Capoeira Regional: a escola de Mestre Bimba
Mestre Senna
Carlos Senna nasceu em 28 de outubro de 1931, na cidade de
Salvador, Bahia. Foi reservista de 1 o categoria da Base Aérea de Salvador, formou-se em contabilidade pela Fundação Visconde de Cayrú, na Faculdade de Ciências Humanas. Iniciou sua caminhada na capoeira em 1949, pelas mãos do Mestríssimo Mestre Bimba, como gostava de citar em qualquer lugar que estivesse. Aluno muito aplicado, logrou sua formatura na Capoeira Regional em 1950 e era também chamado de Senna Preto.
Em 1953, teve o privilégio de ser escolhido para fazer parte do grupo e de ter participado da memorável turma do Mestre Bimba que fez uma demonstração de Capoeira Regional para o então Presidente da República, Getúlio Vargas, no Palácio da Aclamação, sendo governador da Bahia, na ocasião, o Dr. Régis Pacheco.
Como gozava da confiança de Mestre Bimba, assumiu a função de Diretor Técnico do CCFR, em 1954. Todavia, essa atribuição não foi duradoura, visto que, em 25 de outubro de 1955, fundou o Centro de Pesquisa, Estudo e Instrução Senavox, o que causou um malestar entre ele e Bimba, com sérios reflexos para os companheiros da Capoeira Regional.
Essa ousadia de fundar uma outra escola de capoeira, uma suposta concorrente da escola de Mestre Bimba, lhe trouxe sérios problemas de convivência no meio capoeirístico baiano, em particular com os alunos de Mestre Bimba, os quais não aceitavam de bom grado essa situação e por isso sempre ocorriam escaramuças em encontros de capoeira.
O Centro Senavox tinha como atividade precípua o ensino da capoeira estilizada balizada nos seus conhecimentos da Capoeira Regional e diferenciada na forma, no intuito claro de mostrar à comunidade capoeirística que tinha vida própria, por isso mesmo o termo Senavox representa a voz de Senna.
Pesquisador desassossegado, investigou e introduziu o uso do Abadá, um traje para os capoeiristas, baseado nos utilizados pelos carroceiros, estivadores e trapicheiros. Criou também uma saudação específica pela qual o capoeirista colocava a palma da mão direita no peito, na altura do coração e pronunciava a palavra Salve, ao tempo em que fazia um gesto suave de cumprimento ao companheiro de jogo.
A academia Senavox se estabeleceu na Rua Senador Costa Pinto, 802, Ed. Iria, subloja FJ, no centro da cidade. Esse local sede da Senavox foi palco de muitas aulas, experimentações de capoeira, como também um laboratório que serviu de base para o projeto da capoeira esporte.
Um feito marcante de Senna foi a introdução dos cursos de capoeira nos clubes sociais da Bahia, a exemplo do Baiano de Tênis e da Associação Atlética da Bahia, tidos na época como os clubes que reuniam a nata da sociedade baiana. Esse fato trouxe uma nova dimensão para a capoeiragem baiana, justamente por que a capoeira dava um salto qualitativo, resistindo aos preconceitos de uma sociedade hegemônica que considerava a prática da capoeira como uma atividade menor e até mesmo perigosa.
Mestre Senna também é o responsável pelo acolhimento da capoeira nas escolas, quando indicou um dos seus alunos mais graduados, o fita verde Milton Gesteira Diniz Gonçalves, para ministrar aulas de capoeira no Colégio Joãozinho e Maria, em 1959. Com essa iniciativa, ele abre as portas das instituições de ensino para a capoeira, mostrando, além disso, o valor dessa manifestação afro-brasileira para o processo educacional de crianças e jovens. Em seguida, um outro seu aluno, também fita verde, Fermar Lobão Alves Dias, ministrou aulas no Colégio Pernalonga, no início da década de 1970. O próprio Senna deu aula de capoeira no Colégio Militar de Salvador.
Senna gostava de escrever sobre capoeira e por esse motivo sempre estava colaborando com importantes revistas e jornais baianos. Manteve por um bom tempo a coluna ELO no Jornal IC, assim como criou sua própria revista, a Senavox, além de escrever dois livros. O primeiro, “Capoeira: arte marcial brasileira”, número 3 da coleção Caderno de Cultura, publicado em 1980 e editado pela Divisão de Folclore do Departamento de Assuntos Culturais da Secretaria Municipal de Educação e Cultura da Prefeitura Municipal do Salvador. O segundo foi “Capoeira Percurso”, publicado pela Senavox, em 1990, com prefácio do jornalista Virgílio de Sá.
Defensor ferrenho da capoeira esporte, Senna usou de seu prestígio político para impulsionar o projeto da Proposta de Regulamentação da Capoeira Esporte, junto à Federação Baiana de Pugilismo (FBP), à Confederação Brasileira de Pugilismo (CBP) e posteriormente no Conselho Nacional de Desportos (CND), que sancionou a capoeira como esporte em 1972. No final do parecer, datado de 26 de julho de 1972, o General Jair Jordão Ramos, assinala ser a favor de que a capoeira seja considerada um desporto e que as providências cabíveis de regras, estatuto, regulamento e divulgação ficassem a cargo da Confederação Brasileira de Pugilismo, entidade máxima do desporto de lutas, e que fosse dada ciência ao Ministério de Educação e Cultura, CBP e SENAVOX, academia responsável pelo encaminhamento do processo.
Entre as muitas participações em eventos de capoeira, Senna
esteve no 2 o Congresso Brasileiro de Capoeira na Academia da Força Aérea (AFA), no Rio de Janeiro. Polêmico, porém sempre com uma postura ética que lhe era peculiar, discutindo as questões a fundo, assentada no embasamento teórico de um pesquisador com seriedade de propósitos.
Foi Diretor Especial de Capoeira da Federação Baiana de Pugilismo e sua atuação foi coroada de êxito, justamente pelo trabalho realizado, especialmente num momento delicado de implantação da capoeira esporte. À frente deste departamento, realizou competições, das quais destacamos os campeonatos baianos, torneios seletivos e a Copa Senavox de Capoeira em comemoração ao seu Jubileu de Prata.
Teve destacada atuação como técnico das equipes baianas que participaram dos campeonatos brasileiros. Nesta função, mostrou competência levando a seleção baiana a conquistar, por duas vezes, o título máximo de Campeã Brasileira de Capoeira.
Duas outras realizações do Mestre Senna merecem ser lembradas. Ele foi fundador do Instituto Brasileiro de Estudos de Capoeira (IBEC), juntamente com os companheiros capoeiristas Arára, Itapoan, Acordeon e Sacy. A outra foi o esforço em que se empenhou para realizar, ao lado de Itapoan e Dona Alice, o traslado dos restos mortais de Mestre Bimba, de Goiânia para Salvador, com o apoio da Prefeitura Municipal de Salvador.
São muitos e relevantes os serviços prestados à capoeira. Com certeza, é uma tarefa ingrata tentar enumerá-los ou mesmo tentar qualificá-los em nível de importância; isso nos parece um tanto mesquinho e insignificante. Importante mesmo é conhecer as contribuições do Mestre Senna, que foram realizadas com coração e idealismo, permanecendo vivas na memória dos capoeiristas, nos livros, artigos, fotos e documentos para a posteridade, requerendo no entanto estudos mais aprofundados sobre sua obra e sua vida em favor da capoeira.
Mestre Senna desfalcou precocemente o rol dos capoeiristas dedicados ao bom jogo, a uma boa roda de capoeira e ao ensino e à pesquisa. Seu legado não tem precedentes e cabe a cada um identificá-lo e reconhecê-lo. Como gostava de citar: A BELICOSIDADE brasileira exercitada com arte, amor, respeito, elegância, equilíbrio mental e físico interpreta-se como Arte Marcial, e chama-se CAPOEIRA.