Duas Vezes Amor
Capítulo 13
Depois
Aaron e eu temos um encontro marcado para sexta à noite, então eu o encontro na marina no fim do turno dele. Caminho pela doca ampla e desgastada e o vejo papeando com Lorraine, uma aposentada de cabelos cheios de Nova Jersey cujo gosto para roupas definitivamente tende para o chamativo. No momento, ela veste legging cor-de-rosa com estampa de guepardo. Ela e o marido, Hank, ancoram o barco, o Hanky Panky, na marina há quinze anos, mas, sempre que a vejo, ela faz questão de me dizer que Aaron é seu mecânico preferido.
– Ree-na – diz Lorraine alegremente ao me ver, balançando o chapéu de palha em um cumprimento. Ela trata todos como velhos amigos. – Fui ao seu restaurante uma noite dessas! As costelas estavam di-vi-nas. Eu disse a Hank que ele teria que me rolar de volta para casa.
Conversamos um pouco sobre o restaurante, sobre o trânsito pesado na Intercoastal. Por fim, Hank aparece, corado e corpulento, e os dois nos mandam, “os jovens”, para nossos afazeres. Aaron coloca a mão no bolso de trás da minha calça jeans quando seguimos para o carro.
– Tenho uma calça igualzinha à dela – diz ele para mim, baixinho, e jogo a cabeça para trás, rindo.
Aaron fica chocado com o fato de eu ter vivido a quinze minutos do mar a vida inteira e, por algum motivo, jamais ter comido um rolinho de lagosta, então me leva para um lugar com ar de espelunca em um píer em Lauderdale, com bancos de piquenique e cerveja em copos de plástico. Lojinhas de suvenires brilham em branco e neon ao longo da costa. Turistas passam com diversos estágios de queimaduras de sol à mostra.
– Mas essa é uma coisa do Maine! – protesto, e pego um punhado de guardanapos da mesa. – Rolinhos de lagosta não são do Maine?
Aaron dá de ombros.
– Que Maine, nada – diz ele, e ri. – Quero dizer, sim. Estas devem ser lagostas Yankee, o que significa que arrastaram os corpos dos crustáceos até aqui só para você ter essa experiência, então, provavelmente, você deveria parar de reclamar.
– Não estou reclamando – digo a Aaron, e sorrio. Há uma pilha de onion rings em um prato entre nós. Os últimos raios de sol refletem o dourado dos cabelos dele. – Na verdade, estou feliz como uma ostra.
Aaron resmunga.
– Uma piada com frutos do mar? – pergunta ele, e dou uma risada boba. – Sério? Sério.
Depois que Aaron terminou o ensino médio morando com o pai, em Nova Hampshire, ele trabalhou em barcos de pesca em Gloucester, Massachusetts, por uns dois anos até se mudar para a Flórida no início do verão. Foi buscar Shelby no trabalho toda noite durante duas semanas até eu perceber que Aaron não fazia aquilo para facilitar a vida da irmã.
– Você sabe que eu não sou divertida – falei na primeira noite em que ele me chamou para sair. – Tenho uma filha. Não sou divertida. Mesmo antes de ter uma filha, eu não era divertida.
– Você é completamente entediante – concordou ele com o rosto sério. Estávamos de pé na calçada do lado de fora do Antonia’s depois das onze da noite, com o cheiro do calor, do escapamento do carro e do mar em algum lugar ali por baixo. – Definitivamente. – Então, Aaron riu, e parecia que algo quente e líquido se abrira em meu peito. – Que tal este fim de semana? – perguntou ele, e foi isso.
Hoje à noite terminamos os sanduíches e caminhamos pela praia por algum tempo no escuro. A areia é granulosa e familiar sob meus pés. Converso com ele um pouco sobre as aulas que estou assistindo, literatura, história da arte e contabilidade na faculdade pública local, em Broward, uma última tentativa frustrada de evitar que meu cérebro vire sopa dentro da cabeça.
– Sábado ainda está de pé? – pergunta Aaron quando voltamos para meu carro. Nós nos beijamos encostados na lataria por um tempo, o leve toque de chiclete de menta nos dentes de Aaron, mas Cade e Stefanie estão com a bebê, e prometi que a buscaria às dez horas.
– Com certeza – respondo, sorrindo, embora, na verdade, tenha me esquecido completamente até este momento. Um churrasco na casa da mãe dele, uma coisa de família com Shelby e todo mundo, sobre o qual Aaron me falou na semana passada. Em algum momento terei que fazer uma salada. – Você busca a gente por volta de uma hora?
– Pode deixar. – Aaron me dá um beijo de despedida e bate duas vezes no teto do carro antes de eu partir, chegue bem em casa. As luzes parecem um parque de diversões pelo espelho retrovisor.
Hannah resiste a tirar soneca na manhã seguinte, e já estamos um pouco atrasadas quando consigo trocá-la e desço até a cozinha para terminar de arrumar a bolsa de fraldas. Abro a porta de correr com o quadril e encontro Sawyer de pé ali, com roupas de trabalho, olhando para as fotos da bebê na geladeira. Congelo.
– O que...?
– Eu não sabia que você estava aqui – diz ele de imediato, tentando me vencer nas palavras antes que eu diga poucas e boas. – Meu pai só precisava deixar uns papéis para o seu. Seu carro não estava... não sabia que você estava aqui.
– Estava fazendo um barulho – digo. Paro à porta e o observo por um segundo, lembrando que costumava encontrá-lo assim o tempo todo quando estávamos juntos, apenas andando pela minha casa como se morasse nela, ou quisesse morar. Engulo em seco, seguro a bebê um pouco mais perto do corpo. – Cade o levou esta manhã.
Sawyer assente.
– Você disse para ficar longe.
– Eu disse. – Ergo Hannah no quadril e vasculho a geladeira em busca das canecas de suco com tampa que coloquei ali na noite passada, e as mãos gorduchas dela agarram meus cabelos. Estou sem ar ali dentro, como se as paredes estivessem se fechando. Nossa cozinha é pequena e antiga, um espaço mal-aproveitado, escuro e esquisito. – Eu estava sendo dramática.
Sawyer dá de ombros.
– Você pode.
– Não pedi permissão. – A bebê passa dos meus cabelos para meu brinco, puxando-o um pouco, e faço o possível para soltá-la sem derrubar a pilha de potes no braço. – Hannah, querida – murmuro, afastando-a o mais delicadamente que consigo. – Amor da minha vida terrena.
Sawyer dá um passo hesitante à frente.
– Precisa de ajuda?
– Não. – Nem mesmo penso a respeito, simplesmente sai, como se eu sempre tivesse uma resposta malcriada na ponta da língua. Então suspiro. – Quer segurá-la? – pergunto.
Ele parece genuinamente surpreso, o que me faz sentir bem mal.
– É – diz ele de pronto. – Quero, se não tiver problema.
Então respiro fundo e entrego minha bebezinha – observando como ele ajusta as mãos, a cabeça dela, embora Hannah seja grande o suficiente para eu me preocupar com isso e Sawyer seja absurdamente cuidadoso, como se estivesse segurando uma bomba. Ele parece total e completamente aterrorizado. Quase rio.
Hannah choraminga por um momento, ameaçando começar a reclamar, e Sawyer dança um pouco para acalmar o choro dela.
– Oi, Hannah – diz ele quando a bebê relaxa. – Oi, menina bonita.
Hannah abre um sorriso como o sol aparecendo entre nuvens nubladas. Viro o rosto com determinação. Próximos assim, eles são tão, tão parecidos, a pele morena e os rostos vivos e inteligentes. Faz meu coração bater de um modo um pouco desagradável, uma máquina de pinball quebrada.
– Oi! – diz Hannah, animada.
Sawyer fica boquiaberto por um momento.
– Ela fala? – pergunta ele, obviamente surpreso.
– Bem, ela é um ser humano – digo com presunção. E então: – Desculpa. – Dou espaço a Sawyer, fechando as pontas dos meus dedos no encosto de uma das cadeiras da cozinha. – Isso foi... desculpa.
– Tudo bem. – Sawyer dá de ombros, olha por um minuto para a maçã do rosto de Hannah. – Você entende que eu não sabia, certo? – diz ele, baixinho.
Encolho o corpo e pigarreio, desviando o olhar com cuidado.
– Sabia o quê? – pergunto, toda ignorante, totalmente inexpressiva.
– Por favor, não. – Os olhos verdes de Sawyer ficam sombrios; o maxilar dele se contrai com emoção. – Olha – diz ele. – Você pode me odiar. Isso é... tanto faz. Não tem problema. Mas não brinque comigo em relação a isso, Reena. Se ela não é minha...
– Está brincando, né? – Olho para ele boquiaberta, porque, sério, que ousadia. – É claro que ela é! – Em algum tipo de contradição bizarra do que quero dizer, arranco a bebê dos braços de Sawyer. Hannah se assusta. – Meu Deus, Sawyer...
– Bem, então apenas diga isso! – Sawyer sacode a cabeça. – Reena, eu não liguei para ninguém. Ninguém sabia como me encontrar. Você sabe disso. Eu não sabia que você estava... se eu soubesse, então...
– Então o quê? – disparo. – Teria assumido? Ou teria oferecido pagar o...
– Não – interrompe Sawyer, sem olhar para mim, mas olha para a bebê. – Por favor. Isso é horrível. Isso é uma merda.
– Estou errada?
– Sim! – Sawyer explode, então hesita, esfregando a nuca com força. – Não sei.
– É – digo. Enfio um pote de biscoitos Goldfish e algumas uvas na bolsa da bebê, arrumando-a com uma das mãos. – Foi o que pensei.
Sawyer sacode a cabeça de novo, frustrado, como se eu estivesse sendo estúpida de propósito.
– Não faço ideia do que eu teria feito, Reena. Sabe como eu era. Era problemático. Foi por isso que eu fui embora, para início de conversa. – Sawyer suspira alto, esfrega uma das mãos na cabeça raspada. – Mas estou aqui agora.
Subo Hannah no quadril.
– Evidentemente.
– Não vou a lugar algum – diz Sawyer para mim, ignorando o sarcasmo ácido em minhas palavras. Ele sai da minha frente com agilidade conforme caminho pela cozinha, como se pudesse adivinhar aonde vou em seguida. – Quero estar aqui. Quero fazer o que puder para ser parte disso.
Abro a boca para dizer algo arrogante, depois volto a fechá-la. De repente, fico tão, tão cansada. Cansada como se não dormisse há dois anos.
– Tudo bem – digo a ele. – Pode ser.
Sawyer arregala os olhos, quase esperando que eu o mandasse para o inferno. Acho que não posso culpá-lo.
– Tudo bem?
Dou de ombros.
– Foi o que eu disse.
Ficamos de pé ali por um minuto, uma trégua cautelosa. Espero. A bebê apoia a cabeça pesada no meu ombro como se estivesse cansada de nós, aconchegando-se.
– Que tal o parque? – pergunta Sawyer depois de pensar duas ou três vezes.
Hesito, olhando para ele.
– O parque?
– Lugar público – explica Sawyer, pegando os óculos escuros de bebê de Hannah do balcão e entregando-os para mim. – Meio do dia.
Reviro os olhos, mas aceito os óculos.
– Ah, pare – digo.
– Fiz você sorrir.
– Parabéns – digo a Sawyer, rindo um pouco com deboche. Apoio os óculos sobre a cabeça de Hannah com cuidado. Ela só gosta de usá-los por pouco tempo.
Sawyer está sorrindo.
– Que tal amanhã?
Suspiro.
– Amanhã está bem.
– Reena, querida... – Soledad espia pela porta de correr, dentro da cozinha, e para subitamente ao nos ver. As sobrancelhas escuras dela se erguem.
– Senhora – diz Sawyer. Se estivesse de chapéu, teria erguido a ponta, tenho certeza.
– Oi, Sawyer. – E para mim, determinada: – Aaron está aqui.
– Sim. – Coloco a bolsa da bebê no ombro, afasto os cabelos castanhos do rosto de Hannah. – Saio em um segundo.
– Então – diz Sawyer quando Soledad vai embora, e é claro que agora ele vai forçar a barra. – Aaron.
Reviro os olhos.
– Tenho um namorado, Sawyer, cruzes. Sei que é difícil acreditar, mas...
– Não é difícil.
– Bem. – Não sei como responder a isso exatamente. Meu coração bate forte no peito. – Tudo bem. A gente se vê.
– Com certeza – respondeu Sawyer, mas me segue para fora da cozinha como uma sombra, e sei que ele sabe exatamente o que está fazendo. Aaron está de pé na sala, meio que assistindo à TV que Soledad deixou ligada, de short, chinelo e com um sorriso tranquilo e despreocupado.
– Oi – digo.
– Oi – diz Aaron.
– Oi – diz Sawyer.
Ficamos de pé ali, os três. Nós nos entreolhamos. Soledad está com cara de quem pensa que perdi a cabeça.
– Aaron – diz ela quando fica claro que não pretendo apresentá-los. – Este é Sawyer. Sawyer, Aaron.
– Prazer – diz Aaron.
– Igualmente – responde Sawyer.
– Bem! – digo, alegre. Em um segundo vou explodir em risadas, mas apenas para evitar outra, e menos desejável, reação. – Precisamos ir.
Sawyer assente devagar. Ele olha para Aaron e depois para mim.
– Vejo você amanhã – diz Sawyer com um leve sorriso no canto da boca.
Desgraçado presunçoso.
– É – respondo. – Tchau. – Beijo Soledad e agarro o pulso de Aaron, e a porta externa bate com um estrondo ao se fechar quando saímos. Praticamente corro até o carro.
– Então – diz Aaron quando colocamos o cinto de segurança. – Aquele era ele.
Nunca, durante todo o tempo em que Aaron e eu nos conhecemos, falei uma palavra a ele sobre Sawyer.
– É – digo, depois de um momento. – Aquele era ele.
Aaron vira a chave na ignição.
– Achei que fosse mais alto. – É tudo o que ele diz.