Duas Vezes Amor
Capítulo 30
Antes
– Olhe para ele – disse Shelby, de pé no pódio na quinta-feira à noite, riscando um grupo de cinco da lista durante o recesso de primavera do segundo ano, a praia fervilhando, o restaurante inteiro lotado. Shelby gesticulou para o bar, parecendo enojada. – Ele acha que é a porcaria do Don Juan DeMarco. Sabe, se eu estivesse me jogando nos clientes daquele jeito, pode apostar que ouviria algumas. Ou, Deus me livre, se você estivesse.
– O quê? – Olhei para trás, uma cesta de pão em uma das mãos e uma jarra de água na outra, e tentei parecer bem desinteressada. Sabia que Shelby não era exatamente fã da minha relação com Sawyer.
– Você chama de sair, eu chamo de masoquismo. – Ela gostava de dizer, franzindo o nariz cheio de sardas. – Diferença nenhuma.
E talvez fosse masoquismo: de fato, naquele momento particular, Sawyer estava inclinado sobre o bar, envolvido em uma conversa animada, definitivamente um flerte, com duas garotas que reconheci da escola.
– Hum. – Foi tudo o que falei antes de entregar a cesta de pão, fazendo o melhor para ignorar a pontada forte de ciúme, o peso no peito. Nem sequer estávamos namorando, eu não achava. Duas semanas depois da cena na calçada, eu ainda não sabia o que éramos.
Tanto faz. Eu estava bem. Sawyer gostava de garotas. Naquele momento, ele gostava daquelas garotas.
Mas percebi, ao passar por Shelby quando voltava para a cozinha, que as duas estavam segurando taças de vinho meio vazias.
– Ah, que babaca – murmurei.
– Nolan, mesa para quatro? – chamou Shelby. Ela se virou para mim, sentada bem esticada no banquinho. – Vá em frente. Dê uma de caubói.
Fui até o bar, olhei com raiva até chamar a atenção dele.
– Posso falar com você um segundo?
Sawyer sorriu para mim, tirou o pano do ombro e o deixou sob o balcão.
– Oi, linda.
– Não me chame assim – disparei, enquanto Sawyer me seguia para o corredor dos fundos, perto do escritório.
Ele franziu a testa.
– Por que não?
– Porque não é legal. – Fiz uma careta e olhei para as garotas, uma das quais tinha SEXY escrito com strass na camiseta. Eu odiava isso. Era como precisar explicar uma piada. – Você não pensa? Quero dizer... – Fiz uma pausa, tive dificuldade para encontrar as palavras. – Você não pensa?
– Eu não... – Sawyer apoiou a mão no meu braço. – Do que está falando?
Desvencilhei o corpo do toque dele.
– Você serviu as duas?
– Se eu servi quem?
– Aquelas garotas. – Assenti na direção delas. – Helga e Olga, não sei bem os nomes. – Engoli em seco. – Você as serviu?
– Sim – disse ele, sem nem hesitar. Parecia confuso. – Por quê?
– Elas fazem educação física comigo, Sawyer. Estão no ensino médio.
– Ah. – Sawyer olhou para elas e de novo para mim. – Ops.
– Ops? – Minha voz estava esganiçada, eu sabia disso, mas àquela altura não me importava. – Sério, ops? Esse é um bom modo de meu pai perder a licença para vender bebida alcoólica.
– Reena, relaxe. Ninguém vai perder a licença. Eu não pensei em verificar, mas...
– Só estou dizendo que, talvez, se passasse um pouco menos de tempo... – Parei. Um pouco menos de tempo fazendo o quê? Olhando para garotas gostosas, era isso, mas eu não podia dizer em voz alta. Sawyer piscou para mim. – Uau – disse ele, após um momento. – Tudo bem. Você está irritada.
– Sim, estou.
– É bonitinho. – Duas depressões que por pouco não se tornaram covinhas surgiram nos cantos da boca de Sawyer.
– Pare de me dizer coisas assim. – Fiz uma careta. – Sabe, nem toda garota no mundo fica impressionada com você.
Ele assentiu, sério.
– Cerca de três quartos delas.
Meu Deus, ele era tão canalha às vezes. Senti vontade de gritar.
Shelby surgiu nesse momento, dedos frios se fechando sobre meu pulso.
– Está bem cheio lá fora, chefe – disse ela, indicando o bar.
Sawyer assentiu.
– Já vou – disse ele, me olhando. – Reena...
– Esqueça – falei, sacudindo a cabeça. – Esqueça.
Saí batendo os pés, estampei um sorriso no rosto, voltei para minhas mesas e enfrentei, irritada, o movimento do jantar. Cerca de duas horas depois, eu estava no corredor dos fundos, olhando pela janela para o pátio e tomando uma xícara de café, quando o ouvi se aproximar por trás.
– Procrastinadora – disse ele, como cumprimento.
– Estou no intervalo.
– Eu sei. Estou brincando. Olhe, Reena, o que aconteceu...
– Não – interrompi. Já me sentia burra, ciumenta, imatura. – Não quero falar sobre isso.
– Pisei na bola, está bem? Desculpe. Mas ninguém se feriu.
– É claro. Está certo. – Comecei a me afastar, mas Sawyer segurou meu braço. Puxei de volta. – Não.
– Por quê? – Sawyer se mostrava bem confuso. Ele parecia o menino Christopher Robin, do ursinho Pooh. – Reena, não sei qual é seu problema comigo hoje, mas...
Nesse momento, as palavras de Sawyer foram interrompidas pela sirene alta e esganiçada do alarme de incêndio: vi o rosto dele se enrugar, os olhos se arregalarem.
– Puta merda – disse Sawyer baixinho, e, quando me virei para olhar para trás, vi a fumaça saindo pela porta da cozinha.
– Ai, meu Deus.
– Merda. Vá – disse ele, girando a maçaneta da porta dos fundos e me empurrando por ela. Eu conseguia ouvir as pessoas gritando do lado de dentro.
– Sawyer, meu pai...
– Reena! – Ele segurou meu braço e me guiou para o pátio. Minha xícara de café quebrou no concreto. – Vá.
Foi um incêndio de gordura, soube mais tarde, pequeno, rápido e fedido. Ninguém se feriu, mas os danos na cozinha foram o bastante para manter o restaurante fechado durante o fim de semana. Manchas escuras com aparência úmida subiam pelas paredes como dedos retorcidos; o salão de jantar inteiro fedia a óleo e fumaça.
Papai apoiou a mão em meu ombro enquanto eu estava sozinha a uma das mesas algumas horas depois. Ele já havia mandado Shelby e o resto da equipe de garçons para casa.
– Tenho algumas coisas para terminar aqui – disse ele. Parecia exausto; mais cedo eu o vira tomando antiácidos e fiquei preocupada, por um breve minuto, com o estresse em seu coração. A ideia de que poderíamos ter perdido o restaurante me deixou em pânico e com instinto protetor sobre o lugar e sobre meu pai. Pensei que partiria para a faculdade em alguns meses e senti uma pontada de saudade dele, embora papai estivesse bem diante de mim. – Pode esperar mais um pouco?
– Posso levá-la, Leo. – Era Sawyer, aparecendo do nada como um fantasma. Eu imaginava que ele tivesse ido embora sem despedida ou explicação, como naquela noite no hospital. – Posso levar Reena para casa.
Papai olhou para Sawyer por um bom tempo, e então, para mim. Por fim, ele suspirou.
– Direto para casa – disse ele, e eu sabia que devia se sentir bem pior do que parecia. – Sério.
– Direto para casa – prometeu Sawyer. – Com certeza.
Assenti, fiquei de pé, dei tchau para meu pai. Sawyer abriu a porta do restaurante com o ombro largo e xingou baixinho ao sentir a lufada de vento entrar.
– Congelando – disse ele, embora definitivamente só estivesse frio para a Flórida, e pegou minha mão de maneira tão casual que fiquei me perguntando se sabia que o tinha feito. Engoli em seco e tentei ignorar o contato simples, as ondas de choque irradiando para meus ossos.
– Não tem um casaco? – perguntou Sawyer. Ele franziu o lindo nariz conforme nos apressávamos pela lateral do restaurante até o estacionamento.
– Ficou na cozinha. – O céu estava carregado, cheio de nuvens espessas e roxas.
– E é muito útil para você lá – disse ele ao abrir a porta do carona. – Tem um moletom no banco de trás.
O garoto tinha educação, pelo menos, pensei. Lydia cuidou bem dessa parte.
– Estou bem – menti.
Sawyer se sentou atrás do volante, tateou no banco de trás e pegou um moletom cinza. Parecia irritado.
– Reena, pode esquecer seus princípios ou o que seja por um segundo e aceitar o casaco? Vai levar alguns minutos até o carro aquecer.
Ele parecia tão bonito no escuro, e me vi assentindo.
– Tudo bem.
– Que bom. – Sawyer acelerou. – Não foi tão difícil, foi?
Não respondi.
– Vai ficar bem caro – falei.
– É para isso que serve o seguro.
– Acho que sim. – Empurrei um CD para dentro do aparelho. John Coltrane: A Love Supreme. Encostei a cabeça na janela quando a música começou.
– Então – disse Sawyer. – Quanto a antes.
Suspirei.
– Sawyer, podemos, por favor, por favor, esquecer de antes? Eu fiquei irritada sem motivo. Às vezes ajo assim. – Era mentira. Eu tive motivo, na verdade, tive dois motivos, mas preferiria que Sawyer pensasse que eu tinha uma veia cruel aleatória a pensar que eu estava com ciúmes da atenção que ele dava às garotas. Ciúmes nos deixam vulneráveis. Maldade apenas nos torna uma rainha do gelo. – Não vamos falar sobre isso, está bem? Desculpe por ter sido má com você.
– Não peça desculpas. Não estou arrependido.
– É claro que não está.
– Por que fica dizendo essas merdas para mim?
– Não sei. Está vendo? Irritada sem motivo. – Fechei os olhos e me aproximei da janela o máximo que o cinto de segurança permitia. Não sabia o que havia de errado comigo, mas se continuasse olhando para ele, temia perder a calma por completo diante daquele garoto que eu queria tanto havia tanto tempo que querê-lo estava embutido em mim, fazia parte do meu corpo, parte de meus ossos, de forma que agora, mesmo quando o tinha, não conseguia parar de esperar que desse errado.
– Tudo bem. – Ele ficou em silêncio, deixou a música tocar direto até que perdi a noção de quanto tempo havia passado. O motor roncava, constante e alto.
– Caramba! – exclamou Sawyer a seguir, meio rindo, mas pisando forte nos freios.
– O quê? – Meus olhos se abriram quando o jipe de Sawyer derrapou por um segundo no meio da estrada deserta. – Qual é o problema?
Ele assentiu para o para-brisa.
– Olhe.
Semicerrei os olhos.
– Isso é um...?
– Acho que é um pavão.
Era. Um pavão adulto estava imóvel no meio da Campos Road, a cauda de penas aberta. Era enorme. A ave piscou uma vez. Olhei para ela pelo vidro quando Sawyer encostou o carro.
– Temos pavões aqui?
– Acho que não. – Ele soltou o cinto de segurança.
– O que está fazendo?
– Só quero ver se tem identificação ou algo assim.
– Tipo, se é o animal de estimação de alguém? Sawyer, essa coisa provavelmente tem raiva.
– Aves pegam raiva?
– Não sei.
– Você deveria saber coisas de gente inteligente, Reena. – Ele sorriu uma vez. – Relaxe. – Sawyer soltou o cinto, saiu do jipe. – Talvez seja da reserva ou algo assim.
O pássaro permitiu que Sawyer se aproximasse diversos metros, observando-o com olhos cautelosos. Além de todos os atributos, ele também era encantador de pavões, é claro. Sawyer se agachou.
– Oi, amigo – disse ele.
O pavão não respondeu. Os dois ficaram ali, se encarando pelo que deve ter sido um minuto, e, por fim, não aguentei mais. Abri a porta.
O movimento assustou o pássaro e ele soltou um longo grasnido antes de encolher as penas com um farfalhar, como um leque se fechando. O pássaro saiu aos galopes para o outro lado da estrada com muito mais velocidade do que eu teria esperado. Hesitei.
– Isso aconteceu de verdade?
– Você o assustou – disse Sawyer, tranquilo, aproximando-se para ficar do lado do carona.
– Bem, eu costumo ter esse efeito sobre as pessoas.
– Nada. – Sawyer baixou o braço e segurou minhas mãos, tirando-me do jipe para o acostamento coberto de grama. Eu sentia os calos nas palmas das mãos dele. – Não sinta pena de si mesma.
– Ah, eu não sinto.
– Não? – As mãos de Sawyer subiram por meus braços, tão sutilmente, então desceram de novo, até ele segurar minhas mãos de novo. Ele as puxou para cima e cruzou-as atrás do próprio pescoço.
– Eu nem gosto de pássaros – falei, e Sawyer gargalhou. Corei um pouco, olhei para baixo, para o espaço entre nós. – Mas eu gosto de você.
– Bem – disse ele, e me beijou. – Isso é bom.
Eu ainda ouvia Coltrane. Não conseguia decidir se estava com calor ou com frio. O rosto de Sawyer contra o meu estava macio, como um pedido de desculpas. Ele estava mais perto agora, impossivelmente perto, e, quando me recostei contra o jipe, pude sentir o metal pelo moletom dele.
– Você é minha namorada? – murmurou Sawyer em minha orelha, bem baixinho. Gargalhei, uma gargalhada alta e melódica, para responder que sim.