Duas Vezes Amor
Capítulo 1
Depois
Estava procurando por Sawyer há meio século quando o encontrei diante da máquina de raspadinha na loja de conveniência da Rodovia Federal, observando pelo vidro o líquido congelado de cor neon se revirar, como se esperasse que os mistérios do universo fossem revelados lá de dentro.
Pensando bem, talvez esperasse mesmo.
Paro. Encaro. Preciso de chiclete, refrigerante e uma caixa de biscoitos com formato de animais para Hannah, mas já sei que vou sair daqui de mãos vazias. Preciso estar na aula idiota de contabilidade em quinze minutos. A água da tempestade lá fora pinga da minha trança prática e cai no piso de linóleo fosco; uma poça minúscula se forma ao redor de meus pés.
– Oi, Reena. – Do nada, como sempre, sou surpreendida. Ele está tampando com cuidado o copo de plástico, mas ninguém jamais se aproximou de Sawyer LeGrande sem ser notado, e, quando ele se vira para me olhar, não se mostra nem um pouco surpreso. O cabelo dele está quase todo raspado.
– Oi, Sawyer – digo, devagar, e minha mente se enche de ruídos como o de ondas e rugidos. Passo o indicador pelo chaveiro e aperto; o metal frio belisca a pele da palma da minha mão enquanto me ocorre como é injusto que, depois de todo esse tempo sabe Deus onde, ele apareça bronzeado e alegre e me veja parecendo um lixo. Não estou maquiada. Meu jeans tem buracos enormes nos dois joelhos. Estou pelo menos cinco quilos mais gorda do que da última vez que nos vimos, mas, antes que eu me sinta devidamente humilhada, Sawyer já passou pelos salgadinhos de milho e pela carne seca e está me abraçando apertado. Como se fosse algo que fizéssemos muito.
Ele tem o mesmo cheiro, é a primeira coisa que noto, de sabonete e coisas que crescem na terra. Hesito.
– Não sabia – começo, sem ter muita certeza de que ignorância específica vou confessar: todas, talvez; dezoito anos de verdades universais que todos foram inteligentes o bastante para entender, exceto eu.
– Voltei ontem – diz ele. – Ainda não fui ao restaurante. – Sawyer abre um daqueles sorrisos lentos dele, torto, do tipo que venho tentando esquecer desde o sexto ano. – Acho que talvez eu esteja surpreendendo muita gente.
– Acha mesmo? – disparo antes de conseguir me controlar.
Sawyer para de rir.
– Eu... é – responde ele. – Acho.
– Certo. – Não consigo pensar em nada melhor para dizer. Não consigo pensar em nada, e sempre foi assim com Sawyer, embora fosse de se esperar que eu já tivesse superado, pelo menos, parte disso a esta altura. Quando costumávamos trabalhar no mesmo turno no Antonia’s, eu sempre deixava pratos caírem e esquecia quais pedidos iam para onde, misturando as contas. Uma noite, quando eu tinha quinze anos e ele estava no bar, uma mulher em uma das mesas pediu um Sex on the Beach, e levei tanto tempo até criar coragem para dizer as palavras a Sawyer que ela reclamou com meu pai do serviço lento e precisei limpar a cozinha depois que fechamos.
– Minha mãe me contou – diz Sawyer agora, deixando a voz sumir e tentando de novo. – Sobre...
Penso em deixá-lo ali, reticente, pendurado, mas no fim sou eu quem cede primeiro.
– Hannah – preencho o silêncio, imaginando o que mais a mãe dele contou. Não consigo parar de encará-lo. – O nome dela é Hannah.
– É. Quero dizer. – Sawyer parece desconfortável, como se esperasse que outra coisa acontecesse. Que eu simplesmente dissesse, talvez: Bem-vindo de volta, como foi a viagem, tivemos um bebê; mas mantenho o maxilar bem travado. Deixe que ele pondere desta vez, penso com malícia. Deixe que ele sue pela resposta, para variar. A raspadinha é verde-fluorescente, como um alienígena espacial. Minha trança deixou uma mancha úmida na camiseta. Sawyer muda de posição, desconfortável. – Ela contou.
Ficamos de pé ali. Respiramos. Consigo ouvir os murmúrios e o tagarelar do mercado ao nosso redor, tudo frio e iluminado pelos refrigeradores. Há um enorme e chamativo pôster de pretzels acima do ombro esquerdo dele. Imaginei isso de outra forma.
– Bem – digo depois de um minuto, tentando parecer casual, mas errando por muito, como a distância entre aqui e o outro lado do mundo. – Foi legal encontrar você. É melhor eu pegar o que vim comprar, ou, tipo... – Paro, tiro uma mecha de cabelo rebelde da testa, olho para as lâmpadas fluorescentes que zumbem no teto. – Sawyer, preciso mesmo ir.
O maxilar dele se contrai infimamente, o tipo de coisa que alguém não perceberia a não ser que tivesse passado a adolescência inteira olhando para o maxilar dele.
– Reena...
– Ah, amigo, por favor, não. – Não quero facilitar para ele. Não sou obrigada. Afinal, foi ele quem desapareceu, deu o fora sem nem dizer tchau, até mais tarde, amo você. Foi ele que simplesmente partiu. – Olha, seja lá o que pretende dizer, não se preocupe. Está tudo bem, certo?
– Não, não está. – Sawyer me olha e me lembro com tanta clareza de como ele era quando tinha oito anos, quando tinha onze, quando tinha dezessete. Sawyer e eu só ficamos juntos por alguns meses antes de ele partir, mas ele foi minha paixão por tanto tempo que teria levado meu coração junto, mesmo que jamais tivéssemos sido um casal.
Dou de ombros e olho ao redor para o sorvete, para os mostruários de tabaco mastigável e batatas fritas. Sacudo a cabeça.
– Claro que está.
– Por favor, Reena. – Sawyer se balança sobre os pés como se eu o tivesse empurrado.
– Não me deixe na mão aqui.
– Não deixar você na mão? – Sai mais alto do que pretendo, e me odeio por mostrar a Sawyer que ainda penso nele, que o carrego dentro de mim. – Todos achavam que você estava morto, jogado em um lugar qualquer, Sawyer. Eu achei que você estava morto, jogado em um lugar qualquer. Então, talvez eu não seja a melhor pessoa com quem falar sobre “deixar na mão”.
Soa tão antipático e contido que, por um segundo, meu incrível mágico Sawyer parece tão indefeso, tão completamente arrependido, que quase parte meu coração de novo.
– Não faça isso – digo, baixinho. – Não é justo.
– Não estou fazendo nada – diz ele, sacudindo a cabeça, recuperando-se. – Não estou.
Reviro os olhos.
– Sawyer, só...
– Você está muito bonita, Reena.
E assim, do nada, ele voltou a domar leões; essa coisa toda é tão surreal que quase sorrio.
– Cale a boca – digo, tentando parecer séria.
– O quê? Está mesmo. – Como se tivesse algum sexto sentido para quase me desestabilizar, Sawyer sorri. – Nos vemos por aí?
– Você vai estar por aí?
– É. – Sawyer assente. – Acho que sim.
– Bem. – Dou de ombros como se minhas mãos não estivessem trêmulas, como se não tivesse a garganta apertada. Eu tinha acabado de me acostumar com a ausência dele. – Moro aqui.
– Quero conhecer aquele seu bebê.
– Bem, ela mora aqui também. – Estou ciente de que há outras pessoas no corredor, clientes normais de uma loja de conveniência que não passaram por nada forte e inesperado hoje. Um deles me cutuca para que eu saia do caminho até os Cheetos. Do lado de fora, ainda chove canivetes, como se talvez o fim do mundo estivesse chegando. Respiro com o máximo de equilíbrio que consigo.
– Tchau, Sawyer.
– Até mais, Reena – diz ele, e, se eu não o conhecesse melhor, acharia que era uma promessa.