Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 4 de 53

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Duas Vezes Amor

Capítulo 4

Antes

– Estamos ficando velhas demais para isso – declarou Allie de súbito. Estávamos a manhã toda no balanço do canto do jardim enorme e imaculado dos pais dela: só nós duas, como sempre, os cabelos amarelos como milho de Allie roçando a grama conforme ela se lançava para trás o máximo que conseguia.

– Nós somos velhas demais para isso – falei. Eu estava de ponta-cabeça no escorrega de plástico, os joelhos dobrados, as mãos tateando, sem sorte, em busca de um dente-de-leão ou alguns capins para arrancar. O pai de Allie era fanático pelo gramado. Tínhamos quinze anos naquele verão, não dirigíamos ainda, sempre pegávamos carona com dois amigos mais velhos de Allie. – Essa é a questão. Cale a boca e balance.

– Está bem – disse ela, rindo. – Talvez eu balance. – Então, pensando melhor e endireitando o corpo com uma sacudida na cabeça de dar tonteira: – Quer tomar um café?

Franzi a testa. Em um minuto, ficaria quente demais para continuar deitada daquele jeito, mas o motivo pelo qual Allie queria ir tomar café era porque a amiga dela, Lauren Werner, trabalhava no Bump & Grind e dava iced mochas de graça, e eu odiava Lauren Werner.

– Você quer café?

Allie pensou nisso por um momento, os olhos semicerrados por trás dos enormes óculos escuros de aro de tartaruga.

– Não – disse ela, por fim, com um suspiro de derrota. – Só quero ir a algum lugar.

Eu estava prestes a sugerir um filme da matinê, ou talvez café na livraria, mas nesse momento a mãe dela surgiu à porta de correr da cozinha, o cabelo do mesmo loiro perfeito de Allie, mas com um corte curto e sério.

– Meninas? – chamou ela, recostada contra o batente, um pé descalço erguido para coçar o joelho da outra perna. – Fiz muffins, se estiverem com fome!

– Não caia nessa – disse Allie imediatamente. – Estão cheios de linhaça.

– Não diga isso a ela! – respondeu a mãe de Allie. A sra. Ballard tinha a audição de um morcego. – Não estão. Experimente um, Reena.

– Tudo bem – concordei depois de um momento. Eu costumava obedecer, e precisava fazer xixi. Virei o corpo para sair do escorrega e caminhei até a casa pelo verde forte e vivo da grama, o calor bem opressor já no começo do dia. – Já vou.

– Pegue o baralho também! – gritou Allie, e qualquer plano de deixar o jardim foi subitamente esquecido. Só estávamos jogando jogos de baralho de idosos naquele verão: bridge, copas. Era uma coisa que Allie nos colocava para fazer, a mais recente em uma longa sequência de verões com temas como Tranças de maria-chiquinha e A filmografia de Katherine Hepburn. – E papel e caneta!

– Mais alguma coisa, Vossa Majestade? – gritei para ela por cima do ombro.

Allie deu seu maior e mais bobo sorriso, atirando um chinelo de borracha na minha direção.

– Por favooor?

– Veremos.

Fiz xixi, peguei as cartas no quarto dela e abri a caixa de maquiagem na cômoda de Allie em busca do gloss labial Risky Business que ela havia comprado no início da semana no shopping. Peguei um pouco de sombra e dois absorventes internos, mas não vi o gloss e estava prestes a desistir quando meus dedos se enroscaram em uma meia-lua de prata oxidada em uma corda fina que reconheci – imediatamente, sem nem pensar, como se reconhece o próprio rosto no espelho – como sendo de Sawyer LeGrande.

Pisquei. Engoli em seco. Fiquei de pé ali por nem sei quanto tempo, o ar-condicionado central zumbindo baixinho ao fundo e meus pés descalços afundando no tapete cinza-pálido que ia de uma parede à outra, com marcas recentes do aspirador de pó da faxineira dos Ballard, Valencia. Por fim, saí – passei direto pela sra. Ballard, que estava segurando um prato de papel com dois muffins de mirtilo com linhaça, os quais, subitamente, me deixaram um pouco enjoada.

Allie ergueu o rosto quando me aproximei. Ela estava pendurada nas argolas àquela altura, girando o corpo diversas vezes, como fazíamos quando éramos pequenas, as pernas bronzeadas chutando o ar.

– Onde estão os muffins envenenados? – perguntou ela. Então, ao ver meu rosto: – O que foi?

Ergui o colar diante do corpo como se fosse radioativo, o pingente oscilante.

– Você roubou isto? – Exigi saber, e, mesmo para meus próprios ouvidos, pareci estridente.

Allie saiu do balanço. Ela assumiu uma expressão quase acusatória que nunca vi antes, como se uma grade de segurança tivesse sido abaixada.

– Estava mexendo nas minhas coisas? – perguntou ela.

– Se eu estava o quê? – Fiquei espantada. Mexíamos nas coisas uma da outra o tempo todo, Allie e eu, sem problemas. Ela poderia descrever o conteúdo das gavetas da minha escrivaninha de cor. – Eu estava procurando pelo Risky Business.

Allie hesitou.

– Ah – disse ela, e, do nada, pareceu normal de novo. Allie pescou o gloss de dentro do bolso traseiro do short. – Aqui.

– Obrigada. – Passei o gloss, ainda a encarando. A lua prateada quicava dos nós de meus dedos, e, quando entreguei o gloss a Allie, ela também pegou o cordão e o escondeu como um truque de mágica. – Então? – Insisti. – Roubou?

– Se eu roubei? – repetiu ela. – O que acha? Que sou algum tipo de clepto assustadora?

– Ah, como se você nunca tivesse roubado nada antes.

Allie inclinou a cabeça para o lado como se dissesse tem razão.

– Roubei este gloss, na verdade – admitiu ela.

– O quê? – falei. – No shopping? Achei que tivesse pagado por ele.

– Só disse a você que paguei. – Allie deu de ombros. – Foi quando você estava cheirando os perfumes.

Ah, pelo amor de Deus. Sentei bem no meio do gramado, joguei o corpo para trás e olhei para o céu aberto e inclemente. O ar parecia um cobertor molhado.

– Você precisa parar com isso.

– Eu sei – disse ela, e se deitou ao meu lado. Nenhuma de nós disse nada por um minuto. Eu conseguia ouvir o estômago de Allie roncando e o som baixinho de vespas próximas.

– Al – falei, por fim, tentando manter a voz firme, sem querer demonstrar meu estado de histeria. Ela era minha melhor amiga desde que tínhamos quatro anos. – Onde conseguiu esse colar?

Allie suspirou – uma bandeira branca oscilando –, como se eu fosse torturá-la até que me contasse a verdade e fosse mais fácil começar a falar de uma vez.

– Eu não o roubei – disse Allie.

Fiquei sem ar, tonta, embora já estivesse deitada.

– Não achei que tivesse roubado – falei para ela, e ao dizer aquilo percebi que era verdade. – Ele deu pra você?

Allie assentiu. Ela rolou para o lado, se apoiou em um dos cotovelos magros e me encarou.

– Eu ia contar – disse Allie por fim. – Não sabia como.

Pressionei os punhos contra os olhos: cores explodindo como fogos de artifício, algo detonando dentro de minha cabeça.

– Sawyer LeGrande deu esse colar a você – repeti, e quase caí na gargalhada, de tão ridículo que parecia em voz alta. – Desde quando anda com Sawyer LeGrande?

Lá estava a agitação em minha voz de novo, aquele tom estridente e louco, mas Allie apenas deu de ombros.

– Algumas semanas?

– Algumas semanas?

– Três?

– Três? – Sentei-me depressa; agora estava mesmo tonta. O jardim estava muito, muito quente. – E só estamos falando sobre isso agora?

– Ah, por favor, Reena – disse ela, também ficando de pé, com as bochechas vermelhas e um toque de desafio na voz. – Como se você fosse a pessoa mais fácil do mundo para falar as coisas. Principalmente isso.

– Não é verdade – falei. – Isso não é verdade e não é justo...

– Desculpe – disse Allie imediatamente, mudando o tom. – Você está certa. Desculpe. Deveria ter comentado com você.

– Deveria ter comentado comigo?

– Tudo bem, pode parar de repetir tudo o que eu digo?

– Não estou re... – interrompi-me bem na hora. – Al, essa não é uma pessoa qualquer, é Sawyer Le...

– O que você quer saber?

O que eu queria saber? Encarei-a, boquiaberta e idiota. Não fazia ideia do que perguntar. Senti, absurdamente e com algum pânico, que poderia estar prestes a chorar.

– Vamos – disse ela baixinho e depois de um momento me cutucou com o joelho. Allie odiava que as pessoas ficassem com raiva dela; quase não tinha tolerância para isso. – Não me olhe assim. Não você.

– Não estou olhando para você de jeito algum – falei para ela. – Só estou... olhando para você.

– Seu rosto está estranho.

– Não está! – Gargalhei, um ronco esquisito que não parecia nada com uma risada normal, mesmo para mim. – É assim que eu sou.

– Não é assim que você é – corrigiu Allie. – Pare. Só estamos andando juntos. Ele é amigo da Lauren. Eu o vi um dia no Bump & Grind e ele perguntou se eu queria, sabe...

– Se você queria o quê, exatamente?

– Se eu queria sair com ele! Não é nada de mais. – De repente, Allie olhou para mim com um pouco mais de atenção, como se estivesse tendo uma ideia. As pontas de suas orelhas estavam vermelhas do sol. – Você não está, tipo... chateada, está? – perguntou ela. – Sei lá, sei que sempre brincamos dizendo que ele é bonito e tal, mas você não, tipo... quero dizer, se você se importa mesmo...

– Não me importo – protestei de imediato, como se, caso eu enfatizasse o suficiente a minha mentira, ela pudesse se tornar um pouquinho verdadeira. No fundo, eu sabia que Allie estava certa: eu era famosa por esconder meus sentimentos. Se Allie não soubesse o quanto – o quanto imensamente – eu sentia o que quer que sentisse por Sawyer, a culpa podia ser minha por nunca contar.

Era tarde demais para dizer a ela agora, sentada ali, no quintal, como tinha feito centenas de outras manhãs de verão – porque Sawyer já a havia escolhido. Porque os dois já haviam escolhido um ao outro. A única coisa a fazer agora seria proteger a mim mesma com a mentira.

– Está bem – continuei, e dei de ombros de modo casual. – Vocês deveriam fazer o que os faz felizes. – Eu provavelmente teria continuado, teria oferecido ajudá-los a escolher a louça do casamento, talvez, mas, graças a Deus, lá estava a sra. Ballard à porta, a voz como uma buzina do outro lado do quintal vazio.

– Meninas! – Ela parecia irritada desta vez, impaciente. Imaginei o que ela tinha ouvido. – Querem comer ou não?

– Não queremos, mãe! – gritou Allie, e então se voltou para mim, esperançosa. Mas eu já estava me levantando, limpando o short e ajeitando o rosto em uma máscara de calma tranquila e artificial.

– Eu quero – falei, embora não quisesse de verdade. Atravessei a grama, o sol batendo na cortina castanha que eram meus cabelos. – Já vou – gritei, deixando Allie para trás.