Duas Vezes Amor
Capítulo 34
Antes
Eu estava indo a pé para a escola em uma manhã ensolarada de abril, totalmente perdida em meus pensamentos, tentando desatar um nó teimoso nos fones de ouvido e planejando a matéria que tentaria fazer Noelle aprovar naquela tarde, sobre rotas de viagem para adolescentes no verão. Quando ouvi uma buzina soar atrás de mim, saltei como louca, o iPod quicando pela calçada. Dei meia-volta, assustada, e lá estava o jipe de Sawyer, estacionado no meio-fio.
– Quebrou? – gritou ele, do assento do motorista. Sawyer tinha parado a meio quarteirão de minha casa, em meu caminho normal. Ele usava óculos escuros, mas, mesmo de onde estava, pude ver que ria. Sawyer tinha uma risada excelente.
Peguei o iPod do chão e o avaliei em busca de danos permanentes, mas, tirando alguns arranhões, parecia bem.
– Nenhum problema – gritei de volta, sacudindo a cabeça ao seguir para a porta do motorista. – Passei direto por você? – perguntei, envergonhada.
– Ã-hã. – Sawyer estendeu a mão e me beijou pela janela aberta, o sol morno da manhã se refletia na pintura cromada do jipe. Ele vestia uma camiseta azul desbotada que parecia ter sido lavada um milhão de vezes, como se pudesse se desfazer feito algodão-doce se fosse levemente puxada. – Você – pronunciou ele, os dedos entrelaçados nos meus e me apertando – se assusta fácil.
– Não assusto, não! – protestei, segurando o fone de ouvido e mudando de posição para acomodar a mochila. Precisei me abaixar em um ângulo esquisito para entrar no jipe. – Eu estava distraída.
– Obviamente. – Sawyer riu de novo, o rosto tão perto do meu que nossos narizes roçaram quando ele se mexeu. Eu sentia o suor brotar agradavelmente na minha nuca. – Então, é o seguinte – disse Sawyer, com uma voz baixa e confidencial, e parecia que ia me contar algo realmente emocionante, e que eu precisaria prometer mantê-la apenas entre nós. – Acordei pensando em waffles.
Ri com deboche.
– Isso é um código? – perguntei, implicando.
Sawyer ergueu as sobrancelhas.
– Quer que seja?
Dei de ombros e me aproximei um pouco, puxando os óculos escuros para baixo do osso do nariz dele com um dedo. No lado de dentro, o carro cheirava a Sawyer.
– Talvez – admiti.
– Talvez. – Sawyer apontou o queixo na minha direção e deu vários beijos no meu lábio inferior. Ele sorriu, e eu senti seu sorriso. – Entre e descubra.
Nossa, eu queria. Meu estômago se revirou com a força do quanto eu queria.
– Não posso – falei para ele apesar disso, sacudindo a cabeça. Suspirei um pouco para quebrar o feitiço. – Minha aula começa em, tipo, quinze minutos.
– E daí? – perguntou Sawyer. A boca dele seguiu a minha quando me afastei, ainda sorrindo. – Falte.
Gargalhei, esticando o corpo todo e limpando as mãos de súbito suadas na parte de trás do jeans. Eu ainda segurava o iPod.
– Não posso simplesmente faltar – falei, era horrível, claro, mas eu realmente não podia. Tinha uma prova sobre a primeira metade de Anna Karenina e uma reunião com a sra. Bowen para conversar sobre estágios de verão, além da reunião do jornal e de um relatório de laboratório para entregar. Precisava ir à escola... e logo, na verdade, se não quisesse me atrasar. – Não posso.
Sawyer, aparentemente, não tinha pressa alguma.
– Claro que pode – disse ele, tranquilo. – Aqui, vou mostrar. Apenas entre no carro, então vou acelerar, e depois, bum: waffles.
Franzi o nariz, o sol estava forte e os fones de ouvido tinham se enroscado em meus dedos, mais ainda do que no início.
– Simples assim, hein? – perguntei.
– Simples assim – concordou ele.
Não duvidei de que, para Sawyer, fosse exatamente simples assim: quando queria fazer algo, ele fazia. Fim de papo. Não parava para pensar em tudo o que poderia dar errado. Imaginei como era ser esse tipo de pessoa – o tipo que não está sempre preocupada com o que pode acontecer, com o que as pessoas pensariam ou com cada desastre que poderia recair sobre si no meio do caminho. Ele apenas... agia.
Pensei de novo na reunião sobre o estágio e na matéria do jornal que estava tão ansiosa para apresentar apenas cinco minutos antes, mas conseguia sentir a determinação perdendo força ao ficar ali e olhar para o rosto de Sawyer. Mesmo após namorarmos por um mês inteiro, era emocionante quando ele aparecia assim, saber que ele estava pensando em mim o suficiente para me procurar. Que ele achava que eu podia ser o tipo de pessoa que simplesmente age também.
– Você é má influência – falei, por fim, sentindo-me culpada, com um sorriso prazeroso estampado no rosto quando a ideia de passar um dia inteiro, e em segredo, com Sawyer começou a se firmar em minha mente. Olhei por cima do ombro, então para os pés, para que ele não visse o quanto eu estava animada. – É sério.
Sawyer assentiu, decidido.
– Eu sei – disse ele. Por um minuto, pareceu que Sawyer se sentia sinceramente mal com aquilo, como se achasse que estava me prejudicando de alguma forma. Então, ele sorriu como se fosse feriado. – Entre.
Pelo visto, waffles significavam mesmo waffles. Fomos a um Denny’s em péssimo estado na Rodovia Federal e pedimos grandes pratos de waffles cobertos com chantilly e mirtilo, uma porção gigante de bacon como acompanhamento. O joelho quente de Sawyer tocava o meu sob a mesa. Ficamos sentados ali pela metade da manhã, cercados por um bando de idosos e duas mães com crianças barulhentas em uma mesa próxima à janela, que parecia grudenta. Música brega de Michael Bolton saía dos alto-falantes. Estar ali em uma hora tão estranha era como estar de férias, como se estivéssemos muito mais longe de casa do que a apenas quinze minutos de distância: aquele parecia um grande truque que executávamos juntos, Sawyer e eu contra o mundo. Eu sabia que aquilo era idiota – eu estava matando aula, não roubando um banco ou coletando informações de inteligência internacional – mas, mesmo assim, não era exatamente uma fantasia repulsiva.
– Então, quantas pessoas aqui acha que são espiãs? – perguntou Sawyer, tomando um gole grande de suco de laranja e sorrindo como se tivesse lido meus pensamentos. – É o disfarce perfeito, certo? – Ele passou um pedaço de bacon em uma poça de xarope. – Ninguém jamais suspeitaria.
– Exceto você – observei, gargalhando. Eu estava absurdamente cheia, mas queria continuar comendo mesmo assim, para ficar naquela porcaria de restaurante o máximo que pudesse. Tomar tanto café que meu corpo começaria a vibrar.
– Bem, e você agora. – Ele assentiu para uma senhora em uma mesa não muito longe de nós, com vestido florido e Crocs laranja-fluorescentes. – Ela, por exemplo. Acha que só está sentada ali, cuidando da própria vida, comendo o Grand Slam, mas, na verdade, é uma agente especial da CIA. – Sawyer ergueu as sobrancelhas de modo ameaçador. – Só estou dizendo que ela pode estar envolvida em algo bem louco, tipo James Bond.
– Ah, é? – Inclinei o corpo sobre a mesa. – Qual é o codinome dela?
– Moons Over My Hammy – respondeu Sawyer, sem hesitar, citando o prato do cardápio. Ele cutucou minha perna com a dele sob a mesa, enganchando um dos tornozelos em volta do meu. – Dãã.
Depois que Sawyer pagou a conta, voltamos para a casa dele sem discutir o assunto, como se ambos meio que soubéssemos que acabaríamos ali. Ervas daninhas roxo-esverdeadas brotavam entre as rachaduras da calçada. Dentro estava silencioso e parecia vazio, todos os vários colegas de apartamento dele estavam fora ou dormindo, aquela sensação vaga de abandono que as casas têm no meio de um dia de semana. O ar tinha um cheiro um pouco sufocante. Havia um saco meio comido de Doritos no futon sujo e garrafas de cerveja espalhadas sobre a mesa de centro, além de uma que havia caído sem que ninguém se incomodasse em limpar o conteúdo do chão. Sawyer deu um sorriso sem graça.
– Eu, hã. Não limpei desta vez – admitiu ele.
– Tudo bem – respondi depressa, embora, na verdade, me deprimia um pouco pensar nele morando ali o tempo todo. Pensei na casa de estilo rústico de Roger e Lydia, arejada e imaculada, cheia de antiguidades reformadas e tapetes felpudos que cediam agradavelmente sob as solas dos pés. Imaginei se Sawyer tinha um plano de longo prazo.
Não tive muito tempo para pensar nisso, no entanto, pois no segundo seguinte ele me envolveu com os braços pelas costas, beijando toda a curva do meu pescoço. Estremeci por dentro da regata cinza.
– Ainda gosta de mim? – perguntou ele baixinho, a boca roçando o lado da minha orelha enquanto me levava na direção da escada. – Mesmo que eu more com um bando de vagabundos?
E... sim. Eu gostava muito, muito mesmo.
Depois disso, tiramos um cochilo, o corpo de Sawyer quente e sólido sob as cobertas, e nós dois caímos no sono e acordamos várias vezes. Ele tracejou as sardas de meu ombro com um polegar carinhoso. Eu quis poder embalar Sawyer no edredom e guardá-lo por vários dias, quis que nós dois ficássemos ali para sempre; eu não gostava de cochilar durante o dia, mas com Sawyer tudo parecia simples e relaxado.
Estávamos nos beijando de novo, sonolentos, Sawyer recolocando o peso do corpo sobre mim e deslizando a boca devagar pelo meu maxilar, quando a porta do quarto dele se escancarou:
– Ei, você está em casa? – perguntou Iceman aos berros. E então: – Opa. Desculpem, crianças.
Congelei, muito envergonhada, e soltei um arquejo de susto. Tinha recolocado a regata um pouco mais cedo, para beber água, então ele não viu nada, mas mesmo assim. Sawyer estava sem camisa; meu cabelo devia estar um desastre. Estávamos definitivamente no meio de algo muito específico. Senti o rosto corar, quente e vermelho.
Sawyer, no entanto, parecia não se incomodar.
– Ei, cabeça-oca – respondeu ele, virando-se e olhando para Iceman como se tivessem se esbarrado na cozinha ou na rua. – Quem usou todo o papel higiênico, hein?
Iceman riu com deboche.
– Ah, é, desculpe, fui eu. Aqui, posso compensar você. – Ele vasculhou o bolso por um minuto e puxou um saquinho como o que eu tinha encontrado no sapato de Sawyer na noite que passei lá, talvez meia dúzia de comprimidos dentro. Iceman o atirou na cama. – Foi o que vim entregar, para início de conversa. – Ele acenou para mim nesse momento, como se talvez tivesse acabado de lhe ocorrer como era desconfortável que estivesse de pé ali, olhando para nós como dois animais de zoológico. – Oi, Reena – disse Iceman.
– Boa – falei para Sawyer depois que Iceman enfim se foi, revirando os olhos e puxando as cobertas de volta. Eu me sentia vulnerável e meio nojenta, como se a redoma de vidro na qual eu tinha passado o dia tivesse sido quebrada de repente. Pela primeira vez desde que entrara no carro de Sawyer naquela manhã, me ocorreu que talvez eu devesse ter ido para a escola mesmo.
– O quê? – Sawyer franziu a testa para mim, ainda deitado de costas com um braço atrás da cabeça. – Não fique chateada. Ele não sabia que você estava aqui. Foi um erro inocente.
– Ele ficou e papeou por uns vinte minutos!
– Não ficou. – Sawyer sorriu para mim, vencendo. Estendeu a mão para mim. – Está bem, ele meio que ficou. Desculpe, está certa. Eu deveria ter dito a ele para ir embora na mesma hora.
Bufei um suspiro ruidoso, mas peguei a mão dele mesmo assim. Sawyer me puxou para eu sentar na cama de novo, encaixada na curva do corpo dele. Peguei o saquinho que estava aninhado nos lençóis.
– Quanto tempo vai levar para você acabar com eles? – perguntei, contando os comprimidos com o indicador pelo plástico. Eu estava estranhamente curiosa com relação a eles, pareciam tão inócuos, como Tylenol, Altoid, ou algo assim, mas, ao mesmo tempo, estar no mesmo quarto que os comprimidos, por si só, me deixava nervosa. Eu nunca tinha visto Sawyer usá-los. – Hum? – insisti. – Quanto tempo?
Sawyer deu de ombros sobre o travesseiro, sem querer responder. Ele ainda estava segurando minha mão.
– O suficiente – respondeu ele depois de um minuto. Não fiz mais perguntas depois disso.
Descemos para comer um pouco depois e encontramos Iceman e Lou jogados no futon, Judge Judy aos berros na televisão e o cheiro de maconha forte no ar.
– Desculpe de novo! – gritou Iceman, sem elegância. Encolhi o corpo. – Quer um pouco? – perguntou ele a Sawyer, estendendo o cachimbo. Então, para ser educado, acho: – Reena?
– Ah. – Fiz que não antes mesmo de pensar naquilo, tão instintivamente quanto não aceitar doces de estranhos. – Não, estou bem – respondi.
– Tem certeza?
Eu tinha. Sawyer não, então me acomodei em um pufe no canto enquanto ele fumava, assistindo a uma senhora de tomara que caia verde-limão defender a pensão alimentícia no Canal 5.
– Não mije na perna da juíza Judy e diga a ela que está chovendo – disse Lou. Sawyer gargalhou.
Roí as unhas, entediada e inquieta. De repente, estava incrivelmente ciente de tudo o que tinha dispensado. Eu não era uma pessoa que faltava em provas ou não aparecia em reuniões, nunca. Quando a juíza Judy devolveu à moça de tomara que caia os pagamentos dela, eu senti um ataque de ansiedade completo cutucando meu calcanhar.
Verifiquei o relógio – eram apenas duas e meia. Se eu saísse naquele minuto, poderia assistir à reunião do jornal, pelo menos. Talvez alcançar a sra. Bowen antes de ela encerrar o dia, explicar que tinha passado mal, mas me sentia melhor agora. Olhei ao redor em busca da mochila, tentando me lembrar se tinha subido com ela quando entrei, e minha agitação chamou a atenção de Sawyer.
– Algo errado? – perguntou ele, já ficando doidão. Imaginei se para passar o dia comigo ele precisasse ficar doido.
– Eu preciso ir – murmurei, tentando sair do pufe o mais graciosamente possível. – Está ficando tarde.
– O quê? – Sawyer franziu a testa para mim de onde estava, jogado no carpete imundo, os tornozelos cruzados e as costas contra o braço do futon. – Por quê, por causa da erva?
Corei, olhando para Iceman e Lou. Não queria que pensassem que eu era alguma corta-barato careta, mesmo que eu meio que me sentisse assim, alguém que não podia aproveitar algo tão ostensivamente inofensivo quanto matar um dia de aula.
– Não – respondi, depressa. – Não é isso, é só...
– Meio que parece – interrompeu Sawyer.
– Tudo bem, então – falei por fim, olhando para a mochila; ela estava perto da base da escada, onde eu a havia deixado antes que Sawyer e eu subíssemos aos tropeços para o quarto dele mais cedo. Levantei e joguei a mochila por cima do ombro. – Não é. Só faltei em um monte de coisas hoje, só isso. Vejo você no trabalho, está bem? – Segui para a porta, a mochila junto ao corpo como se fosse o casco protetor de uma tartaruga. Senti que aquele dia tinha se transformado bem rápido.
Sawyer me alcançou na minúscula varanda do bangalô – uma coisa boa, acho, pois percebi, quando passei pelo portal, que não tinha ideia de como voltar para casa.
– Reena – disse ele, esfregando a mão no rosto. – Por favor, não saia com raiva.
– Não estou com raiva – falei, e não estava mesmo. Não sabia exatamente o que era. Não conseguia entender como poderia me sentir tão próxima de uma pessoa em um minuto e logo depois nem ter certeza de que eu a conhecia. – Sinceramente, preciso ir. Eu me diverti muito hoje, sério.
Sawyer me abraçou em vez de responder, a camiseta azul quente e macia contra minha bochecha. Eu me acalmei um pouco assim que ele me tocou. E me deixei embalar.
– Tudo bem – disse Sawyer por fim, com a boca na minha têmpora e não parecendo totalmente convencido. – Eu também me diverti.