Duas Vezes Amor
Capítulo 31
Depois
Shelby está sentada a uma mesa nos fundos quando chego ao restaurante, dois dias depois de romper com Aaron, e está limpando os folhetos grossos que usamos como cardápio, acrescentando os especiais da noite.
– Não fale comigo. – É tudo o que ela diz.
Sinto náusea. Odeio a ideia de brigar com Shelby, de ter estragado a única boa amizade da minha vida: já passei por esse caminho, e ele é ladeado por um monte de porcarias.
– Shelby...
– Não – diz ela, mal erguendo o olhar. Os cabelos ruivos, hoje cacheados, caem sobre seu rosto como um véu. – Quero que não fale comigo por um tempo. Estou com raiva de você. E não costumo ficar com raiva de você, Reena, não tenho muita experiência nisso. Então o que preciso no momento é sentar aqui e limpar esses cardápios idiotas sem parar e que você me deixe em paz até eu decidir o que vou fazer a respeito.
– Não é justo – protesto. Sento diante dela, contrariando o bom senso, esperando ao menos poder contra-argumentar. – Você disse que não se envolveria no que quer que acontecesse entre mim e Aaron...
Shelby me olha agora, revira os olhos como se eu estivesse sendo burra de propósito.
– Eu falei que não me envolveria no que quer que acontecesse entre você e Aaron contanto que você não fosse sacana, o que... ops.
Estranhamente, lembro-me com nitidez de Allie, naquela noite nos balanços, há um século. Você quer ganhar essa briga? E aqui estou, tantos anos depois, ainda brigando com minha melhor amiga por causa de Sawyer. Isso faz com que eu me odeie um pouquinho. E me faz odiar Shelby um pouquinho também.
– Está bem – digo com o máximo de educação. – Sou uma namorada de merda e uma amiga de merda.
– Tudo bem, ouça. – Shelby suspira ruidosamente e apoia os cardápios na mesa, a expressão no rosto indicando que não queria fazer aquilo, mas eu insisti, então, aí vai. – Sei que teve dois anos difíceis, Reena. E é uma droga, de um jeito Alanis Morrissette na música “Ironic”, que você fosse, tipo, a pessoa que menos se arriscava na história do mundo e toda essa merda tenha acontecido com você, mas sinto que fez um bom trabalho construindo uma vida para si, apesar de tudo. Mas, agora que Sawyer voltou, você está agindo como se estivesse no ensino médio de novo. – Ela contabiliza uma lista nos dedos, como possíveis efeitos colaterais de algum medicamento novo e não aprovado. – Você briga, se maqueia, ele é sua pessoa preferida, você o odeia, e talvez isso seja fora do comum para você, ou talvez ele seja a única pessoa perto da qual você pode ser você mesma, eu não sei. Tudo bem, é problema seu... contanto que outras pessoas não sejam magoadas enquanto você se decide.
– Eu estava tentando não magoar Aaron! – replico, irritada. – Foi por isso que terminei com ele.
Shelby faz uma careta.
– Ah, Reena, nem brinque. Você terminou com Aaron por causa de Sawyer, direta ou indiretamente. E isso não é... – Ela para de falar, sacode a cabeça. – Não quero que pense que estou com raiva de você por ter terminado com meu irmão.
– Então por que está com raiva de mim? – estouro. Olho ao redor, envergonhada. Dois executivos bebem no bar, há um ou dois casais de idosos jantando cedo. Baixo o tom de voz. – Sério. Por que está com raiva de mim?
– Estou com raiva de você... – Shelby suspira de novo. – Estou com raiva de você porque Sawyer voltou e você, tipo, esqueceu que é incrível. É como se agora que ele está por perto de novo, todo o trabalho que teve nem mesmo importasse. Não é nada contra Sawyer, não quero que pense isso também, principalmente porque todos na sua família pensam que ele é o anticristo...
– Obrigada – interrompo, e Shelby bufa.
– Eu só acho – diz ela, bruscamente –, que você está se esquecendo de si mesma por um cara.
Agora sou eu quem está com raiva.
– O que estou esquecendo, exatamente? – Exijo saber. – Que moro na casa de meu pai, que nem consegue olhar nos meus olhos na maioria dos dias porque ele literalmente acha que eu sou a puta da Babilônia? Que sou garçonete e provavelmente sempre serei? Ou que tenho dezoito anos e um bebê para cuidar e nenhum modo concebível de sair deste lugar idiota? – Nossa, que ousadia dela, com sua bolsa de estudos e a namorada inteligente e o futuro promissor como médica, com seu poder de fazer as malas no fim do verão e pegar um avião para milhares de quilômetros daqui. Em quê, neste mundo de meu Deus, ela pode se basear para dizer que minha vida é incrível? Empurro a cadeira para trás com estardalhaço, pego a bolsa de cima da mesa. Estou tão cheia das opiniões de todo mundo que tenho vontade de gritar. – Obrigada, Shelby – digo a ela com o máximo de desprezo. – Vou me lembrar disso.
Sawyer não desiste, é claro. Passei a vida analisando as expressões dele, e alguma coisa no modo como ele me olhava antes de eu sair transtornada da cozinha dos pais dele naquela noite me mostrou que, na sua opinião, a conversa não tinha terminado. Era apenas uma questão de quando.
Sawyer mantém distância até quinta-feira. Estou recostada no balanço da varanda com o laptop quando o jipe dele encosta, e, mesmo à meia-luz alaranjada, reparo mais uma vez que o carro está em péssimo estado nos últimos tempos: nunca foi exatamente bom, para início de conversa, e agora está amassado como uma lata de café, a ferrugem descasca das portas. Pelo barulho, o silenciador está quebrado.
Os pelos em meus braços se arrepiam, embora ainda faça vinte e seis graus, e fecho o laptop com mais força do que pretendo, sem querer que Sawyer veja a tela: embora todas as minhas assinaturas de revista tenham vencido e eu tenha tirado o e-mail da lista de contatos de todos os sites de viagens da internet, ainda tenho uma queda pelos blogs. Passo noites inteiras clicando: encarando as imagens fortes e de cores supersaturadas feitas por mulheres visitando San Diego ou passando um ano em Jakarta, lendo histórias sobre as comidas que têm comido e as pessoas que conheceram pelo caminho. Estou me torturando. Não sei por que me dou o trabalho de fazer isso.
Até agora, não consegui me obrigar a parar.
– Oi – diz Sawyer baixinho, subindo pela entrada da casa. Ele veste jeans escuro e rasgado e uma camiseta e deixou os sapatos no carro. Os pés dele estão pálidos contra o concreto. Ele segura um copo plástico gigante.
– Tudo bem, preciso perguntar – digo a Sawyer, semicerrando um pouco os olhos do outro lado do gramado. – Qual é a das raspadinhas?
Sawyer dá de ombros, então inclina o copo na minha direção.
– Mais barato do que bebida alcoólica.
Mordo o lado de dentro da bochecha, imaginando qual é a história toda ali, mas, no fim, apenas deixo para lá.
– Seus dentes vão apodrecer e cair – aviso; então: – O que faria se eu não estivesse sentada aqui?
– Quem disse que vim ver você? – Ele sorri ao subir os degraus, depois se senta meio de lado no alto deles, de modo a ficar de frente para mim, recostado em minha casa. Está silencioso lá dentro, as janelas escuras. Meu pai fez um teste de estresse à tarde e foi dormir cedo. Soledad o seguiu pouco depois. – Eu ia bater à porta.
Ergo as sobrancelhas.
– Está tarde.
– Ah. Teria atirado pedras em sua janela, então, talvez. – Ele indica o laptop com a cabeça. – Estava escrevendo?
– Não. – Sacudo a cabeça de modo decidido, com algum prazer esquisito ao responder. – Eu disse que não escrevo mais.
– Lembro que disse isso, sim. – Sawyer me olha com cuidado. – É uma pena. Achei que talvez você só estivesse dificultando as coisas para mim.
– Porque obviamente tudo o que faço tem a ver com você?
Sawyer revira os olhos.
– Foi isso que eu disse? – pergunta ele, sem uma irritação específica. Parece saber que precisa esperar por mim e está disposto. – Sério. Você me ouviu dizer isso agora?
– Vai se ferrar – disparo de volta, imitando o tom de voz dele. A paciência de Sawyer me provoca, me faz querer brigar com ele. – O que quer que eu faça?
– Quero que não me odeie.
– Não odeio você.
– Você não gosta de mim.
Levanto o rosto e olho para ele, sentado no chão como um penitente. Suspiro e conto a verdade.
– Sawyer, gostar de você jamais foi o problema.
Ele sorri – queria que não tivesse um sorriso tão lindo – e muda de tática.
– Venha se sentar ao meu lado – diz ele agora.
– Por quê?
– Porque estou pedindo. – Sawyer inclina o corpo e pega um punhado de pedrinhas brilhantes do caminho que leva à varanda, começa a atirá-las no gramado uma a uma. Elas saltam pela grama verde e escorregadia enquanto sacudo a cabeça.
– Sawyer – digo a ele. – Não.
– Por que não?
Não tenho uma resposta muito boa para isso – não uma que possa contar a ele, pelo menos –, então afasto o cobertor no balanço e me sento no degrau do alto. Sawyer desliza para baixo, para ficar sentado abaixo de mim, o queixo na direção de meu joelho.
– Essa é nova – digo. Tem uma estrela azul-escura no bíceps dele que não estava ali antes; ela se destaca contra a pele de Sawyer como uma marca de gado.
– Fiz em Tucson.
Sinto as sobrancelhas se erguerem, aquela expressão que Shelby chama de Enorme Sulco quando estamos conversando.
– O que estava fazendo em Tucson?
Sawyer olha para mim, sorri um pouco.
– Trabalhei em uma fazenda.
– Sério?
– Soja – diz ele, assentindo uma vez. – E em uma casa de cerâmica.
Dou uma gargalhada, não consigo evitar.
– Você está fora de controle.
– O que há de descontrolado nisso? – pergunta ele, todo inocente. – Eu cuidava do forno.
– Entendo. – É claro que cuidava. Sawyer poderia ter qualquer emprego, fazer qualquer coisa, dirigir uma empilhadeira, um carro de corrida, ou transformar água em vinho. – Aonde mais foi?
– Ah, cara. – Sawyer pensa. – Bem. Nova Orleans, assim que saí daqui. Los Angeles.
Los Angeles é suja e cheia de neon. Não se pode beber água da torneira em Los Angeles. Eu sei disso: não porque já estive lá, mas porque, como com tantas outras coisas, li em um livro.
– Kansas, por um tempo.
– Kansas.
– Ã-hã. Nunca tinha ido. É bem plano lá.
– É o que dizem.
– Missouri. Plano lá também.
Fecho os olhos e imagino como estou fazendo isso, como estamos conversando exatamente como antes. Na brisa, sinto cheiro do mar, perto e infinito; minha pulsação parece uma bomba-relógio dentro da garganta. Respondo com murmúrios por um tempo, incapaz de me envolver no papo.
– Novo México – diz Sawyer, como uma liturgia. Depois de um momento, a mão dele roça em meu calcanhar. – Austin.
Tento não reparar – acredito em acidentes –, mas então, a palma da mão dele desliza por trás da minha perna, pelos músculos que se acomodaram ali desde que ele foi embora.
– Pare com isso – digo, e preciso pigarrear para fazer isso.
– Reena – diz Sawyer, e a voz dele dizendo meu nome é um murmúrio que desce por minha espinha e se espalha. Ele pressiona o indicador contra a depressão atrás de meu joelho. – Não estou fazendo nada.
– Está, sim. – Nossa, seria tão fácil. Como é possível que ainda seja tão fácil? Respiro fundo e desço um degrau, afastando-me dele.
Sawyer me solta de imediato, estica a mão para pegar mais pedrinhas para jogar e, quando não encontra nenhuma, começa a puxar grama das rachaduras na entrada.
– Posso perguntar uma coisa? – diz ele depois de um momento, sem me olhar. As mãos dele estão muito bronzeadas. – Se eu tivesse pedido que fosse comigo, acha que teria ido?
– O quê, quando você foi embora? – Olho para ele com curiosidade. – Eu já estava grávida.
Sawyer ri um pouco.
– Sem brincadeira, princesa. Não é o que estou perguntando. Estou perguntando se teria ido.
Por um minuto, não digo nada e o silêncio pesa; parece que o mundo inteiro está dormindo. Um pequeno lagarto verde passa correndo. Penso nos mapas que dobrei no quarto, nos guias de viagens e atlas que jamais vou usar. Penso em minha menina, que amo mais do que qualquer criatura viva no universo, e inclino a cabeça para a lua em um uivo silencioso.
– Não – respondo, por fim. – Provavelmente não.
Sawyer assente como se eu tivesse lhe dado alguma coisa, confirmado as suspeitas que ele tinha desde o início.
– É – diz ele. – Foi o que pensei.
De manhã, acordo e encontro uma romã à porta: vermelha e perfeita, redonda como o próprio mundo.