Duas Vezes Amor
Capítulo 43
Depois
Levamos meia hora para descer, vestir e alimentar Hannah e colocá-la no cercadinho na sala de jantar, bem ao lado da porta da cozinha.
– Vou fazer café da manhã para você. – Sawyer decide e se dirige à geladeira.
Sacudo a cabeça.
– Não estou com muita fome.
Ele faz uma careta.
– Você não comeu ontem à noite porque estava chateada, o que não é um problema. Mas hoje é um novo dia. Portanto, ovos. – Sawyer sorri para mim e eu me sento, feliz por alguém cuidar de mim por alguns minutos. Feliz por deixá-lo fazer isso.
A campainha toca.
– Deve ser Shelby – digo a Sawyer, e fico de pé. A mãe dela é enfermeira no hospital, e tem um monte de mensagens no meu celular. O telefone na cozinha começa a tocar.
– Pode atender? – peço a Sawyer, olhando para trás.
Corro até a sala e escancaro a porta sem verificar pelo olho-mágico, percebendo a idiotice um segundo tarde demais. Não é Shelby que vem me visitar nessa manhã ensolarada de verão. É Aaron. Durante um segundo, penso: merda.
– Oi! – digo, alegre, recuando um passo para deixá-lo colocar um pé dentro da casa, mas não mais do que isso. Aaron acabou de tomar banho e veste uma camiseta com a logomarca da marina, barcos navegando para o mar.
– Oi – diz ele. – Soube de seu pai.
– Ele está bem, achamos – conto a Aaron. – Vou passar no hospital daqui a pouco.
– Quer companhia? – pergunta Aaron. – Poderíamos ir tomar café da manhã bem rápido.
Estou tentando decidir como responder quando a voz de Sawyer reverbera pela sala de estar, alta e animada.
– É Shelby? Convide-a para entrar! Farei ovos para ela.
Droga.
O rosto de Aaron muda, fica sério.
– Desculpe – diz ele. – Não percebi que tinha visita. Só seu carro está na entrada da garagem.
– Não, é só... – É só o quê? Não é algo insignificante. É sexo com Sawyer LeGrande.
– Shelby Fitzsimmons, estrela do palco e da tela – chama Sawyer, passando pela sala de jantar. Ele vê Aaron e congela por apenas um segundo, mas se recupera, esboçando um sorriso. Já quero bater nele. – Ah. Não é Shelby.
– Não exatamente – diz Aaron devagar, e nossa, nossa, eu me sinto um lixo.
– Bem, ei, cara, bom ver você – diz Sawyer, se recuperando. Se não o conhecesse, pensaria que ele era um cara bem decente. – Estou, hã, fazendo ovos, se estiver interessado.
– Obrigado, mas preciso ir – responde Aaron, recuando pela porta. – Preciso trabalhar. Só vim ver se o pai de Serena estava bem.
– Acabei de falar com Soledad, e ela disse que ele está ótimo.
– Era Sol? – pergunto, esquecendo por um momento o massacre que ocorre diante de meus olhos.
– Bem, então acho que é isso. – O olhar de Aaron sai de mim para Sawyer, depois retorna. – Acho... acho que, ah, vejo você por aí, Reena.
– Aaron... – O que vou dizer? Fui horrível com ele, com essa pessoa boa, essa alma que me trouxe flores e me fez sorrir nos piores dias. Não há desculpa no mundo.
Não importa, na verdade; Aaron já saiu pela porta.
– Lembranças a seu pai por mim – grita ele, olhando para trás, afastando-se como se minha casa estivesse pegando fogo e eu fosse burra demais para perceber e me salvar.
– Merda – digo quando o carro dele sai da entrada da garagem. – Merda!
– O quê?
Viro para Sawyer, descontrolada.
– Cale a boca.
– Ah, por favor. – Sawyer segurou o máximo que pôde; agora sorri. – Não é tão ruim.
– Não, na verdade, é muito ruim. Você não entende. Definitivamente não entende. – Penso em como Shelby já está com raiva de mim. Acho que acabo de aniquilar nossa amizade de vez. – Eu acabei de me ferrar totalmente.
– Bem. – Sawyer me olha de esguelha com malícia. – Eu não diria isso exatamente.
– Eu mandei calar a boca!
Sawyer revira os olhos.
– Posso fazer uma pergunta? Você gosta dele? Ou ele é só, tipo, prático? Porque preciso dizer, Reena, ele é o equivalente humano a uma tigela de trigo moído.
– Vá para o inferno, Sawyer. Você não o conhece. Aaron é um cara muito legal.
– Assim como aquele apresentador, o Mister Rogers, mas isso não é motivo para correr para a cama com ele.
– Em primeiro lugar, com quem eu corro para a cama não é da sua conta. Em segundo lugar, por falar em coisas sobre as quais você não sabe nada, ele era um namorado muito bom. – Viro e saio batendo os pés até a cozinha. – Em terceiro lugar, Mister Rogers está morto!
Aquilo faz Sawyer parar por um momento.
– Mister Rogers está morto?
– Há anos!
Ele me segue pela sala de jantar, parando para ajeitar o cabelo de Hannah.
– Pode parar de fugir sempre que tento conversar com você?
– Olha quem está falando em fugir – disparo de volta, desligando o forno e recolocando os ovos na geladeira.
Sawyer faz uma careta, e parece que talvez aquela frase em especial esteja ficando batida para ele.
– Bem, estou aqui agora. – É tudo o que diz.
– Certo. – Salto pela cozinha como uma bola de pinball, jogando itens diversos na mochila sobre a cadeira: celular, chaves, biscoitos para Hannah, duas caixas de suco, um dinossauro de pelúcia. – Até que sinta a coceira ou a ânsia ou o que quer que o obrigue a fazer as coisas ridículas que faz e dê o fora de novo e eu volte para onde comecei, mas agora eu afastei completamente o único cara em minha vida inteira que me tratou bem.
Sawyer não gosta disso. Seus lábios macios se contraem.
– Eu tratei você bem.
– Ã-hã. Principalmente na parte em que deu o fora sem nem ter a decência de inventar uma mentira qualquer, como dizer que estava indo ali comprar cigarro.
– Por quanto tempo vai usar isso contra mim?
– Até que eu não esteja mais irritada com isso!
– Então, para sempre?
– Você sumiu durante dois anos! Voltou faz duas semanas!
– Sabe, o que eu adoro em relação a tudo isso é como você esquece convenientemente que também estava de saída quando parti. Você me dizia isso todos os dias.
– Eu ia para a faculdade!
– Você ia sair daqui um ano inteiro antes de precisar e nunca mais voltaria. Ia fazer algo ótimo e incrível e cem vezes melhor do que o restaurante e esta cidade, e cem vezes melhor do que eu.
– Sawyer, não seja tão infantil. Eu nunca disse isso.
– Você disse de cem maneiras diferentes. Ia embora de qualquer forma. Eu só achei que poderia me adiantar.
– Meu Deus. – Reviro os olhos, tento pensar por um momento e, ao fazer isso, só consigo chegar a uma conclusão lógica. Eu me sinto má como um cão raivoso. – Isso foi burrice nossa.
Sawyer me olha com desconfiança.
– O quê?
– Isto. – Abro os braços. – Ontem à noite, esta manhã, tudo. Foi uma péssima ideia. Eu estava chateada. Não deveria ter deixado que você...
– Me deixado? – explode ele. – Você veio atrás de mim! Eu estava pronto para dormir na porcaria do sofá!
– Tanto faz. Não importa. O que importa é que estou desequilibrada, e você me deixa assim. Voltou faz trinta segundos e eu já estou agindo como uma idiota de novo.
– Bem, isso não é tão longe da verdade.
Nossa, estou tão frustrada com ele. Estou frustrada minha vida inteira.
– Vá se ferrar.
– Que legal. – Sawyer também está com raiva. – Quer saber? Vamos esquecer tudo.
– Quer saber? Vamos.
– Ótimo – diz ele com calma, mas os olhos frios estão bem abertos. – Nunca aconteceu.