dificuldade. Nesse período de convivência nunca presenciei uma rusga sequer, nem com o mestre nem com os alunos.

Assim também era o seu comportamento no Sítio Caruano, nos dias de show, das festas de batizado e formatura. Durante as apresentações, estava à frente das baianas, ocupada na organização para que tudo saísse impecável, “talvez uma exigência de Bimba”.

Mãe Alice participava da apresentação folclórica, apresentava o candomblé, a dança dos orixás e o samba de roda. Antes, porém, incensava o ambiente com um incensador de barro, afastando mau-olhado, sentimento ruim, mau espírito e liberando a boa energia, a sorte e a proteção. Nessa hora, todos os alunos buscavam os bons fluídos, colocando as duas mãos com as palmas voltadas para baixo sentindo o calor e o aroma do incenso e se benziam.

Presenciei muitas vezes, no final da festa no Sítio Caruano, Bimba chamar Nenel e Demerval “Formiga”, seus filhos menores, para ficarem ao seu lado, na casa de uma de suas mulheres, tudo dentro da maior simplicidade, naturalidade, segurança e ordem.

Como disse Muniz Sodré, “não é cômodo precisar a ordem das mulheres oficiais de Bimba”, por esse motivo apenas nos reportaremos àquelas mais conhecidas, que tiveram maior influência sobre ele.

A única que levou Bimba até o altar, para o casamento no religioso, consagrado na Igreja Senhora Santana, no Rio Vermelho, foi Anita Waldemira Santana, que casou quando tinha seus 17 anos, porém o casamento não foi homologado no civil. Com ela, Bimba teve duas filhas, Helenita e Creuza.

Como era um homem ciumento, não admitia que sua mulher conversasse com vizinhos e esse foi o motivo da separação: “um dia voltando para casa, ele me viu conversando na janela com um vizinho e aí não deu mais certo”, disse Anita.

Dona Berenice Conceição do Nascimento se separou de Bimba, logo após a chegada no harém de Dona Alice. Assim disse ela: “Era muita mulher, muita confusão e como não gosto disso, aí eu deixei para elas”. Mãe de Nenel e Nalvinha que, após a separação, Bimba os entregou a mãe Alice para serem criados por ela. Nenel se reporta a esse fato dizendo: “sou um dos caras mais ricos do mundo por ter duas mães”.

Dona Nair, mãe de Demerval dos Santos Machado, que foi meu contemporâneo de academia, juntamente com Nenel e Nalvinha, disse que o mestre era muito ciumento: “minha mãe não podia usar blusa de alça, tinha que ter manga, senão ele não gostava”. Dona Nair foi a companheira que esteve junto a Bimba até a sua morte em Goiânia.

Mais uma vez, o documentário “Mestre Bimba: a capoeira iluminada” retrata com propriedade as mulheres de Bimba, quando consegue reuni-las para um bate-papo, sendo o assunto em pauta a convivência com Bimba.

Elas estavam muito tranquilas durante a conversa. Enfatizaram a atenção que Bimba tinha com elas e com os filhos, chegando a afirmar que o mestre não admitia que trabalhassem na rua e que gostava de apreciá-las bem vestidas. Dona Alice disse na oportunidade que Bimba tinha o hábito de fazer surpresa, convidando-a para ir ao centro da cidade onde visitavam as lojas e a presenteava com roupas e sapatos.

Nesse encontro ficou patente que a ciumeira ainda persiste. Em algumas conversas, elas se alfinetaram, apesar dos anos e da morte de Bimba em 1974. Mãe Alice, a mais jovem, parece ser o principal pivô desse sentimento de amor.

Dos filhos de Bimba, nos reservamos o direito de citar neste estudo aqueles mais representativos, mesmo porque foram tantos que não se sabe ao certo por onde andam.

Manoel dos Reis Machado Filho (Crispim) foi contramestre de capoeira. Teve uma atuação destacada no CCFR, ajudando Bimba. Foi integrante do grupo folclórico, tendo participado em 1956 da viagem ao Rio de Janeiro. Participou do filme “Vadiação”, produzido por Alexandre Robatto Filho, em 1954, que foi rodado no cenário organizado no antigo Cinema Guarani, hoje Glauber Rocha, na Praça Castro Alves.

Luiz Lopes Machado (Melodia), 43 anos, é filho de Bimba com Dona Nair. Foi para Goiânia e lá reside até hoje. É mestre de capoeira, desenvolvendo seu trabalho em escolas públicas e academias. Das lembranças do pai, destaca, além do aprendizado da capoeira, outros que ficaram enraizados para toda a vida, como fazer pipas e balões. Luizinho, como é conhecido, é um autêntico defensor da Capoeira Regional e, lembrando do pai, afirma: “consigo sentir o cheiro dele”.

Durvalina dos Santos Machado, conhecida na Capoeira Regional como “Biloca”, foi uma destacada integrante do Grupo Folclórico de Mestre Bimba e participou das principais excursões do grupo, integrando o elenco do filme Dança de Guerra, de Jair Moura, em 1969. Bilosca, hoje, é Mãe de Santo responsável por um Terreiro de Candomblé em Goiânia.

Marinalva Nascimento Machado, “Nalvinha”, 43 anos, foi batizada na Capoeira pelo cognome de “Rosa Rubra”, mas afirma que o apelido não pegou, pois que os alunos de Bimba sempre a chamaram carinhosamente de Nalvinha. Ela aprendeu capoeira em condições adversas, quando não existiam mulheres praticando Capoeira, pelo forte preconceito e pela dificuldade de acesso ao CCFR, que funcionava no antigo Maciel de Cima, lugar de meretrício. Logo, o acesso de garotas, inclusive ela, uma criança de nove anos, era praticamente impossível. É auxiliar de enfermagem, porém seu gosto pela capoeira falou mais alto e, retornando de Goiânia, resolveu se juntar a Nenel, por volta de 1980. Na Fundação Mestre Bimba, ela atua na função de secretária, organizando os projetos, auxiliando nas aulas, atendendo pessoas, agendando shows e assumindo a instituição, na ausência do Mestre Nenel. Ministra cursos de Samba de Roda, sua verdadeira paixão, e participa ativamente da roda de capoeira da turma de Bimba, mas afirma: “jogar capoeira me enche de saudade de meu pai”.

Demerval dos Santos Machado, filho de Bimba com Dona Nair, conhecido pelo apelido de “Formiga”, faleceu em 2003. Capoeirista, mestre de capoeira, eletricitário e sindicalista, foi um dos mentores da Fundação Mestre Bimba. Personagem marcante nas discussões sobre a capoeira, politizado, representou a família de Bimba nas homenagens outorgadas ao mestre, a exemplo do título de Doutor Honoris Causa Post-Mortem, da Universidade Federal da Bahia e da Medalha Tomé de Sousa, uma comenda importante da Câmara Municipal de Salvador.

Manoel dos Nascimento Machado, “Nenel”, 46 anos, filho de Berenice e irmão de “Nalvinha”, apelido de batizado no CCFR “Pererê”, mestre de capoeira, é considerado como um guardião do legado de seu pai. Ministrou aulas de capoeira em Brasília durante dois anos. Atualmente é o presidente da Fundação Mestre Bimba. Foi fundador dos Filhos de Bimba, escola de capoeira, entidade que tem como finalidade resgatar, preservar e perpetuar todo o legado de seu patrono. No comando da Fundação, desenvolve o Projeto Capoerê, destinado a atender crianças e adolescentes carentes e em situação de risco. Também promove shows culturais, abordando os principais temas das manifestações culturais baianas na sua forma mais autêntica, e realiza intercâmbio com outros países, promovendo e mostrando a Capoeira Regional como uma autêntica manifestação cultural de feitio educativo.