Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 29 de 53

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Duas Vezes Amor

Capítulo 29

Depois

Aaron me leva para comer comida mexicana algumas noites depois (eu vi a drag queen Celine Dion na farmácia lendo uma Us Weekly com um pacote tamanho família de M&Ms de amendoim, e por isso é a vez dele de pagar). Pedimos margaritas e tacos de peixe em uma mesa próxima à banda. O restaurante fica na esquina da casa dele, e voltamos para lá depois, os dedos firmes de Aaron entrelaçados nos meus.

Não paro de falar, tão tagarela que beiro a insanidade, mas por dentro me sinto ansiosa e desconfortável – inquieta e quase em pânico, como se algo dentro de mim empurrasse a pele por dentro, tentando sair. É apenas uma ansiedade comum, provavelmente, mas mal ouço uma palavra que Aaron diz a noite toda.

A verdade: não consigo parar de pensar em Sawyer.

– Tudo bem – protesta Aaron por fim, afastando-se um pouco. Estamos no sofá da sala dele, uma de suas grandes mãos apoiada em concha em minha nuca. Eu me sinto tensa desde as pontas das orelhas até os tornozelos. – Agora é você quem está estranha.

Fico surpresa por ele ter notado, na verdade; por Aaron prestar tanta atenção que possa perceber. Não estou acostumada a isso. Não sei se gosto ou não.

– Quem, eu? – pergunto, blefando, os olhos arregalados e inocentes. – Estou bem.

Ele não acredita em mim – sei que não acredita –, mas me deixa beijá-lo por mais um minuto antes de tentar de novo.

– Reena – diz Aaron, e passa a palma da mão para cima e para baixo do meu braço. – Por favor. Pode me contar.

Eu poderia contar a ele, acho, e quase conto, mas, em vez disso, meio que tomo as rédeas.

– E se eu ficasse esta noite? – pergunto. – Poderia buscar a bebê e depois voltar, e... – Paro. – Você sabe. Ficar.

Aaron parece surpreso, como se não estivesse esperando por isso.

– É claro – responde ele devagar, abrindo um sorriso alegre. – Eu adoraria, se é o que você quer fazer.

– Eu... é – digo com a voz um pouco esganiçada e desesperada, mesmo para meus ouvidos. – Sim.

O sorriso de Aaron hesita um pouco, bem nos cantos.

– Tem certeza?

– Aaron... – Abro a boca para reconfortá-lo, para dizer: é claro que quero, mas, quando a resposta sai, é de algum lugar dentro de mim que eu nem sabia que existia, algum lugar pequeno e escondido que não apareceria em um mapa. – Acho que precisamos dar um tempo.

Hum.

– O quê? – Por um segundo, ele parece total e completamente estupefato, como se eu estivesse falando uma língua desconhecida, e acho que não posso culpá-lo, quinze segundos atrás eu estava pedindo para passar a noite. – Eu não... – Aaron olha para mim, parecendo achar que estou ficando louca. – Por quê?

– Eu só... – Assim que sai de minha boca, sei que é verdade, que o que estou tentando fazer não vai dar certo. Que venho tentando forçar uma chave na fechadura errada. – Acho que preciso de um tempo, sabe? Com tudo o que está acontecendo com minha família, e a faculdade...

– O quê? O que está acontecendo na faculdade? – Essa é uma desculpa idiota, e Aaron sabe. Ele ainda está me encarando como se tivesse a visão ofuscada, o ódio começando a aparecer. – É por causa de Sawyer?

– Não – digo de imediato, ainda andando de um lado para outro. – Prometo que não é.

– Mesmo? – Ele ergue a voz, apenas um tom. – Acho que não entendo bem de onde isso saiu, se não é por causa de Sawyer.

– Está saindo de mim! – disparo. É o mais perto que já estive de perder a calma com ele: mantenho os sentimentos bem trancados. – Acho que estou inquieta, não sei.

– Vamos viajar! – sugere Aaron. – Para Keys ou algo assim. Podemos levar Hannah, ficar na praia por uns dias.

Você não está entendendo, quero dizer. É tão maior do que isso. Mas como ele poderia entender, na verdade? Jamais me incomodei em explicar.

A pior parte é que posso me imaginar sendo feliz com Aaron. Posso me acomodar por aqui, em uma casinha, com minha bebê, segura perto da família dele e da minha. Eu tiraria o diploma pela faculdade estadual. Trabalharia como garçonete no restaurante até Hannah crescer. Posso ver tudo isso planejado para mim, organizado, pequeno e prazeroso como um fim de semana em Keys, e isso me faz querer gritar, diferente de tudo o que já vivenciei. Não posso viver desse jeito para sempre. Não posso.

– Essa não é a solução – consigo dizer, a voz um pouco trêmula; nossa, já estou pensando que existe uma chance remota de eu ser a mulher mais burra do mundo. – Olha, Aaron, você merece alguém que fique cem por cento...

– Não faça isso – interrompe ele baixinho, e vejo que o deixei irritado. – Não transforme a questão em algo que eu mereço. Se não quer estar comigo, tudo bem, mas pelo menos me diga a verdade.

E, porque ele merece pelo menos isso, apenas... assinto.

– Desculpe – digo a Aaron, e dou de ombros, desesperada. Eu me sinto no olho de um furação, amedrontada e tranquila. – Mas acho que preciso ir.

Aaron me olha por um minuto, como se eu o tivesse destruído, como se eu não fosse nenhum pouco a pessoa que ele achou que eu fosse.

– É – replica ele por fim, dando de ombros também, um erguer ínfimo de ombros, magoado e pouco convencido. – Acho que precisa.