Duas Vezes Amor
Capítulo 52
Antes
Eu me formei, pelo menos.
Era uma sonâmbula durante a cerimônia, sentada, vestindo a beca enorme e preta no auditório com ar-condicionado, ouvindo a oradora citar dr. Seuss enquanto tentava não vomitar. Shelby estava sentada três fileiras diante de mim e ficava olhando para trás e fazendo sinal de positivo com o polegar. Minha maior realização do dia foi conseguir atravessar o palco e pegar o diploma inútil sem cair no choro.
A sra. Bowen foi falar comigo depois, me abraçou para me parabenizar e pediu para conhecer minha família.
– Vocês criaram uma vencedora aqui, com Reena – contou a eles, alegre; se ficou espantada ao ver que o humor de todos naquele que era o mais promissor dos dias estava bem sombrio, ela não demonstrou. – Mal posso esperar para saber como ela vai se sair na Northwestern.
Houve um momento de silêncio nessa hora – provavelmente apenas um ou dois segundos, embora, para mim, parecesse ter durado algo em torno de nove meses e uma vida inteira. Soledad murmurava distraidamente. Papai pigarreou. Eu conseguia senti-los me observando, atônitos, mas, no fim, apenas abri meu maior e mais artificial sorriso e disse à sra. Bowen que ela não era a única.
Tentei continuar trabalhando nos turnos normais do restaurante, mas no fim ligava para dizer que estava doente com tanta frequência que, afinal, me substituíram por alguém novo, uma loira platinada com o rosto pálido e cheio de espinhas. Ela era legal o suficiente, e uma trabalhadora decente, contou Shelby, mas Lydia implicava com a menina até o fim.
– Mama LeGrande está pronta para a batalha – avisou Shelby depois de passar lá em casa com um filme, uma revista e um punhado generoso de fofocas que, ainda bem, não eram sobre mim. – Acho que agora deve ser um ótimo momento para contar a ela que sou lésbica.
Sorri.
– Lydia não se importaria com o fato de você ser lésbica – falei, folheando o tabloide lustroso. A TV tagarelava alegremente ao fundo. – Mas você poderia contar a meus pais, se quisesse. Talvez redirecione um pouco da raiva desta que vos fala.
Shelby não sorriu.
– Você não precisa fazer isso, sabe – disse ela de súbito. Estava pintando as unhas dos pés de azul-escuro, as janelas abertas para o calor grudento do lado de fora porque o cheiro me deixava enjoada. O jeans rasgado dela estava enrolado até a panturrilha. – Reena.
Suspirei um pouco, rolando sobre a cama para encarar o teto. Havia marcas desbotadas de fita adesiva ali, sobras de um pôster da ponte do Brooklin que Allie tinha me ajudado a pendurar quando estávamos no ensino fundamental. Eu o tirei junto com o resto.
– É, eu sei.
– Não, sério. Não quero, tipo, acertar você na cabeça com um panfleto do programa Filhos Planejados nem nada. – Shelby me olhou com determinação. – Mas realmente não precisa.
Gargalhei, mesmo sem vontade, um ruído sombrio e vazio.
– Acha que não pensei nisso? – perguntei, me apoiando em um cotovelo. – Acha que isso simplesmente não me ocorreu? É claro que pensei nisso, Shelby.
Shelby fechou o esmalte, os pés apoiados no batente da janela.
– Então? – perguntou ela.
– Então nada. – Dei de ombros sobre os travesseiros, resignada. – Papai me odiaria, para início de conversa.
– Entendo – falou Shelby devagar. – Mas não querer que seu pai fique com raiva de você não é motivo suficiente para ter um filho aos dezesseis anos.
– Obrigada, Capitã Óbvia. – Fiz uma careta. – Não disse que ele ficaria com raiva de mim. Disse que ele me odiaria. Quero dizer, ele já me odeia, mas é o tipo de ódio que talvez eu consiga ver diminuir depois de um tempo. Se fizesse um aborto, poderia muito bem fazer as malas e esquecer que um dia tive família. – Brinquei com um fio solto na colcha, observando-o se soltar. – De qualquer forma, não é nem isso de verdade.
– Tudo bem – disse Shelby. Ela passou o polegar no dedão do pé para ver se o esmalte estava seco, então se aproximou e deitou com a barriga para baixo na cama, ao meu lado. Os olhos verdes dela estavam atentos e curiosos. – Então o que é, de verdade?
Dei de ombros levemente, tentando pensar em como explicar – como dizer a ela que de algum modo estranho eu já tinha traçado uma linha entre minha vida antiga e a nova. Como dizer a ela que eu apenas sentia aquilo bem no fundo. Apesar de não querer, já tinha começado a pensar na pessoa crescendo dentro de mim como uma pessoa, um coração meio formado batendo, constante, sob o meu. Certa noite, já bem tarde, encontrei uma tabela no Google que falava sobre o tamanho do bebê em relação a diferentes tipos de frutas: seu bebê é uma uva, seu bebê é uma manga. Éramos eu e esse bebê do tamanho de uma manga agora, era como eu me sentia. Éramos tudo o que tínhamos no mundo.
– Não sei – falei por fim, virando-me para Shelby. Puxei os joelhos até a altura do peito. – Entendo que isso vai mudar minha vida inteira, Shelby. É só que... – Parei de falar e dei de ombros de novo, determinada e com medo. – Minha vida já mudou.
Shelby me olhou como apenas uma amiga de verdade consegue, como se o que eu tivesse dito fizesse algum fiapo de sentido. Então, ela suspirou.
– É, tudo bem, então, baby – disse ela baixinho. – Hora do rock and roll.