Duas Vezes Amor
Capítulo 32
Antes
Cade e Stefanie se casaram no fim de semana depois de o restaurante pegar fogo, de pé diante de Deus e de todo mundo, jurando amor eterno e devoção um ao outro, na riqueza ou na pobreza, até que a morte os separasse. A festa deveria ter sido no Antonia’s, mas, como a cozinha estava carbonizada, Finch montou tudo na nossa casa. Soledad e eu passamos o sábado inteiro desinfetando a casa, montando mesas no jardim e enchendo vasos gigantes com limas para os enfeites de mesa. Cade só andava de um lado para outro.
Agora, apenas alguns minutos antes da hora do bolo, eu estava na ponta dos pés no armário, vasculhando a última prateleira em busca da caixa de sapatos com as fotos do livro do ano que minha tia Carin precisava ver neste minuto, Reena, traga para cá. Eu tinha acabado de pegar as provas das fotos quando Sawyer passou os braços ao redor de minha cintura, por trás, apoiando o queixo recém-barbeado no meu ombro.
– Oi – disse ele.
– Oi. – Sorri olhando para meus cardigãs. Não me virei.
– Oi – repetiu Sawyer, então me colocou mais para dentro do armário e me virou para encará-lo. Sawyer seguiu para minha boca sem hesitação, encostando minhas costas nos casacos e nos jeans; senti cheiro de desodorante e lenços e ri.
– Veio me agarrar em um armário? – perguntei, e dei mais um passo para trás. – Isso é muito elegante, LeGrande.
Sawyer deu de ombros, sorriu um pouco.
– Podemos nos agarrar lá embaixo se quiser.
Ri com deboche.
– Tentador, mas vou recusar.
– Eu sabia – disse ele, fingindo tristeza. – Sou seu segredinho sujo.
– Ah, é mesmo.
Ele sorriu.
– Senti sua falta.
– Sou muito popular nessa festa.
– Estou vendo. – Sawyer olhou para fora do armário, para as paredes. – Você pintou?
Dei um risinho, olhando em volta.
– Tipo, uns dois anos atrás.
– Ah, nossa. – Sawyer riu. – Nem lembro da última vez que pude subir aqui.
– Eu lembro – disparei logo, então me encolhi. – Isso é vergonhoso.
– Nada. – Sawyer se sentou no chão do armário e pegou minha mão, puxando com carinho até eu descer para o lado dele. O indicador de Sawyer tracejou a alça fina do meu vestido. – Conte.
– Não. – Empurrei uma pilha de revistas Budget Travel do ano anterior, as páginas todas manchadas e dobradas pelo manuseio constante. Havia uma edição em especial com uma matéria sobre feiras livres em Londres que eu conseguia repetir quase palavra por palavra, exatamente como me lembrava de cada detalhe da última vez que Sawyer tinha estado em meu quarto. – É bobo.
– Segurando informação – implicou Sawyer, recostando-se contra a parede. Estava escuro ali: jeans e vestidos bloqueavam a luz do quarto e parecia que estávamos fingindo, como se estivéssemos em um forte. Enroscado no fundo de um armário estava um moletom antigo de Allie, vermelho e com uma enorme cruz branca na frente, de um verão em que ela trabalhou como salva-vidas. Peguei o casaco de repente, puxando uma das cordinhas do capuz. – Vamos lá.
– Não sei – falei, bufando um pouco enquanto pensava naquilo... na noite em que Sawyer foi jantar lá com os pais, o verão depois de nosso último ano antes do ensino médio. – Foi há muito tempo. Allie estava aqui comigo.
– Ah! – disse ele, lembrando-se. – Jogamos cartas?
Assenti. Buraco, eu poderia ter acrescentado. Allie pegou minha regata emprestada e você lhe disse que ela parecia velha para a idade, e desejei que ela fosse embora, pela primeira vez em nossa amizade, enquanto estávamos sentados ali, pensando que talvez você fosse reparar em mim depois que ela fosse embora.
Sawyer deve ter visto minha expressão mudar, porque me agarrou pela cintura com pressa, me puxou ainda mais para perto até minha cabeça estar no colo dele. Eu conseguia sentir os músculos das pernas dele sob a calça cinza de lã. Ela quase não tinha elasticidade.
– Não fique estranha.
– Não estou ficando estranha – protestei, embora me sentisse prestes a ficar. Eu não conseguia afastar a ideia de que Allie era a terceira pessoa naquele relacionamento, de que querer Sawyer, sentir culpa e sentir falta dela a ponto de doer eram como um pacote; as cordinhas do capuz se esticavam ao máximo. Olhei para Sawyer a fim de ver se ele também sentia isso, se sentia Allie, entulhada em meu armário bagunçado conosco, mas ele estava me olhando com indiferença. Falar sobre isso não muda nada, lembrei a mim mesma. – Conte algo bom.
Sawyer ergueu as sobrancelhas.
– Alguma coisa em particular?
– Não, não sei. Qualquer coisa. Diga qual é seu filme preferido.
– O poderoso chefão.
– Sério? – Fiz uma careta. – Previsível.
– Ah, e qual é o seu?
Dei de ombros e murmurei.
– Alguém muito especial.
– Porque essa é uma escolha ousada.
– Cale a boca – falei, e ele se inclinou para me beijar de novo... por mais tempo desta vez, as mãos livres.
– Ser invisível? – perguntou Sawyer, na direção de meu ombro. – Ou poder voar?
– Invisível, definitivamente – respondi. – Surdo ou cego?
– Cego.
– Por causa da coisa da música?
– Ã-hã. Quando vai me deixar ler sua redação?
Sorri; era uma piada entre nós dois agora, Sawyer dizendo que queria ler as palavras que eu tinha enviado para a Northwestern e eu me sentindo envergonhada demais para deixar.
– Algum dia – prometi. – Veremos.
Nós nos beijamos por mais um tempo, dez minutos escondidos com meus jeans e meus tênis, a camiseta da Northwestern que meu pai tinha encomendado na internet apesar de meus protestos de que nem mesmo tinha sido aprovada. Sawyer passou os dedos pelo meu cabelo. A mão livre dele desceu e fiquei tensa por apenas um segundo, mas, no fim, ele apenas apertou meu joelho, olhou para o conteúdo do meu armário e assentiu.
– Você tem muito espaço aí dentro – disse ele com um leve sorriso. – Queria que meu armário fosse grande assim.
– Para acomodar todas as suas camisetas de banda?
– Acha que é inteligente, hein? – perguntou Sawyer, as pontas dos dedos buscando as laterais do meu corpo. Fiquei de pé antes que ele conseguisse fazer cócegas, segurei o braço de Sawyer para tirá-lo do armário.
– Vamos, Sorrateiro – falei, sorrindo. – Preciso descer.
– Hum – disse Sawyer, sem se mover. – Não precisa, não.
– Preciso, sim. Meu pai vai vir atrás de mim. – Sorri. – Com a espingarda.
– Seu pai não tem uma espingarda.
– Claro que tem. Ele usa em caras que tentam me agarrar em armários.
– Anotado. – Sawyer sorriu e seguiu. – O que mais a irrita?
Suspirei e me abaixei de novo para nivelar nossos olhos.
– Pessoas que pronunciam errado a palavra nuclear.
Ele riu.
– Nerd linguística.
– Livro preferido.
– O som e a fúria.
– Está mentindo.
– Eu não sou completamente analfabeto, sabe.
– Não, claro que não. – Corei. – Só achei que diria, tipo...
– O apanhador no campo de centeio?
– Bem – falei, envergonhada. – Sim, na verdade.
Sawyer inclinou o corpo na minha direção.
– Não sou tão previsível assim. Primeiro beijo.
– Elliot Baxter, no baile do sétimo ano. O que, de verdade, você buscou com o baterista naquele dia?
Sawyer franziu a testa.
– Está bem – disse ele de súbito, levantando do carpete e tentando me escalar para sair pela porta do armário. – Está certa. Hora de descer.
– É, foi o que pensei. – Soltei o moletom de Allie e deixei que ele me puxasse consigo, um pouco tonta. Ficamos de pé sob a luz de meu quarto, súbita e forte. – Analgésicos, certo?
– Eu... – Sawyer ergueu as sobrancelhas, surpreso, e eu sabia que não estava errada. – O que a faz pensar isso? – perguntou ele.
Dei de ombros.
– Tenho olhos – contei a Sawyer. E também tinha Google. – Não sou burra.
– Nunca achei que fosse. – Ele não pediu desculpas, nem tentou negar. Em vez disso, passou os dois braços em volta de meus ombros e me deu um apertão amigável e familiar. – Não faço muito isso – prometeu ele. – Só de vez em quando.
Que frequência seria essa? Queria perguntar. Pensei em Lauren Werner e em longas noites na Prime Meridian, nos programas de intervenção a que Shelby gostava de assistir. Pelo que vi nos filmes e na TV, Sawyer não parecia um viciado – alguém que sua o tempo todo e rouba o DVD player dos pais. Mesmo assim, ali estavam partes tão grandes da vida dele sobre as quais eu não sabia nada – parágrafos inteiros censurados de cartas dos tempos da guerra, filmes modificados para o formato da exibição. Quem é você? Queria indagar, mas apenas assenti, guardando aquela informação, e tudo o que poderia significar, no fundo da mente para considerar depois e tentando ignorar a sensação de nó no estômago. Precisava que ele não fosse bom demais para ser verdade.
– Caramba – falei nesse momento, ao olhar meu cabelo no espelho acima da cômoda, com fotos, porta-joias e desodorante espalhados pela superfície. Quarenta e cinco minutos do trabalho manual cuidadoso de Soledad estavam totalmente desfeitos. – Viu o que fez?
Sawyer observou enquanto eu consertava o pior do estrago, me beijou na testa e sorriu.
– Você é bem bonitinha.
Mostrei a língua para ele.
– Está bem, seu destruidor de cabelos sob efeito de drogas. Vamos.
– Bem atrás de você, sua elitista intelectual obcecada por linguística.
Esperei mais cinco minutos depois que Sawyer desceu e me esgueirei para baixo o mais discretamente possível. Sujo ou não, ele não era um segredo, eu disse a mim mesma, mas aquele era o dia de Cade, e eu estava feliz. A última coisa de que precisava era mais um olhar sisudo e desapontado de meu pai, a sensação pesarosa de que alguma coisa não estava bem atrás das costelas.
Peguei um pedaço de bolo de casamento, fui até o quintal. Carin pegou meu braço enquanto eu passava.
– Reena – disse ela com curiosidade, uma expressão no rosto como se eu tivesse mudado inexplicavelmente nos trinta minutos desde que ela me vira. – Cadê as fotos?