Duas Vezes Amor
Capítulo 38
Antes
Não demorou, após a noite em que ele entrou escondido na minha casa, para Sawyer começar a me levar a festas nas vizinhanças de Hollywood – reuniões lotadas em bangalôs alugados longe da costa, engradados de Bud Light com trinta cervejas na geladeira.
– Só vamos dar uma passadinha – dizia ele, sempre, antes de entrarmos, mas, no fim, a passadinha costumava levar uma hora ou mais. Sawyer segurava minha mão no início, me apresentava a um amigo de Animal ou a uma garota que tinha se formado em minha escola um ou dois anos antes, depois saía, prometendo voltar logo, sempre dizendo que apenas precisava falar com um cara rapidinho, cuidar de um negócio.
– A não ser que queira... – Sawyer sempre começava, então parava de falar, me deixando preencher sozinha as lacunas: a não ser que eu quisesse relaxar, enfim, deixar de lado a mania insana de controle e ser, afinal, como todo mundo. Tirar a armadura. Deixá-lo feliz. A não ser que você queira.
Eu não queria, era o problema, e então me sentei no balcão em diversas cozinhas, bebendo cerveja quente de um copo de plástico vermelho e observando os minutos passarem no relógio digital do micro-ondas, torcendo para que ninguém, entre os que passavam pelo cômodo, conversasse comigo, e desejando estar em casa assistindo a reprises com Soledad. Minha madrasta gostava de jantares, bebidas e jarras de vidro cheias de margaridas no balcão.
– Reena, querida – teria dito ela se soubesse como eu estava passando minhas noites –, não é isso o que fazemos.
Não gostava de pensar em Soledad naquelas cozinhas. Não gostava de pensar muito em nada, é a verdade, então brincava para me manter ocupada: “Conte os bêbados”, ou “Coisas que eu queria estar fazendo agora”. Uma vez, levei um livro e me escondi na despensa para ler.
Sawyer sempre voltava em algum momento, contente e lerdo, literalmente sem nenhuma dor. Ele sempre ficava feliz em me ver, mas meu humor era um pouco mais imprevisível: às vezes eu ficava tão feliz por ele ter voltado que era superamigável, me enroscando nele antes mesmo de chegarmos em casa. Outras vezes, eu estava muito cansada e irritada. Naquela noite, Sawyer estava com os olhos sonolentos e vermelhos quando chegou passeando na sala de estar, e eu? Eu estava pronta para matá-lo.
Sentara-me ao lado da pia da cozinha, chutando os armários e ouvindo os sons da festa enquanto pessoas entravam e saíam do cômodo. Sem querer, eu tinha colocado a mão em algo grudento no balcão, e estava esfregando a palma na calça jeans quando Lauren disparou pela porta como um raio. Vestia uma blusa azul drapeada e botas de caubói que eu tinha visto em uma revista e exibia um grande sorriso.
– Oi, Serena! – disse ela alto demais. Pareceu um tapa na cara. Encolhi o corpo quando Lauren se aproximou, enfiei a cara no copo. – Ainda está na mesma cerveja?
Tentei sorrir, provavelmente não consegui.
– Ainda nela.
– Boa menina, boa menina. Posso fazer uma pergunta? – Lauren subiu no balcão ao meu lado e bateu com o ombro no meu como se fôssemos velhas amigas. – É verdade que sua família é, tipo, fanática religiosa? É por isso que você não se diverte de verdade?
– Não sei se os chamaria de fanáticos religiosos... – comecei, imaginando se Sawyer tinha dito aquilo, mas Lauren continuou.
– Não tem problema se eles forem. Não quis me intrometer. É que sempre tive a impressão de que o catolicismo é uma daquelas religiões que deixam as garotas muito frígidas ou muito divertidas, sabe? – Lauren gargalhou. – Enfim, acabei de deixar seu namorado na outra sala. Ele está doidããããão. – Lauren cobriu o nariz com um dedo e fungou delicadamente. – Boa sorte para levá-lo para casa hoje.
Ai, Deus. Fechei os olhos por um momento. Não que eu não soubesse o que Sawyer estava fazendo com os comprimidos que levava consigo com frequência cada vez mais – oxicodona produz uma onda similar à da heroína quando amassada e cheirada, obrigada pela dica, Wikipédia – mas ouvir aquilo de Lauren, como se fosse uma piada interna entre ela e Sawyer...
Eu queria encontrá-lo, tirar nós dois dali, pisar no acelerador e descobrir o que fazer depois disso. Lembrei-me, de súbito, das noites que passei no Antonia’s, quando tinha doze ou treze anos, sentada em um boxe perto da porta, tomando café e lendo enquanto meu pai, Roger e Finch fechavam o restaurante. Queria meu pai agora, era a verdade. O relógio no micro-ondas mostrava que ainda não era meia-noite, e eu estava pensando que todos deviam estar lá: Lauren estava completamente doida e eu tentava pensar em uma fuga cujas características teriam impressionado o próprio Houdini, mas a verdade era que eu era lenta e burra demais, e até ele tinha se afogado no fim.
– Sabe – dizia Lauren para mim, ainda papeando, uma alegria embriagada na voz. – Sawyer e eu costumávamos vir a festas aqui sempre, quando estávamos juntos.
Não.
Ele me disse que não. Que ele e Lauren jamais estiveram juntos – mas, de alguma forma, eu sabia, não sabia? Ou por que teria perguntado?
Hesitei.
– É mesmo?
Lauren estava um pouco bêbada, mas não a ponto de o brilho de seus olhos desaparecer.
– Desculpe. Isso é, tipo, estranho para você?
– O quê? – Sacudi a cabeça estupidamente. – Não. Não, continue.
– Não foi nada. Sei lá, éramos apenas crianças. Foi no ensino médio. Nós dois ficávamos bem doidões o tempo todo, e, tipo, tínhamos dezesseis anos. Éramos uma confusão. Era cômico.
É, muito cômico mesmo. Você devia usar essa história no circo, sério – coisa genial. Eu me agarrei ao balcão. Senti enjoo. Precisava sair dali.
O celular de Lauren tocou, e ela o tirou do bolso de trás; quase o deixou cair duas vezes.
– Ah, preciso atender – disse Lauren, animada, olhando para a tela. Ela desceu, cambaleando um pouco; Sawyer entrou quando ela saiu.
– Podemos ir agora? – perguntei a ele, antes de dizer oi.
Sawyer franziu a testa e ficou de pé entre meus joelhos.
– Claro – disse ele carinhosamente, então virou a cabeça na direção da porta. – Lá vai sua amiga.
– Certo. Sabe, na verdade, tivemos uma conversinha muito boa enquanto você estava ocupado. – Desci do balcão e peguei a bolsa. – Contei a ela para quais faculdades me inscrevi e ela me contou como se vende para conseguir dinheiro para drogas.
– Ai – respondeu Sawyer, me seguindo para o quintal, dando a volta na casa em direção à garagem. – Essas são acusações sérias vindas de um indivíduo tão puro. Ela não é uma puta viciada em crack, Reena.
– Eu sei. Ela é a Virgem Maria. – Era o meio de abril e estava muito úmido; a grama estava escorregadia e grudava em meus pés conforme passávamos pelo gramado. – Vá dormir na cama dela se gosta tanto assim de Lauren. Ah, espere.
– Ei, ei. – Sawyer franziu a testa, um tom agitado despontando na voz. – Qual é o seu problema?
– Eu gosto de como a implicação aqui é que a culpa, querido Brutus, não recai sobre nossas estrelas, mas sobre mim. Passe a chave do carro.
– Isso é Shakespeare?
– “Passe a chave do carro”? Não, eu inventei essa sozinha. – Eu me sentia ágil e afiada, como a lâmina reluzente de um bisturi. Parecia que eu também tinha tomado alguma coisa.
– Garota inteligente.
– Passe.
– O quê? Não. – Sawyer abriu a porta do carona e fez sinal para eu entrar. – Estou bem.
– Está brincando? Passe a chave do carro ou vou chamar um táxi.
– Sério? – Sawyer revirou os olhos para mim, mas entregou a chave. – Está bem. Aqui. Sabe, Reena – disse Sawyer, enquanto eu colocava o cinto. – Você não morreria se relaxasse de vez em quando.
– E um bom modo de fazer isso é deixar você bater o carro e me matar? Cale a boca, Sawyer.
– Qual é seu problema hoje?
– Deram cerveja para o cachorro. – Saí devagar da garagem para a estrada, mexendo, sem ânimo, nos botões das rádios salvas: eu estava tão irritada no momento que queria fazer barulho. – Viu isso? Estavam dando cerveja para aquele cachorro no pote de água dele. Acharam isso muito engraçado.
– Eles não machucaram o cachorro. – Sawyer riu um pouco com deboche, como se estivesse tentando ser inteligente. – De tudo o que aconteceu naquela festa, está irritada com o cachorro?
– Não, na verdade, estou irritada com Lauren von Vadia me contando em detalhes o histórico das descobertas sexuais dela enquanto eu estava na cozinha de uma casa em que nunca estive antes e você se entorpecia até cair. Mas o cachorro, preciso dizer que o cachorro foi o que de fato me levou ao limite. Pelo menos todo mundo estava embriagado por vontade própria. O coitado do cachorro foi forçado.
– Isso é uma metáfora?
– Quer que seja?
Sawyer apoiou o cotovelo na janela, esfregou a testa como se eu fosse uma criança malcriada.
– Podemos apenas não fazer isso agora, por favor?
– Por quê? – disparei. – Estou cortando seu barato?
– O problema é o meu barato?
– Não, é você ter dito que nunca transou com aquela garota quando obviamente transou!
– Ai, Deus. – Sawyer ficou em silêncio por um momento, apoiou a cabeça no banco. – Com Lauren? Ela disse isso?
– Entre outras coisas.
Eu meio que esperava que ele negasse, mas Sawyer apenas deu de ombros.
– Foi antes de você. Antes de Allie, até. Não foi importante.
– Eu perguntei e você mentiu.
– Você disse que ficaria chateada se eu tivesse transado com ela! Basicamente me pediu para mentir!
– Não mesmo – disparei, fazendo uma curva aberta à direita na Commercial. – Eu estava sendo sincera. Estava esperando o mesmo de você.
– Reena, querida, não quer que eu seja sincero com você.
– O que isso quer dizer?
– Quer dizer... – Sawyer se interrompeu. – Quer dizer que, de alguma forma, colocou essa ideia na cabeça de que quem eu sou não corresponde necessariamente à realidade. E, quando não ajo do modo que acredita que Sawyer LeGrande deveria agir, fica irritada. Como se eu não tivesse decorado meu roteiro, ou algo assim.
– Primeiro, isso não é verdade. – Ou era? – Segundo, eu nunca pedi que você agisse de qualquer modo, exceto que fosse honesto comigo. Sinceramente, acho que é você que tem um roteiro de como Sawyer LeGrande deveria agir. Como se precisasse ser legal cem por cento do tempo. Não precisa. Só precisa ser humano.
Ele deu de ombros.
– Eu só estava... Achei que estava dizendo o que você queria ouvir.
Pensei em Allie pela centésima milésima vez. Se não aguenta jogar flip cup com Lauren Werner... Estava se tornando um mantra irritante em meu cérebro. Eu me sentia tão violada no jipe de Sawyer com ele, engolindo o nó que sentia em minha garganta. Queria me enroscar em um canto e nunca deixar ninguém me tocar de novo.
– Ainda gosta dela?
– Reena. – Sawyer abafou uma risada silenciosa, incrédulo. – É por isso que a odeia tanto? Porque acha que gosto dela?
– Não, é por isso que odeio tanto você. Eu odeio Lauren por muitos outros motivos.
– Não diga que me odeia. – Aquilo o afetou um pouco; os olhos de Sawyer se semicerraram como se eu tivesse lhe dado um golpe. – Isso é maldoso.
– Assim como mentir. – Virei na entrada da garagem da casa em que Sawyer estava morando e pisei no freio. – Vá dormir, Sawyer. Trago seu carro de volta amanhã.
– Se é o que você quer fazer. – Ele saiu do jipe, e, por um momento, achei que fosse disparar para dentro da casa sem se despedir, mas Sawyer foi até a janela aberta do banco do motorista. – Me beije.
De perto, ele não parecia tão bem: pálido e quase macilento, os olhos brilhantes como na outra noite, em meu quarto. Sawyer cheirava a bar. Eu dei um selinho nele, rápido. Sawyer fez uma careta.
– É sério? – perguntou ele, sacudindo um pouco a cabeça. – Não vai me beijar?
– Eu beijei você.
– Não foi um beijo.
– Sawyer... – Eu estava atormentada. – Se você tivesse acabado de comer um pacote inteiro de Doritos, eu também não o beijaria.
– O que isso quer dizer?
– Nada. Não sei.
– Sabe, Reena, só acho que talvez, se tentasse... – Ele começou, e, do nada, eu me fechei cem por cento.
– Não ouse. – Consegui dizer, os braços cruzados como se eu estivesse morrendo de frio, embora fizesse vinte e seis graus. – Não.
– Ei – disse Sawyer, as mãos estendidas, recuando um passo. – Ei. Sou eu. Relaxe.
– Bem, não tente me fazer ceder à pressão social!
Ele gargalhou.
– Não estou tentando fazer nada com você. Só acho que todo mundo deveria tentar tudo uma vez.
Revirei os olhos.
– Isso é tão chato, Sawyer.
– Por que é chato?
– Por que precisa que eu o aprove?
– Não preciso!
– Então, faça o que quiser!
– Então não aja como se eu fosse um merda quando faço!
– Não ajo assim.
– Age, sim!
– Isso é ridículo. – Segurei o volante, apoiei a testa nas articulações dos dedos. – Talvez eu não devesse mais sair com você.
– Talvez não.
– Tudo bem, então. – Dei de ombros, ergui as mãos. A luz azul refletiu no rosto dele. Senti como se aquilo tivesse escapado de mim de alguma forma, quando não estava prestando atenção. – Só... tudo bem.
Sawyer colocou a mão dentro do jipe, passou-a pelos meus cabelos, até minha bochecha. Virei a cabeça e pressionei os lábios contra a palma da mão dele.
– Até amanhã – disse Sawyer, devagar, mas, mesmo naquele momento, parecia um adeus.