Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba
A despedida de Bimba: vamo s’imbora camará!
A despedida de Bimba: vamo
s’imbora camará!
Mestre Bimba andava descontente com os poderes públicos baianos. Achava-se explorado e que não tinha o reconhecimento esperado. O governo do Estado, pelos seus órgãos de fomento ao turismo, sempre usava o seu nome e a capoeira para divulgar e promover o turismo baiano.
Decanio (1996, p. 127) sobre a viagem de Bimba para Goiânia, assim comenta:
…a mudança do Mestre para Goiânia…
…que prefiro chamar de…
…fuga da amargura e da desilusão…
…tem raízes no desgosto profundo…
…que lhe causava a falta do reconhecimento…
…de sua importância histórica e cultural…
…pelos nossos poderes públicos…
…na sua ingenuidade acreditava piamente que…
…dado o valor do seu trabalho…
…no campo de folclore baiano…
…pela recuperação da tradição do maculelê…
…pelo desenvolvimento da capoeira…
…pela divulgação do candomblé…
…no ambiente acadêmico de Salvador…
…e no Nordeste (sic)…
…O poder público…
…deveria prover o seu sustento…
…e propiciar os meios indispensáveis ao seu trabalho…
…a cada dia sua mágoa se acentuava…
Este desapontamento com os poderes públicos baianos parece ser recorrente a todas aquelas figuras dedicadas à cultura do povo e é uma questão histórica advinda dos resquícios de preconceitos, tabus e temores dos governos autoritários frente às manifestações culturais surgidas no seio popular, principalmente cultuadas pelos negros escravizados.
Tal desconsideração do meio capoeirístico assume proporções alarmantes, a exemplo de Mestre Pastinha, que foi desalojado pelo Patrimônio Artístico e Cultural do Estado da sua academia (Centro Esportivo de Angola), localizada no prédio de número 51 da rua Gregório de Matos, no Pelourinho, em Salvador, para que o governo fizesse a reforma do imóvel. Pastinha nunca mais voltou a esse local de origem. Vale ressaltar que o local era um dos pontos turísticos de referência do nosso Estado.
Pastinha passou a viver com uma mesada de três salários mínimos da Prefeitura de Salvador e da ajuda de alguns dos seus alunos mais chegados. Amargurado, cego e triste, morreu desamparado em um quarto malcheiroso no Pelourinho.
Outros mestres tiveram o mesmo destino, a exemplo de Caiçara, Canjiquinha, Valdemar da Liberdade, Cobrinha, Gato, Atenilo e tantos outros menos conhecidos, que sempre reclamaram da falta de reconhecimento, do desdém e do desamparo do governo baiano para como os homens inseridos na cultura, ou mesmo o respeito do simples cidadão.
Mestre Bimba tinha um perfil de homem austero, sério, atento a tudo e por esse motivo considerado uma pessoa de palavra. Era pontual no comprimento dos seus horários e acreditava nos seus alunos. Muniz Sodré (2002), Itapoan (1994) e Decanio (1996) também relatam que Bimba tinha uma confiança cega e até mesmo ingênua na palavra empenhada. Talvez por acreditar nas pessoas e ser um homem do tipo mandão, como disse D. Nair, “cabeça dura”, que não aceitava opinião de mulheres, é que por duas vezes caiu no conto do vigário.
O mestre foi para Goiânia, a convite do seu aluno Osvaldo de Souza. Osvaldo veio treinar capoeira na academia de Bimba, durante as férias, e começou a conversar com Bimba, mostrando as vantagens que ele teria se fosse para Goiânia. Prometeu duas casas mobiliadas, participação em shows folclóricos, academia e até aulas na universidade. Pegou o mestre num momento de fraqueza e de decepção com a Bahia.
Quando Mestre Bimba anunciou a sua decisão de ir para Goiânia, pegou todos os alunos de surpresa. Lembro-me perfeitamente das conversas na academia, dos comentários dos alunos mais antigos, que tentaram dissuadi-lo. Decanio, um dos seus alunos mais influentes, conta que tentou persuadir Bimba, por diversas vezes, a mudar de idéia e chegou mesmo a apelar pelo amor que lhe devotava por tantos anos, pela afinidade de filho, sem, contudo, lograr sucesso, pois o mestre estava mesmo decidido, fascinado pela viagem.
Acompanhado de duas famílias, vinte e três pessoas ao todo, Bimba partiu para a nova morada. Chegando lá, uma decepção: nas casas prometidas faltavam os móveis e havia tanta lama que foi preciso tirar de balde. O dinheiro era escasso e não dava para nada. Bimba se ressentia de não poder dar aos filhos a televisão tão esperada.
As desavenças com Osvaldo foram ficando cada vez mais ferrenhas, a ponto do mestre fazer uma declaração no Diário de Brasília, em 1º de outubro de 1973, dizendo: “aquilo é um lobo, foi um erro lhe dar o diploma; ele me prometeu duas casas completas. E o que é casa completa? É toda mobiliada não é não?”. Os desentendimentos passaram a ocorrer por vários motivos: falta de dinheiro, prestação de contas de shows, promessas não cumpridas e a divisão do mesmo espaço para o ensino da capoeira. Bimba costumava falar que cada academia só poderia ser orientada por um mestre, ou seja, um dono. Essa situação de dividir a maestria não combinava com a personalidade de Bimba.
Itapoan retrata com propriedade a conversa que teve com Bimba, quando visitava Salvador:
Encontrei-o na antiga Estação Rodoviária no dia em que ia voltar para
Goiânia. Conversamos muito, eu ele e o Alegria (um aluno formado) além de
D. Nair (sua esposa) e seu filho Demerval (Formiga). Ele falou que estava
muito bem em Goiânia, ensinando e apresentando sempre. Já dona Nair nos
disse: “Bimba foi enganado, não volta porque é muito orgulhoso”. Sentimos
que realmente o Mestre não estava bem em Goiânia, pois o Alegria o
encontrou em um ponto de ônibus, coisa que não fazia a vários anos,
andando só de táxi. Para mim contou que viera a Salvador com apenas Cr$
200,00 no bolso e que tinha pedido dinheiro emprestado para voltar. O filho
dele, Manoel, me disse que chegando em Goiânia, Osvaldo de Souza (que o
levou pra lá) tentou passar o Mestre para trás em shows e nas aulas, tendo
assim o Mestre rompido a amizade, ficando entregue a própria sorte. D.
Alice, esposa, disse que assim que o Mestre morreu ela tratou de vir para
Salvador, pois de falsidades ela já estava cheia! A verdade é que bimba
não estava bem em Goiânia. (grifo nosso) (sic) (1994, p. 108).
Um ano depois de Bimba deixar sua terra natal, no dia 5 de fevereiro de 1974, morria após se sentir mal numa apresentação no Clube dos Funcionários Públicos de Goiás. Ele, um homem que primava pelo empenho da palavra acordada, amanheceu naquele dia demonstrando sinais de que estava adoentado, mas mesmo assim foi cumprir sua obrigação de mostrar a Capoeira Regional. A rigor, o mestre nunca mediu esforços para apresentar a sua arte a quem quer que fosse e em qualquer circunstância. Era sua paixão, era sua vida.
Para Itapoan, morria “a maior figura folclórica da Bahia, a maior figura que a capoeira já produziu”; e salienta os predicados de um homem forte, e mesmo diferente, especial, capaz de se vestir de mulher para “jogar cartas, bater na polícia, e não ser reconhecido depois”; um homem que ao ser procurado pela milícia se camuflava e “passava as noites em cima de uma jaqueira, todo amarrado em um galho para não cair durante o sono” (1994, p. 111). O homem que promoveu a capoeira elevando o seu status e que a tirou de “debaixo do pé do boi”.
Seus familiares que o acompanharam em Goiânia são unânimes
em dizer que Mestre Bimba morreu de “banzo” 10. Ele que por diversas vezes afirmava “se não gozar de nada em Goiás, vou gozar do seu cemitério”, estava desiludido, humilhado e enganado, mas era muito teimoso e orgulhoso para voltar atrás.
A ida para Goiânia foi mais um capricho de Bimba, pois nos depoimentos dos seus familiares, eles achavam que a mudança para outra cidade não ia ser boa, não acrescentaria nada, uma vez que todos amavam a Bahia e suas raízes estavam fincadas na cultura baiana.
Concordo com Decanio sobre o fato de que nenhum dos seus alunos estimulou a viagem. Pelo contrário, todos estavam apreensivos, mas existia uma certa fascinação do mestre pela mudança. Também estou de acordo com Decanio, quando ele enfatiza não ser “justo responsabilizar Osvaldo, nem qualquer outro aluno pela mudança para Goiânia” (1996, p.128-129).
Vale lembrar que os discípulos mais próximos chegaram a implorar para que ele ficasse, houve até uma manifestação importante do radialista França Teixeira, o mais famoso e popular da época em Salvador. Todavia, a decisão estava tomada, e para seu filho Demerval “Formiga”, o que pesou mesmo foi o ressentimento. Bimba, dias antes da viagem, recebeu uma cobrança de impostos que não lhe cabia, pois era isento; ficou magoado, indignado pela consciência do valor da sua cidadania e da sua contribuição à cultura baiana.
O mestre estava tão decidido que acho que previa sua morte, pois se desfez dos seus principais imóveis, vendendo apressadamente a academia no Pelourinho e a sede de eventos no Sítio Caruano.
Depois do derrame sofrido por Bimba, durante a apresentação, a família passou por muitas dificuldades em Goiânia devido à falta de recursos para um pronto atendimento médico. Bimba, a exemplo de muitos cidadãos brasileiros, peregrinou por dois hospitais — Hospital Geral e São Francisco — sendo internado como indigente, sem o reconhecimento que tanto almejava.
Bimba foi enterrado no Cemitério Parque de Goiânia, acompanhado da família e de seus alunos. Jaci Fernandes Sobrinho, um dos seus discípulos, tocou o berimbau preferido do mestre, colocando-o, em seguida, junto ao seu corpo. Demerval “Formiga” e Manoel “Nenel”, seus filhos adolescentes, jogaram capoeira.
Os restos mortais de Mestre Bimba foram trasladados para Salvador, em 20 de julho de 1978. Coube a D. Alice, a Itapoan e a Carlos Senna essa empreitada, a serviço da Prefeitura Municipal de Salvador, que, sensibilizada, custeou as despesas e prometeu a confecção de um monumento em homenagem ao mestre criador da Capoeira Regional.
No entanto, a Prefeitura foi lenta na resolução do problema e os restos mortais de Bimba permaneceram dezesseis anos no Cemitério do Campo Santo, à disposição da Prefeitura, no sentido de dar-lhes o destino final e prometido, o que não aconteceu, apesar das insistentes notas veiculadas nos principais jornais de Salvador.
A família tomou a decisão e valeu a iniciativa de seus dois filhos, Demerval e Nenel, em dar um destino definitivo à urna mortuária. Organizaram uma missa, no dia 5 de fevereiro de 1994, na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Pelourinho, muito concorrida por populares, capoeiristas e ex-alunos. Em seguida, saíram todos em cortejo, pelas ruas do Centro Histórico e até o Convento do Carmo onde finalmente foi depositada.
Apesar dos infortúnios na mudança para Goiânia, mesmo com o pouco tempo dedicado à arte da capoeiragem, apenas um ano ministrando aulas e fazendo shows folclóricos, Bimba deixou o seu legado enraizado naquela terra, ainda que numa temporada de desgostos, sofrimento, depressão e banzo. Realizou aquilo que acreditava até o derradeiro instante, e hoje percebemos que ele desferiu um “golpe certeiro, um golpe de mestre”.
Não se têm parâmetros para medir o quanto Bimba contribuiu para a juventude de Goiás, representada, na atualidade, por diversos grupos de Capoeira que surgiram da relação multiplicadora dos seus alunos.