Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Hellio Campos · Capítulo 50 de 66

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Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

A sequência de ensino: uma ferramenta lúdica de ensino-aprendizagem da Capoeira Regional

A sequência de ensino: uma

 

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Capoeira Regional

 

A Sequência de Ensino de Mestre Bimba é uma atividade eminentemente lúdica, que está inserida no processo de ensino-aprendizagem da Capoeira Regional, não apenas com a finalidade de diversão, mas, sobretudo, no sentido mais amplo da educação, ao proporcionar um aprendizado da realidade do cotidiano, mediante desafios e experiências vivenciadas com a partilha, a colaboração, os diferentes, os conflitos, a cultura dos praticantes e da sociedade em que vivem. Este método de ensino da Capoeira Regional pode ser encontrado em duas versões, uma simplificada, indicado para os alunos iniciantes, e a outra completa, privilégio dos alunos formados.

Segundo Itapoan, o método é composto dos golpes mais comuns, aqueles que sempre estão presentes em qualquer jogo de capoeira, chegando mesmo a afirmar que, com a simples retirada desses golpes, não existe jogo de capoeira (1994, p. 83). A sequência completa é composta de dezessete golpes de ataque, defesa e esquiva, em que cada aluno executa cento e cinquenta e quatro movimentos e a dupla trezentos e oito. Logo, podemos afirmar que o grau de dificuldade é bastante elevado, exigindo dos praticantes um bom nível de concentração, preparo físico e uma excelente habilidade para golpear de ambos os lados. Esta é, na verdade, uma série de exercícios complexos, destinada aos capoeiristas adiantados, e que Mestre Bimba usava como fundamento básico nos cursos de especialização.

A sequência simplificada é uma metodologia apropriada para os iniciantes e muito utilizada no cotidiano, pois o grau de complexidade é menor, não exigindo habilidade motora aprimorada, ao tempo em que suscita uma forte motivação e prazer pelos desafios superados e etapas vencidas.

Mestre Bimba utilizava o ensino da sequência com muita propriedade. Na segunda ou terceira aula, o aluno calouro era convidado a aprender a sequência através do sistema de compadrio, ou seja, o aluno mais antigo na academia, preferencialmente um aluno formado, era chamado para ensinar a sequência ao calouro. Com este ato, Bimba permitia a experiência da responsabilidade, a intimidade e a proteção do aluno mais antigo sobre aquele iniciante, para que se sentisse mais confiante no seu aprendizado. Era um jogo de compadres, um jogo de responsabilidades, vivenciado cotidianamente visando o mesmo objetivo.

O calouro sentia-se desafiado a aprender a sequência rapidamente, pois tinha em mente um objetivo maior, o de jogar na roda pela primeira vez, ao som do berimbau, ser batizado. A condição era dura, só poderia jogar na roda e ser batizado aquele aluno que soubesse a sequência completa.

O mestre, antes de tomar a atitude de convidar o aluno para o jogo, perguntava ao calouro se já tinha decorado a sequência e se certificava, perguntando ao seu companheiro de aprendizado, se o seu colega já estava pronto para o desafio do batizado, para “entrar no aço”, como dizia Bimba.

Itapoan diz ser a sequência o “ABC” do capoeirista e quando o aluno decorava a sequência sabia exatamente os movimentos necessários para entrar na roda, entrar no jogo mais confiante e seguro. Observa, ainda, que nada impede que se criem outras variações com a finalidade de enriquecer o treinamento, porém, sem adulterar a sequência original, a do Mestre Bimba (1994, p. 83).

Moura, reportando-se à sequência, explica que ela é um conjunto de lições práticas e eficientes, baseadas em golpes e contragolpes, que possibilitam ao aluno aprender capoeira no menor espaço de tempo possível, incorporando a consciência do valor da luta como um sistema natural de ataque e defesa (1968, p. 5).

Sodré, comentando sobre a sequência, afirma “tratar-se de um conjunto de golpes, que funciona como base da Regional”. Lembra que tudo começa com a ginga, um jogo de movimentos em pé, por meio do qual o capoeirista arma ataque e defesa com pés, mãos, tronco e cabeça (2002, p. 68).

A ginga é o movimento fundamental da capoeira, sem ela não tem jogo. Ela representa a personalidade do capoeirista, o seu jogo de corpo, sua postura corporal, identifica o estilo, apresentado num vaivém corporal de negaças e mandingas que serve para dar início aos golpes. A ginga não somente inicia os golpes, mas está presente em toda a sequência. É o aquecimento que enceta cada etapa. É o elemento responsável pelas retomadas do jogo e, por esses motivos explicitados, podemos afirmar ser a ginga a alma do capoeirista.

A sequência de ensino da Capoeira Regional configura-se como um jogo. Essa dedução está baseada nos estudos de Huizinga, quando ressalta que a essência do jogo consiste em sua intensidade, poder de fascinação e capacidade de exercitar, expressando-se através do ritmo, harmonia, coordenação, tensão, alegria e divertimento (1990, p. 5).

Para Caillois, um dos aspectos que constitui a natureza do jogo é o “sistema de regras que definem o que é e o que não é do jogo, ou seja, o permitido e o proibido”. Também chama a atenção dizendo que a “única coisa que faz impor a regra é a vontade de jogar, ou seja, a vontade de respeitar” (1990, p. 11). Outro fator inerente ao jogo é a idéia de amplitude, de facilidade de movimento e de liberdade.

A sequência de ensino idealizada por Bimba, além de possuir os atributos de jogo, propostos por Huizinga e Caillois, proporciona desafios e transcendência, pois sua prática, sempre em dupla, favorece a experimentação, em que um capoeirista observa o outro, provoca o outro, um instiga o outro a buscar um movimento mais perfeito, uma defesa mais efetiva, suscita o reflexo o tempo todo, motiva a mandinga, o jogo de corpo, a expressão corporal, aprimora as qualidades físicas e aproxima as pessoas.

Decanio costuma afirmar que, quando estão jogando, os capoeiristas transcendem o que chama de “transe capoeirado”, um estado modificado de consciência. “O capoeirista deixa de perceber a si mesmo como individualidade consciente, funcionando-se (sic) ao ambiente em que se desenvolve o jogo de capoeira”. Isso ocorre devido à “influência do campo energético desenvolvido pelo ritmo-melodia ijexá, cânticos e ritual da capoeira”; e destaca a complexidade crescente, os estímulos dos processos mentais, a criatividade, a atenção e o interesse do praticante, unindo a mente e o corpo, integrando o ser (2001, p. 43).

Luckesi diz, sobre a ludicidade, que a “atividade lúdica se caracteriza pela ‘plenitude da experiência’ que ela propicia a quem pratica” É uma atividade na qual o sujeito se entrega às experiências sem restrições mentais de qualquer tipo. E complementa, “é mais fácil compreender isso, em nossa experiência, quando nos entregamos totalmente a uma atividade que possibilita a abertura de cada um de nós para a vida” (1998, p. 10).

A sequência de ensino de Mestre Bimba tem suas regras definidas, tem seu rigor e ritual, todavia, não é algo hermético, fechado em si mesmo, ela abre múltiplas possibilidades, proporcionando sobremaneira a criatividade e a expressividade.

A sequência, que está dividida em oito partes, de graus de dificuldades crescentes, abre um diálogo entre os jogadores, promovendo desafios constantes, oportunizando que os praticantes busquem soluções, extrapolem os limites da roda e possam enxergar novos horizontes.

No jogo da sequência, o prazer, a alegria, a inventividade e a criatividade se fazem presentes a todo instante, pois a cada encontro, a cada jogo, acontece um evento diferente, com companheiros diferentes, suscitando cotidianamente novas experiências, novos desafios, novos experimentos, novas soluções e consequentemente novas realizações.

Abreu, referindo-se à sequência de ensino de Mestre Bimba, que intitula “rudimento de todas as aulas”, afirma ser ela “uma combinação de golpes e movimentos retirados de situação de jogo, que facilitava vários alunos aprenderem ao mesmo tempo” (1999, p. 39). Destaca ainda outros predicados, chamando veementemente a atenção para o ensino baseado na repetição, o saber fazer como fonte de compreensão, o conhecimento vivenciado na realidade, o desenvolvimento das qualidades físicas e o aprendizado rápido para a introdução do aluno na roda.

A sequência é uma ferramenta privilegiada do saber fazer, nela ressaltam claramente os elementos do jogo, marcada por ser uma atividade física e mental que possui um conjunto de regras próprias que conduzem a um resultado específico, imbricada no sentimento de perda e/ou ganho.

É um brinquedo respaldado na atitude do simples passatempo, de divertimento, entretenimento e lazer. O brincar tem um aspecto de proteção, de liberdade, de convivência com o mundo material e afetivo. Brincando na sequência, brinca-se de capoeira, assegura-se o desenvolvimento das habilidades motoras e se desempenham papéis diversos pela alegria e prazer.

É comportamental, devido à atitude dos jogadores que, no bojo da disputa, podem pretender obter vantagem sobre outrem, podendo caracterizar-se como um “jogo franco” ou um “jogo dissimulado”.

É movimento oscilante que se caracteriza pelo balançar do corpo, braços, pernas e cabeça em uma movimentação própria dirigida pelo ritmo, música, espaço e tempo. A força criadora e a energia vital emanada por um “jogo de dentro” e um “jogo de fora” são grandes.

Nesse contexto, destacamos as relações humanas, entendidas aqui como uma relação de pessoas ou de grupos que se expressa nas oportunidades, pelo jogo de interesses, jogo de sedução, jogo de palavras, jogo político, jogo de capoeira, jogo de poder etc.