Duas Vezes Amor
Capítulo 18
Antes
– Acho que você fica grudento – dizia meu pai a meu irmão quando saí da cozinha do restaurante na noite de um sábado de muita ventania, no último fim de semana antes do meu segundo, e, com sorte, último ano de ensino médio. Havia um baile para o qual eu poderia ter ido. Peguei um turno a mais em vez disso. Passava da meia-noite e o Antonia’s estava vazio, meus sapatos de trabalho ressoavam no piso de madeira.
– Bem, o que é isso? É tipo um... Qual é a palavra? Começa com P. – Era Cade, inclinado sobre o bar com o terno comprado a preço de fábrica; ele tinha sido promovido naquele outono e trabalhava como gerente durante o dia e em alguns finais de semana. Ele e a noiva, Stef, estavam economizando para comprar uma casa.
– É plasma – respondeu Sawyer. Ele estava retirando copos da lava-louças atrás do bar e sorriu para mim quando me aproximei. – Aqui, pergunte a Reena. Ela saberá.
– Saberei o quê? – Apoiei o prato cheio de panquecas no bar e subi em um banquinho. A trança em meu cabelo estava desmanchando, dava para sentir.
– Tudo bem – disse Cade, a boca cheia de pretzels do bar. – Reena. Se eu jogo um balde de sangue em você – ele fez uma pausa dramática –, você fica molhada?
Hesitei.
– O quê?
– Fica molhada – repetiu meu pai, como se aquela fosse uma pergunta lógica. Ele estava animado e bobo naquela noite; ficava assim às vezes perto dos garotos. Parecia mais jovem do que era.
Apoiei o garfo.
– Antes de tudo, isso é nojento. Depois – me virei para Sawyer –, como eu saberia disso?
– Porque você é inteligente – respondeu ele, racional. – E pessoas inteligentes sabem das coisas.
– Ah, bem, nesse caso. – Revirei os olhos, tolamente satisfeita. Tinha feito o exame SAT de novo naquela manhã, na verdade, tentando aumentar ainda mais minha nota em matemática; o próximo passo em uma sequência lógica para dar o fora da cidade. – De qualquer forma, acho que ele está certo. Acho que você fica mais grudento do que molhado.
– Rá. Boa garota – disse papai, vingado. Ele beijou o topo da minha cabeça. – Vou sair daqui antes que Soledad chame a polícia. Quer vir comigo ou vai pedir que Cade a leve depois que fechar?
– Hum. – Hesitei, olhando em todas as direções, exceto naquela para a qual queria olhar. Eu deveria ter ido para casa, na verdade. Tinha entrado no jornal da escola, aconselhada pela sra. Bowen, e estava escrevendo uma coluna, “Pela cidade”, sobre festivais de rua e novas lojas na Rodovia Federal. Tinha que entregar duzentas e cinquenta palavras sobre um parque de esculturas perto da praia na segunda, logo cedo. – Posso ficar mais um tempo.
Sawyer reparou em meu prato assim que papai se foi e Cade, atrapalhado com as novas responsabilidades gerenciais, voltou para o escritório a fim de somar o total da noite.
– Ah, não é justo – disse Sawyer com uma careta triste e boba. – Finch fez panquecas para você?
Assenti, feliz, enfiando o garfo na pilha macia que me esperava no prato.
– Finch me ama.
– É... quem não ama? – Sawyer pendurou duas taças de vinho no suporte acima da cabeça dele. Então, esticou o braço sobre o bar, pegou o garfo da minha mão e se serviu de um grande pedaço.
– Ah, por favor! – gritei, fingindo irritação. – Arranje uma para você.
– As suas são melhores – disse ele de boca cheia.
Bufei um pouco, maravilhada e tentando não demonstrar.
– Sabe, eu não queria os seus germes.
– Reena – respondeu Sawyer em tom tranquilo, devolvendo o garfo. – Você já pegou meus germes.
Congelei por apenas um segundo, então comecei a rir. Era o mais próximo que tínhamos chegado de conversar sobre aquilo – o único indício que Sawyer me dava de que nem sequer se lembrava do que tinha acontecido –, e ouvi-lo dizer soltou um nó do meu peito que eu nem tinha notado que existia. Gargalhei como uma louca por um minuto, absurdamente aliviada, risos de hiena doida; parecia que não ria há um ano.
– Cale a boca – consegui dizer quando enfim recuperei o fôlego.
– Pronto, Reena. – Sawyer sorriu, revelando duas fileiras perfeitamente retas de dentes brancos. – Você tem estado tão séria o tempo todo, eu juro. Faço você rir, e isso melhora minha noite.
– É, bem. – Tomei fôlego, me acalmei um pouco. – Faço o que posso.
– Hum-hum. – Sawyer seguiu até o piano e se acomodou no banco. Embora meu pai tivesse investido no Antonia’s, tantos anos antes, em parte para que sempre tivesse um lugar para tocar música, ele só levou dois meses para perceber que os cuidados e a manutenção de um restaurante requeriam mais tempo e esforço do que havia previsto. Agora, ele só se sentava em seu xodó uma ou duas vezes por mês, em ocasiões especiais. No resto do tempo, ele contratava bandas.
– Algum pedido, senhora? – perguntou Sawyer, as mãos inteligentes já abertas sobre as teclas. Começou com algumas cadências rápidas, tocou depressa a abertura de uma música de Dave Matthews que era uma das preferidas de Cade, então se jogou em um jazz ao estilo da Costa Oeste que eu sabia que papai devia ter ensinado a ele. Dave Brubeck, reconheci depois de um momento. Música de comercial de carro.
Tem alguma coisa na qual você não seja bom? Eu queria perguntar a ele, mas apenas sorri, levei a mão às costas e puxei o elástico do cabelo.
– Toque o que quiser. Só vou ouvir.
– Queria que todos fossem fáceis assim. Venha se sentar.
Deslizei para fora do banco de bar e me sentei no banco do piano. Em algum lugar no fundo da mente, pensei nas fotos antigas que vira de meus pais, sentados ao piano vertical da casa de minha avó, o olhar sombrio de mamãe, a própria Antonia, fixo no rosto jovem de papai enquanto ele tocava.
– Você deveria usar mais o cabelo solto – disse Sawyer, me olhando, as mãos se movendo com agilidade em uma música que eu não conhecia. Nossas coxas se tocavam. – Fica bonito assim.
Gargalhei, mas Sawyer apenas acudiu a cabeça.
– Estou falando sério – disse ele, ainda tocando. Sua voz ficou grave e baixa. – Eu reparei em você, sabia? Mesmo antes da primavera passada.
Antes da primavera passada você estava namorando minha melhor amiga morta, pensei, mas não falei. Em vez disso, embromei.
– Ah, é?
– É. – Sawyer deu de ombros. – Você é... diferente.
– Diferente – repeti. Pensei em Lauren Werner, no fato de que, naquele exato momento, todos do meu ano estavam no baile de boas-vindas, exceto eu. Cansei de ser diferente, era a verdade. Isso me cansou. – De quem? De Allie?
Foi a coisa errada a dizer. Sawyer manteve os dedos nas teclas, não perdeu uma nota, mas seu corpo todo ficou tenso. Pensei nas cordas dentro do piano.
– Desculpe – falei, voltando atrás. Nem mesmo pretendia mencioná-la, não tão abertamente, mas ela ainda estava muito em minha mente, como se os seis meses desde o acidente de carro não tivessem feito nada para amenizar a saudade que eu sentia. Era de se pensar que perdê-la quase um ano inteiro antes de ela, de fato, morrer, teria amortecido o golpe, de alguma forma; mas eu só o sentia cada vez mais. – Não deveria... só quis...
– Não tem problema – disse Sawyer, ríspido, mas pela primeira vez naquela noite não gostei do som da voz dele. Imaginei o quanto Sawyer pensava nela. E me perguntei se ele sequer pensava em Allie.
– Tudo bem, mas...
– Eu disse que não tem problema, Reena.
Ficamos envoltos por um silêncio desconfortável e desafiador por um momento, até Cade surgir da cozinha.
– Está recebendo pedidos? – perguntou ele, então reparou em nossos rostos petrificados e olhou, de modo meio acusador, para Sawyer. – O que foi?
– Nada – respondi alto demais, tentando ao máximo manter a expressão neutra, e certa de que tinha acabado de destruir aquilo, o que quer que fosse, mais rápido do que sabia que podia ser destruído. – Está tudo ótimo.