Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Hellio Campos · Capítulo 58 de 66

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Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba

Mestre Itapoan

Eziquiel era o que podíamos chamar de um mestre perfeito: dominava como mingúem a arte do canto, tinha um timbre de voz exclusivo, que se encaixava bem nas cantigas da capoeira. Compôs inúmeras músicas, gravou um disco pelo Programa Nacional de Capoeira e participou como convidado especial de dois CD’s: o primeiro, da Associação Brasileira dos Professores de Capoeira (ABPC), em 1994, e o segundo, do Mestre Jelon, em Nova York .

Constantemente era solicitado para ministrar cursos, participar de batizados, formaturas e workshops no Brasil e no exterior. Era requisitado também para animar as rodas de capoeira, puxando o canto, tocando berimbau e regendo a orquestra, atividades que desempenhava com dedicação e alegria.

Vale ressaltar que ele tinha um excelente trânsito tanto na Capoeira Regional como na Capoeira Angola, por ser uma pessoa muito querida e sempre disposta a colaborar com qualquer roda.

Eziquiel, o “Jiquié”, foi jogar capoeira em “outras rodas”. Faleceu precocemente, no dia 26 de março de 1997, e no seu enterro amigos, alunos e capoeiristas realizaram uma roda de capoeira de despedida cantando músicas de sua autoria.

 

Mestre Itapoan

 

Raimundo César Alves de Almeida, conhecido na Capoeira Regional pelo nome de guerra Itapoan, em decorrência de morar no bairro de Itapuã, balneário inspirador do famoso cantor Dorival Caymmi, que fica bem distante do centro da cidade. “Fominha”, chegava cedo, pontualmente para as aulas de capoeira.

Nasceu em 13 de agosto de 1947, em Salvador, Bahia, no bairro de Quintas, rua Gonçalo Muniz. Filho de Erasmo de Almeida e Terezinha Alves de Almeida, irmão de Fernando Alves de Almeida e Erasmo de Almeida Júnior. Casado com Maria das Graças de C. S. Almeida, tem três filhos, Lucas, Érica e Pedro.

Seu pai, funcionário da Petrobrás, trabalhou no Rio Grande do Norte durante o período de 1953 a 1955, depois foi transferido para Maceió (AL), permanecendo nesta cidade até 1962.

Morador de Itapuã, bairro de lindas praias, de areia branca, água morna, vastos coqueirais e de uma encantada lagoa escura, Lagoa do Abaeté, onde os seresteiros em noite de lua cantavam os seus amores. Itapoan assim conta como a capoeira entrou na sua vida.

 

Um dia pedi dinheiro a minha mãe para me matricular em uma academia de

judô. Foi aí que um primo meu, Bôsco, me chamou para assistir uma aula de

Capoeira. Eu nunca tinha ouvido falar em Capoeira nem sabia o que era. Ele

me deu o endereço e eu fui. Falou Academia do Mestre Bimba, no Maciel e

eu, como não conhecia muito bem aqueles lados, fui parar no Pelourinho, na

Academia do Mestre Pastinha. Entrei e perguntei a um capoeirista que lá se

encontrava, se ali era a Academia do Mestre Bimba. O Cara disse que sim e

queria me matricular logo. Fiquei meio desconfiado e disse que voltava outro

dia. Quando cheguei em casa, meu primo me perguntou por que não fui,

contei a história. Então ele me disse que no outro dia me levava. Foi assim

que no dia 22 de setembro de 1964 eu vi pela primeira vez o que as pessoas

chamavam de Capoeira. Assisti à aula e fiquei impressionado mais ainda

com a figura que comandava aquilo tudo. Com seu berimbau na mão o

Mestre Bimba, um negro enorme, de olhar penetrante e riso largo, tinha

ganho mais um discípulo: me matriculei com o dinheiro do Judô e nunca me

arrependi! (sic) (Mestre Itapoan, 2005, p.91).

 

Itapoan sempre foi muito dedicado à capoeira. Chegava cedo à academia, treinava muito, encarava qualquer capoeirista, gozava de prestígio com os colegas, os calouros e os mais antigos. Por se dedicar exaustivamente aos treinamentos, desenvolveu um estilo próprio de jogar capoeira, apresentado uma ginga fácil, maliciosa, negaceada e golpes precisos. Entusiasta da técnica, estudava os movimentos de ataque, defesa e esquivas nos seus mínimos detalhes, porém seu fascínio era com as rasteiras, bandas e vingativas que aplicava como ninguém.

A avidez de Itapoan pela capoeira sobrepõe meramente a prática; ele estava o tempo todo perseguindo o conhecimento, investigando sobre seu objeto de curiosidade e para isso realizava longas conversas com Mestre Bimba, quando bisbilhotava sobre a vida dos capoeiristas famosos da Bahia, ouvindo atentamente as histórias contadas por Bimba. O mais incrível é que se interessava pelos acontecimentos ocorridos na academia, a trajetória dos principais capoeiristas do CCFR, participava intensamente da vida da Capoeira Regional, colecionava coisas (jornais, fotos, revistas, adereços etc.) da capoeira e já utilizava apontamentos.

Sua formatura aconteceu no dia 25 de julho de 1965; atento às recomendações do mestre, como de costume, chegou cedo para não pagar multa pelo atraso. Em 1966, participou do Curso de Especialização do qual guarda boas lembranças, especialmente das emboscadas na Chapada do Rio Vermelho. Não satisfeito, realizou integralmente o Curso de Especialização, em 1967, recebendo a “graduação” de “lenço amarelo”, conquistando definitivamente o respeito de todos.

Inquieto e cada vez mais motivado pela Capoeira Regional, continuou treinando muito, participando do Grupo Folclórico de Mestre Bimba, fazendo apresentações no Alto de Ondina (boite de Ondina) e no Sítio Caruano, ou seja, acompanhando Bimba onde quer que fosse.

Nesse período foi muito estimulado por Jair Moura, um aluno formado e com mais estrada de academia; historiador, cineasta e pesquisador que gozava de muita consideração de Mestre Bimba. Passou então a acompanhá-lo nas incursões às bibliotecas, realizando anotações, fotos, copiando jornais etc. Certa feita, me confidenciou: “passei a gostar de fazer pesquisa por conta do Jair, devo isso a ele”.

Com a experiência adquirida nas apresentações do Grupo Folclórico de Mestre Bimba, no qual Itapoan sempre teve uma participação marcante, alçou vôos, cada vez mais altos, chegando a vez dos grupos folclóricos baianos.

Vale registrar que na década de sessenta surgiram na Bahia excelentes grupos folclóricos e todos eles tinham como assunto principal a capoeira. Acordeon (aluno de Bimba) deu o primeiro passo, montando o show “Vem camará histórias de capoeira”, do Grupo Folclórico da Bahia. Com a participação neste grupo, Itapoan parte para novas experiências na “arte de capoeirar”, participando nas temporadas do Teatro Vila Velha, em Salvador, e do Teatro Jovem, no Rio de Janeiro, em 1966.

Tomando gosto pelo palco, passou a integrar, em 1971, o Grupo Olodum no espetáculo “Luanda silé, perturbações de exu”, premiado no 1o Festival Internacional, na Argentina, e “Diabruras da Bahia”, com o qual visitou as principais cidades do nordeste brasileiro.

Desassossegado por natureza, integrou ainda o elenco dos grupos folclóricos do Colégio Estadual Manuel Devoto, em 1968, fazendo várias apresentações em colégios e nas Olimpíadas Baianas da Primavera; e o Grupo Princesa de Ayoká, do Clube de Praia Avenida, uma agremiação fundada em 25 de março de 1964, por jovens moradores do Rio Vermelho, empreendendo viagens culturais e esportivas às cidades de Jacobina e Maceió. Ressaltamos ainda a participação no Grupo Folclórico Ganga Zuma, da Federação Universitária Baiana de Esportes (FUBE), que se apresentava principalmente nos Jogos Universitários Brasileiros, com destaque para os jogos realizados, em 1971, em Porto Alegre, uma breve temporada no Teatro São Pedro, em 1972, em Fortaleza e, em 1974, em Vitória do Espírito Santo. No Grupo Folclórico da Escola de Veterinária da UFBA fez várias apresentações no Parque de Exposições de Salvador e na Festa do Peão de Boiadeiros, em Barretos, SP, em 1971. Participou, ainda, do IIº Simpósio Brasileiro de Capoeira, patrocinado pela Academia da Força Aérea (AFA), que aconteceu no Rio de Janeiro, no período de 8 a 9 de novembro de 1969.

Neste evento, foi integrante, juntamente com Ângelo Decanio, Luciano Galo e Joseval Sacy, da comitiva de alunos formados que assessoraria Bimba. Chegando no Rio de Janeiro, não perdeu tempo e estreitou laços com capoeiristas locais visitando e participando do Grupo Senzala. Itapoan sedimentava a sua peregrinação pela Capoeira Regional, mas especificamente divulgando a capoeiragem baiana.

No contexto da Capoeira esporte, Itapoan disputou campeonatos internos da academia de Mestre Bimba, campeonatos universitários, organizados pela Federação Universitária Baiana de Esportes e a Federação Baiana de Pugilismo. Nesses eventos conquistou inúmeros títulos: Campeão do Torneio Mestre Bimba no CCFR, 1970 e 1971; Campeão Baiano Universitário (duplas e individual); e Tricampeão Baiano de Capoeira, na qualidade de técnico pela Ginga Associação de Capoeira.

Seguindo reto na trajetória de divulgação da Capoeira Regional, enveredou pela literatura, escrevendo os livros “Bimba, perfil do mestre”, em 1982; “Atenilo, o relâmpago da Capoeira Regional”, em 1988; “Bibliografia crítica da capoeira”, em 1993; “A saga de Mestre Bimba”, em 1994; e “Capoeira: retalhos da roda”, em 2005. Além desses trabalhos, idealizou e editou também a Revista Negaça, um boletim informativo da Ginga Associação de Capoeira. Já publicou dezenas de artigos para periódicos especializados e também é muito requisitado para dar entrevistas e fazer comentários sobre a arte da capoeira.

Na área acadêmica, é professor adjunto da Faculdade de Odontologia da UFBA; foi o primeiro professor da disciplina Capoeira I e Capoeira II do curso de Educação Física da Faculdade de Educação, Departamento de Educação Física da UFBA; professor do Programa de Melhoria do Ensino Nacional (PREMEN) e da Escola de Dança de Arte Integrada. É convidado especial para ministrar palestras nos Programas de Graduação e Pós-Graduação da FACED/UFBA, UNB, UCSAL, FTC, UNIME, USP, UFP e UNEB.

É muito requisitado para participar dos mais variados eventos ligados à capoeira, no Brasil e no exterior, transitando desembaraçadamente pelos seminários, simpósios, debates, mesas redondas, batizados, formaturas, entrevistas e rodas.

Em 1972, fundou a Ginga Associação de Capoeira, juntamente comigo, Mestre Xaréu, em que desenvolvemos trabalhos culturais, educativos e esportivos, com enfoque na preservação da filosofia da Capoeira Regional e na formação de novos mestres.

Em sua caminhada, fundou, em 1980, a Associação Brasileira dos Professores de Capoeira (ABPC), estando à frente dessa associação em diversas ocasiões. Em 1984, foi o mentor principal da fundação da Federação Baiana de Capoeira (FBC), assumindo a vice-presidência na primeira gestão; hoje, pertence ao quadro do Conselho de Mestres da Confederação Brasileira de Capoeira.

Quatro anos após a morte de Mestre Bimba, Itapoan, inconformado, juntamente com Carlos Senna e Dona Alice, embarcaram para Goiânia com a finalidade de trazer para Salvador os restos mortais. Itapoan conta que eles foram para Goiânia com muitas expectativas e incertezas de como seriam recebidos pelos alunos de Bimba, pelas autoridades competentes e como seria todo o processo de exumação e translado (1982, p. 73-75). Itapoan fala ainda da emoção que sentiu durante a roda de despedida, o encontro amistoso com os alunos de Bimba em Goiânia e a chegada em Salvador, acompanhada de fotógrafos, alunos e da imprensa escrita e televisiva.