Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 51 de 53

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Duas Vezes Amor

Capítulo 51

Depois

Então, acontece. Eles encontram uma substituta para mim no restaurante; Cade compra pneus novos para minha van. Volto para casa do último dia de provas – uma de múltipla escolha do professor Orrin que, juro, ainda tinha a URL impressa no canto inferior – e encontro Soledad e papai tomando chá na cozinha.

– Hannah está dormindo? – pergunto, deixando a mochila no balcão. Precisamos sair para comprar alguns suprimentos de última hora, protetor solar e cadernos, romances em versão audiolivro. A programação é cair na estrada no fim da semana.

Soledad sacode a cabeça e olha na minha direção por cima da enorme xícara de cerâmica.

– Está no jardim – diz ela, depois de engolir. – Com Sawyer.

Não é o que estou esperando. Viro-me para papai, um pouco boquiaberta. Ele olha de volta com uma expressão que não é bem um sorriso.

– As coisas mudam – diz ele, cedendo, as sobrancelhas arqueadas com um toque de interesse. A cor de papai está bem melhor ultimamente. – Você, mais do que ninguém, deveria saber disso.

Sorrio, não consigo evitar, um sorriso incrédulo que contrai a lateral da minha boca.

– Acho que sim – digo a ele, e vou para fora, para o calor. Sawyer e Hannah estão sentados em uma espreguiçadeira lendo The Runaway Bunny, o rosto de Hannah está corado e sonolento e encostado em Sawyer como se ela o conhecesse a vida inteira. Penso no primeiro dia em que Sawyer a segurou, como pareceu travado e apavorado, e me surpreendo por um momento com a rapidez com que ele aprendeu a nadar. Sento no pátio para ouvir, colocando os pés sobre uma espreguiçadeira e esperando que o coelho volte para casa.

Normalmente, quando um livro termina, Hannah já está agitada e pronta para o próximo ou está entediada e quer brincar; hoje, no entanto, ela fica onde está, como se estivesse esperando alguma coisa. Sawyer acaricia os cabelos castanhos de Hannah e os afasta do rosto dela.

– Soube que estava partindo – diz ele para mim após um momento, os olhos ainda na bebê, na curva delicada do maxilar dela, na marca de nascença na lateral da boca de Hannah. Ela parece um pouco com nós dois, é a verdade.

Assinto e viro o rosto, concentrando-me nos tomateiros pesados e maduros. Deveria parecer mais satisfatória a ideia de que desta vez será ele quem vai ser deixado para trás.

– Parece que estou – respondo.

– Pensou bem?

– É claro – digo, com um pouco de emoção. Sinto os ombros se endireitarem, penso no itinerário que planejei tão cuidadosamente a vida inteira. – Tenho dinheiro guardado. Sou esperta e ficaremos bem. – Dou de ombros. – Se acontecer alguma coisa com a qual eu não saiba lidar, minha família está a um telefonema de distância. Quero que Hannah cresça vendo os lugares, sabe? Quero que ela sempre saiba o que há lá fora.

– Calma aí. – Sawyer sorri, despreocupado. Hannah está caindo no sono diante de meus olhos. – Não foi o que quis dizer. É claro que sei que não iria se não achasse que é uma boa ideia para a bebê.

Hesito, olho para ele por um minuto.

– Então...?

– Então. – Sawyer dá de ombros. Mesmo assim, não está me olhando. – Não sei. Acho que eu poderia ter sido um bom pai.

Fecho os olhos por um momento e me recosto na espreguiçadeira. Se tivessem me dito seis semanas atrás que esta conversa nem sequer existia no reino da possibilidade humana, eu teria rido até a lateral do meu corpo ficar dolorida e repuxada.

– Eu sei. – É tudo em que consigo pensar.

– Eu jamais, jamais, pediria para você não ir, Reena – diz Sawyer baixinho. – Vá. Faça o que precisa fazer. Já estraguei seus planos uma vez nesta vida. Não vou fazer isso de novo. – A bebê está dormindo agora, tranquila contra o peito dele; Sawyer muda o peso quente dela de lado em um gesto que reconheço como o que executo centenas de vezes por dia, uma série de reajustes pequenos e necessários. – Mas acho que só estou dizendo que estarei aqui quando e se você decidir voltar.

Por um segundo, apenas encaro Sawyer. Ele só pode estar brincando. Deve estar louco.

– O que vai fazer, esperar por mim? – pergunto, rindo um pouco. – Em Broward?

Sawyer não ri.

– É o plano. – É tudo o que ele diz.

– E fazer o quê?

Sawyer considera por um momento, aquela expressão pensativa exagerada que ele faz para disfarçar o fato de que já pensou.

– Quem sabe? – pergunta Sawyer por fim, e sei que não receberei outra resposta direta dele esta tarde, assim como sei que ele já se decidiu. – Manter meu bronzeado?

– Você é louco – digo. Sawyer inclina a cabeça para dar a entender que possivelmente, e reviro os olhos para ele, irritada e sentindo uma afeição estúpida ao mesmo tempo. Uma brisa morna e úmida faz dançarem as folhas dos coqueiros. – Meu pai acabou de me contar – falo. – Que você veio aqui antes de partir. Eu não sabia.

Sawyer ergue as sobrancelhas, assente um pouco.

– É, bem – diz ele, inclinando o queixo em minha direção. – Provavelmente foi melhor assim, não? Você mesma disse que não teria ido.

– Eu disse teoricamente.

– Não teria ido – diz Sawyer para mim, então sorri. Ao redor do pescoço, o pingente prateado de meia-lua que ele deu a Allie anos antes, enferrujado e familiar. Imagino quando e como ele o pegou de volta. É estranho ver o pingente de novo depois de tanto tempo, pedaços de nossas vidas antigas deslizando, despercebidos, para dentro das novas. – E estaria certa.

Não sei o que responder àquilo, então não digo nada, brinco um pouco com a costura da almofada e inclino o rosto na direção do sol. Sawyer se inclina para trás e fecha os olhos. Hannah apenas cochila, meiga e alheia, sonhos secretos flutuando dentro da cabecinha de bebê dela.