Duas Vezes Amor
Capítulo 44
Antes
– O que vai vestir? – indagou Sawyer.
Olhei para o espelho enquanto apoiava o telefone entre a orelha e o ombro. Era a sexta-feira depois de eu ter recebido a carta da Northwestern; Sawyer deveria me buscar em vinte minutos para o que, ele prometeu, seria um Encontro Muito Importante. – Por quê?
– Porque quero saber se não estaremos vestindo a mesma roupa.
– Cale a boca. – Era a metade de maio, estava desconfortavelmente quente. – Tudo que visto me faz suar. Então, talvez nada.
– Entendo. – Ele estava sorrindo, dava para ouvir. – Boa ideia. Esteja pronta em dez minutos, está bem? Vamos comemorar. Minha namorada entrou na faculdade esta semana.
Dirigimos até South Beach naquela noite, as janelas do jipe totalmente abaixadas; o ar-condicionado enfim quebrara algumas semanas antes, e eu sentia o cheiro do mar e do verão. Charley Patton cantava para o calor: Took my baby to meet the mornin’ train... Sawyer mantinha uma das mãos em minha perna conforme seguíamos pela 95, interrompendo o contato de vez em quando para esfregar um músculo que se contraía em seu maxilar.
– Gosto de seus pulsos – comentou ele de súbito, olhando para o lugar em que minhas mãos repousavam em meu colo. Sawyer tracejou a parte de baixo de meu antebraço com a ponta do dedo.
Olhei para ele desconfiada.
– Meus pulsos?
– É – disse ele, meio sorrindo enquanto trocava de faixa. – Relaxe. Não tenho, tipo, um fetiche estranho com pulsos. Só gosto dos seus. São pequenos. Como ossos de passarinho.
– Ossos de passarinho – repeti.
– Sim. – Parou Sawyer. – Está vendo? Estragou o momento.
– Estava criando um momento?
– Eu estava tentando!
Gargalhei.
– Desculpe. Faça de novo.
– Não! – falou Sawyer. – Não tem mais clima. – Mas ele também estava gargalhando.
South Beach estava iluminada como um parque de diversões, toda cheia de prédios estilo art déco e fachadas de lojas em neon, mas a Breezeway, nosso destino, fazia a Prime Meridian parecer o bar do hotel Ritz. Precisamos descer um beco escuro e cheio de lixo para chegar à porta, e imaginei como Sawyer podia saber aonde ir. Você veio de carro até aqui para me trazer para este lugar quando todo o bairro de South Beach está iluminado como o Natal? Era o que eu queria perguntar, mas não estava a fim de briga.
Sawyer segurou minha mão enquanto desviava pela multidão com habilidade, me puxando consigo como um peso morto. Para mim, parecia que ele gostava de multidões, de aglomerados grandes e barulhentos de pessoas. Parecia ser bom em lugares assim.
Sawyer me soltou ao chegar ao bar, olhando através da fumaça como se procurasse alguém.
– Espere aqui – disse ele no meu ouvido. A respiração de Sawyer fazia cócegas, agitou meu brinco pendurado.
– Por quê? – Semicerrei os olhos, desconfiada. Precisei falar alto para ser ouvida por cima da música, algo retumbante e alto que não reconheci. – Aonde vai?
– Espere um segundo. Vamos jantar logo depois disso, prometo.
Suspirei e segui para o banheiro. Tinha tomado um refrigerante no caminho. Quando terminei, matei o tempo lendo as pichações na parede ao lado do recipiente vazio de Tampax, inventando histórias na cabeça para combinar com as iniciais rabiscadas, os corações desenhados, os xingamentos. Eu estava ficando muito boa em matar tempo. Meus sapatos grudavam no chão, e eu abria caminho em direção à saída quando ouvi o grito de uma mulher, mais alto do que a barulheira.
– O que está acontecendo? – perguntei a um cara levemente embriagado enquanto dobrava a esquina do pequeno corredor que abrigava os banheiros. Tinha ficado mais cheio desde que eu saíra, e não consegui ver a ação.
– Dois idiotas se atracando – contou-me ele depois de me olhar de cima a baixo de um modo que me fez estremecer. Então, como se talvez aquilo não tivesse sido claro o suficiente: – Briga.
Olhei em volta em busca de Sawyer, fazendo uma oração rápida que eu sabia ser inútil. Na ponta dos pés, tentando ver por cima da multidão, percebi que um dos idiotas se atracando era, definitivamente, meu namorado. De repente, nossa pequena viagem a Breezeway fez muito mais sentido.
– Só pode ser brincadeira – falei, caindo na real. Eu conseguia ver o segurança e o atendente do bar se aproximando para separá-los e fiquei de pé, congelada, por segundos intermináveis, pensando se deveria me mover na direção deles ou fugir. Fiquei assustada quando um punho acertou a bochecha de Sawyer e senti um gosto ácido subir por minha garganta conforme ele recuava e acertava os dedos fechados em punho na boca do outro cara. Sawyer era bom de briga, percebi, entorpecida, então me virei e abri caminho em meio à multidão na direção da porta.
Eu estava correndo e entrando no beco antes mesmo de o cara com quem Sawyer falou à porta o empurrar para fora do bar.
– Cara, não estou doidão – dizia ele, mas o segurança não parecia ligar. – Ele começou, juro.
– Ele é seu? – perguntou o homem para mim.
Quase respondi que não. Sawyer nos olhava, deprimido.
– É, acho que sim – respondi. – Obrigada. Desculpe. – O segurança assentiu, deu de ombros e se virou para entrar; peguei a chave do carro de Sawyer do bolso traseiro dele ao caminharmos na direção da rua. Eu estava cansada de dirigir. – Entre no carro – falei.
– Reena, aquilo deveria ter sido muito rápido, mas aquele cara...
– Não fale – interrompi.
– Íamos a outro lugar...
– Eu disse para não falar comigo! – Dei partida no carro. – Foi por isso que me trouxe até aqui? – Exigi saber. Sawyer não respondeu, porque eu tinha dito a ele que não o fizesse, acho, então continuei. Estava quase em lágrimas, de tão irritada. – Sério? E tentou fazer parecer um encontro. Porque eu entrei na faculdade? Cruzes. Não acredito. Sinceramente, não acredito em você.
– Deveria ser um encontro – murmurou Sawyer. – Eu ia levar você a outro lugar. Só teria levado um segundo, se aquele cara não tivesse sido um babaca.
– Certo. É culpa dele. É culpa do seu traficante. – Encolhi o corpo ao olhar para as articulações feridas nas mãos de Sawyer. Havia sangue escorrendo delas. – Isso é ridículo. – Olhei pela janela, liguei o pisca-alerta. – Sabe que isso é ridículo? Não é a vida real. Não é assim que eu sou.
– O que está fazendo? – perguntou Sawyer, em vez de me responder.
– Estou parando na farmácia.
– Por quê?
– Porque vou comprar coisas para sua mão! Nossa!
– Estou bem.
– Foi mordido! Quer pegar raiva?
Ele deu uma gargalhada.
– Ninguém vai pegar raiva.
– Quer pegar Aids? – Quase vomitei as palavras. Desliguei o jipe no estacionamento e, depois de hesitar por um instante, guardei a chave no bolso.
– Legal – disse Sawyer. – Aonde, exatamente, acha que vou? Acha que eu a deixaria aqui?
– Quem sabe o que diabo você faria? – Bati a porta e segui para a farmácia, onde gastei o dinheiro que tinha com água oxigenada, gaze, um tubo de Neosporin e outro refrigerante. Desejei estar com meu pai, Shelby, Soledad, até mesmo Lauren. Não queria voltar para o carro. Sentia Sawyer se afastando tanto que eu não conseguia alcançá-lo e não sabia como parar.
A caixa avaliou minhas compras e me olhou com um pouco de compaixão, então disse:
– Espero que sua noite melhore.
– Obrigada. – Precisei olhar para a luz fluorescente para não chorar.
– Droga, Sawyer – resmunguei, ligando a luz do teto do jipe. Ele parecia pior do que eu pensava. Ia ficar com o olho roxo. Joguei o refrigerante para ele, e Sawyer colocou a garrafa sobre o olho, que inchava depressa. Queria que ele estivesse com dor de cabeça. – Sabe, por que eu quero fazer faculdade se posso ficar aqui e bancar a sua babá?
– Não faço ideia. Merda – xingou Sawyer quando a água oxigenada tocou os nós dos dedos dele, a respiração ruidosa como o ar que sai de uma bexiga. – Isso dói.
– Bom.
– Olhe, não se incomode – disse Sawyer, puxando a mão para longe. – Eu mesmo cuido disso. Vamos embora.
– Está bem. Como quiser. – Dei marcha à ré no jipe. Odiava aquele carro, aquela cidade e todo o estado da Flórida. Pensei em acelerar para o norte, na direção de Alligator Alley, em fazer o carro sair da estrada em direção ao pântano. – Não acredito que vai agir assim.
– Bem, você não vai precisar me aturar por muito tempo – observou Sawyer, jogado no assento. Ele cruzou os braços.
– Sinceramente? Está com raiva de mim por causa da Northwestern?
– Não estou com raiva de você por causa de nada.
– Mentiroso. – Suspirei. – Você sabia que eu iria. Falei desde o início que sairia daqui.
– Sério?
– Sério – repeti, e ficamos em silêncio por um tempo depois disso, o som do rádio abafado pela força do vento. O suor descia, nojento, da minha nuca. Por fim, apenas falei. – Quero conversar sobre Allie agora.
Aquilo chamou a atenção dele.
– O quê?
– Você me ouviu.
– Quer falar sobre isso agora?
– Quando seria um momento melhor? – perguntei. – Estamos nessa há seis meses e praticamente não conversamos sobre isso.
Sawyer suspirou. Ainda pressionava a garrafa de refrigerante contra o rosto, e imaginei, por um momento, se a mão dele poderia estar quebrada.
– O que tem ela?
– O que fez você gostar dela?
– Reena, por que quer fazer isso?
– Apenas responda!
– Não sei! – respondeu Sawyer, suspirando ruidosamente, a cabeça encostada no assento. Por fim, ele começou a falar. – Ela era muito... aberta, acho. E tranquila. Como se nada jamais a preocupasse. – Imaginei se ele a estava descrevendo daquela forma especificamente para me magoar, para ressaltar as diferenças entre mim e minha melhor amiga, a antiga namorada e a nova, ou se nós duas éramos apenas opostos extremos e Sawyer não conseguia dizer de outro modo. – Ela era só... divertida.
Divertida. Certo. Respirei fundo, olhei para uma placa na estrada e virei à direita em uma curva aberta.
– Isso tudo teria acontecido caso ela não tivesse...? – Parei de falar.
– Ela morreu, Reena. – Sawyer não estava olhando para mim, olhava pela janela, observando as luzes que passavam piscando. – Você pode muito bem dizer, se vamos falar sobre isso. Se ela não tivesse morrido.
– Se ela não tivesse morrido. – Engoli em seco. – Você iria querer ficar comigo se Allie não tivesse morrido?
– Qual é o seu problema, hein? – perguntou Sawyer. – Podemos não fazer isso?
– Apenas responda!
Houve um longo silêncio. Ele parecia avaliar as opções.
– Não sei – respondeu Sawyer. – Não sei! E tem merdas que você não sabe sobre mim e com certeza tem merdas que não sabe sobre aquela noite...
– Bem, então me conte!
– Não posso!
Não discuti. O que estava esperando, de verdade? Com certeza era perigoso que eu dirigisse daquele jeito. Com certeza teria sido mais inteligente parar, resolver tudo. Mas eu estava cansada agora e queria ir para casa. Parei de repente diante de um sinal que não percebi que estava vermelho.
– Cuidado – falou Sawyer, baixinho.
– Cale a boca – respondi.
Seguimos em silêncio pelo resto do caminho, a cantoria do rádio era o único som dentro do jipe. Sabe que errou comigo...
O céu era de um roxo profundo e pesado quando parei na entrada da garagem de Sawyer. Provavelmente choveria. A casa amarela parecia assombrada. Reuni coragem.
– Você precisa de ajuda, Sawyer.
– Ah, por favor. – Ele fez um ruído de desdém do fundo da garganta. – Não comece.
– Bem, você precisa!
– Pare.
– Você não está na faculdade, tem metade de um emprego que está sempre à beira de perder, fica doidão o tempo todo...
– Não fico! – interrompeu ele.
– Sinceramente, Sawyer, a única coisa que tem a seu favor agora sou eu, e você está fazendo o possível para estragar isso também!
– Certo – murmurou ele. – Só eu estou estragando isso.
– Não posso fazer nada se vou embora!
– A questão não é você ir embora! – gritou ele.
– Então qual é?
Sawyer não respondeu.
– Bem?
Ainda nada.
– Você gosta disso? – Exigi saber. – Fingir ser sempre o valentão? Está sendo bacana para você?
– Você vive me perguntando isso. Gosta de ser sempre a boazinha? Acha legal?
– Não estou sendo boazinha, Sawyer! Estou sendo eu mesma!
– Bem, talvez seja isso que eu faço também. Só estou sendo eu mesmo.
– Esse não é você!
– Talvez seja.
– Então, não conheço você.
– Talvez não. – Ele suspirou, abriu a porta do jipe e saiu.
– Você pensa em parar com essa porcaria toda num futuro próximo? – gritei pela janela.
Ele riu.
– Que porcaria seria essa?
– Você sabe que porcaria! – Eu queria bater em Sawyer. Queria ser muito má. – Quer saber, Sawyer? Essa sua originalidade está começando a cansar.
Sawyer se encolheu, então ficou muito parado.
– A minha originalidade? – perguntou ele baixinho. E, nesse momento, percebi que tinha ido longe demais.
– Olhe, desculpe – falei. – Não quis... eu só...
– Esqueça.
– Sawyer...
– Preciso sair daqui – disse ele, quase para si mesmo. Ficou de pé e cruzou o quintal, e eu mal me dei conta. As mãos dele eram como aranhas brancas sobre os cabelos. – Vejo você por aí, Reena.
Dessa vez, Sawyer não me deu um beijo de despedida.