Duas Vezes Amor
Capítulo 36
Antes
A sra. Bowen não ficou feliz por eu ter faltado a nossa reunião.
– Você não costuma fazer isso, Reena – repreendeu-me com um tom muito frio, que nunca tinha usado comigo. Ela estava de óculos naquele dia, com armação de tartaruga e aparência inteligente. – Sem falar que foi desrespeitoso comigo.
– Eu sei. – Senti o corpo se encolher sob o olhar dela. – Desculpe. – Além disso, meu professor de literatura avançada era rígido, e, como não entreguei um atestado médico, ele tirou dois pontos da minha prova sobre Tolstói.
Encarei o C vermelho forte no alto da folha da prova de segunda chamada e me senti mal. Aquilo definitivamente não aconteceria de novo, prometi a mim mesma, tentando evitar um ataque de pânico no meio do corredor. Não podia deixar que Sawyer me distraísse do que eu deveria estar fazendo de verdade se pretendia, mesmo, me formar mais cedo.
A determinação não durou muito: uma semana ou mais depois eu tinha cumprido um terço de um turno atribulado à noite no restaurante, voltava para a cozinha para pegar mais uma cesta de pães para os turistas loucos por carboidratos em uma mesa dupla nos fundos, quando Sawyer me puxou pelo pulso para dentro do escritório.
– O que... – comecei, os olhos arregalados, mas ele estava ocupado fechando a porta, e então me pressionou contra ela e me deu um beijo selvagem. Ele tinha gosto de chiclete e também de cerveja. – Então, como está sua noite, querido? – murmurei contra o contorno bem-definido do maxilar dele.
Sawyer abriu um sorriso, grande e brilhante, as duas mãos quentes contra a base de minhas costelas, onde minha blusa de botão tinha se soltado (ou, mais precisamente, onde ele a havia soltado).
– Minha noite está ótima – falou Sawyer, e me beijou de novo.
Fechei os olhos e me deixei levar um pouco, os punhos se abrindo e fechando contra o tecido engomado da camisa de trabalho dele. Ele beijava bem. Estava com uma das mãos em minha nuca agora, as pontas dos dedos em meus cabelos, puxando minha cabeça para baixo apenas um pouco a fim de alcançar a pele pálida e sensível abaixo de minha gola; ele estava colocando um joelho entre os meus, muito devagar, quando a porta do escritório se abriu com força atrás de mim.
Tropecei para a frente, em cima de Sawyer, e então me virei. Ali estava meu pai, os olhos sombrios e irados, o maxilar contraído com força. Por um segundo, ele só nos encarou.
– Hum – falei, a mão disparando para a boca antes que pudesse conter o impulso, limpando-a com o dorso da mão. Atrás de mim, Sawyer pigarreou. – Só estávamos...
– Não. – O rosto dele estava muito vermelho. Papai abriu a boca e fechou-a de novo, como se precisasse de todo o controle do mundo para não nos dar um sermão, aos berros, na frente dos setenta e cinco clientes no salão. – Volte para o bar antes que eu o demita – disse ele por fim, olhando para Sawyer. – Agora.
Sawyer assentiu em obediência, alisou a frente da camisa e deu a volta por mim para se dirigir à porta. Fiz menção de segui-lo, o rosto ainda mais vermelho do que o de papai, mas ele colocou a mão em meu cotovelo, tão forte que doeu.
– Você – disse ele, baixinho. – Você fica.
– Leo... – começou Sawyer.
– Sawyer, juro por Deus, se não sair da minha frente em um segundo, vai ver um lado meu que jamais viu, e juro que não vai gostar dele.
Sawyer foi.
Meu pai fechou a porta com força e se virou para falar comigo.
– Está de brincadeira? – perguntou ele. Só me encarou por uma fração de segundo, parecendo ter dificuldade de manter contato visual. Foi até a escrivaninha e pegou um frasco de aspirina da primeira gaveta, engoliu duas sem ajuda de água. – É sério. Sinceramente, não sei como lidar com você ultimamente. Não sei mesmo.
– Pai – falei, tentando manter a calma, como tinha aprendido a lidar com um cliente transtornado. – Só estávamos...
– Só estavam o quê, Serena? – replicou ele, literalmente erguendo as mãos. O telefone tocou na mesa, um toque ruidoso, mas papai agiu como se nem tivesse ouvido. Os olhos dele passaram para minha camisa puxada para fora da calça. – Se agarrando no meu escritório e quem sabe o que mais? Não vou aturar isso. Não vou.
Brinquei um pouco com os fios do computador pendendo da beira da escrivaninha. De fato, o escritório tinha sido um lugar absurdamente idiota para escolhermos – era difícil para mim pensar de modo racional quando o assunto era Sawyer.
– Desculpe – falei com o máximo de sinceridade. Queria tanto acalmá-lo. – Aquilo foi idiota.
– Foi mesmo – concordou papai, esfregando a testa bronzeada –, mas não quero ouvir desculpas. Estou cansado de desculpas. Tratei você como adulta, Reena. Confiei em você mesmo quando foi difícil para mim. Sei que teve um ano difícil, e não a proibi de ver Sawyer até agora, mas farei isso se for o único jeito de você ouvir. – Estava ficando escuro; do lado de fora da janela, eu via a luz mudando, tons roxos e azuis. – Estou preocupado com você, Reena. Entende? Mais do que preocupado. Estou aterrorizado.
– Com o quê? – Exigi saber, a voz esganiçada. – Com o que exatamente está tão preocupado?
Meu pai me encarou como se eu fosse uma criança, como se eu não tivesse noção de como o mundo funcionava.
– Ouça – disse ele devagar, me encarando pela primeira vez desde que entrara no escritório. – Sou seu pai. E estou preocupado que você cometa um erro que não vou poder consertar.
Senti minha coluna enrijecer. Eu estava cansada da religião de papai, dos julgamentos dele, da culpa e do cheiro opressor de incenso; não era muito boa em quebrar as regras, mas estava cansada de ser tão comportada. Em momentos como aquele, mal podia esperar pela Northwestern para sair de debaixo do olhar vigilante e tirano dele, embora isso, é claro, também significasse deixar Sawyer.
– Você é tão linda – disse papai, quase implorando. – E é tão inteligente. Não consigo, pela minha vida, entender por que quer arriscar jogar tudo isso fora por...
– Não estou jogando nada fora! – Minha voz se ergueu perigosamente. – Tenho dezesseis anos. Tenho um namorado. É normal. Não para mim, até agora, talvez, mas para outras pessoas isso é normal. Pode, por favor, relaxar e me deixar viver?
Papai gargalhou ao ouvir isso, grave, baixo e incrédulo.
– Reena – disse ele, baixinho –, é exatamente isso o que estou tentando fazer.
Abri a boca para responder, mas ele tinha terminado àquela altura e seguia para a escrivaninha para pegar o que fora buscar a princípio.
– Volte para suas mesas – disse ele, quase distraído. – E, pelo amor de Deus, coloque a blusa para dentro.
Não sei quando me ocorreu pela primeira vez que meu pai não era o único que não gostava de pensar em mim e Sawyer juntos. Lydia estava nos olhando de esguelha, com certeza.
– Sua mãe acha que sou uma idiota – contei a Sawyer depois de um encontro especialmente esquisito no estacionamento do Antonia’s, quando Lydia me ofereceu uma carona para casa em um tom que pareceu uma ordem, e eu gaguejei para admitir que, na verdade, estava indo para a casa do filho dela. Sawyer gargalhou como se achasse que eu estava brincando. Eu não tinha tanta certeza.
– Ela é uma valentona, só isso – falou Shelby depois que contei a ela no tempo livre que tínhamos; disse-lhe como me sentia incapaz de falar perto de Lydia, eu a tinha visto deixar um assistente de cozinha robusto quase em lágrimas com uma reprimenda fria e afiada sobre a qualidade de nosso molho hollandaise, e me vira completamente incapaz de montar uma frase quando ela me fez uma pergunta extremamente simples sobre o novo horário de primavera. Ela me lançara um olhar entediado e irritado e fora embora. – Você só precisa enfrentá-la. É como socar a criança mais malvada do parquinho.
Meu riso de deboche foi tão alto que a monitora da sala de estudos me lançou um olhar irritado, os enormes óculos deslizando pelo nariz oleoso. Desviei o olhar para a matéria que deveria escrever sobre o concerto de primavera das bandas de jazz, então olhei de novo para Shelby.
– Quer que eu soque Lydia LeGrande?
– Ai, meu Deus, sim. Com cada fibra do meu corpo, quero. – Shelby gargalhou e estendeu o braço sobre a mesa, depois puxou minha trança de modo reconfortante. – Você vai ver, Reena. Ela nunca vai saber o que a acertou.
Eu estava sentada de pernas cruzadas na cama, com o laptop e um caderno espiralado, alternando entre o texto da revista e uma carta de apresentação para um estágio no South Florida Living que a sra. Bowen – que já havia me perdoado um pouco – parecia certa de que eu conseguiria, quando algo pequeno e duro estalou contra o batente da janela atrás da minha cabeça. Dei um salto, jogando o caderno no piso de madeira, e fiquei de joelhos, virando-me e olhando pela janela no momento em que uma pedrinha branca e brilhante bateu na lateral da casa, perto de meu nariz.
Afastei o cabelo do rosto e senti o estômago se revirar – Sawyer estava de pé na entrada da minha garagem de camiseta de beisebol de manga comprida, uma das mãos enroscada nos cabelos despenteados. Suspirei. É claro que estaria apaixonada pelo tipo de garoto que atirava pedras em janelas.
Abri a janela e recebi uma lufada do ar quente e úmido da Flórida. O céu estava escuro, nuvens preto-arroxeadas pesadas entrando da direção da água, e as palmeiras já começavam a se dobrar com o vento abafado. Cheirava a chuva.
– O que está fazendo? – sussurrei. Olhei para trás, na direção da porta aberta do quarto, em busca de algum sinal de vida de papai e Soledad no corredor. Depois da cena no escritório do restaurante, a última coisa de que eu precisava era que ele pegasse Sawyer em nossa casa no meio da noite.
– Oi – gritou ele de volta. – Pode descer?
– O quê? – falei de modo idiota, embora tivesse ouvido bem. – É claro. Sim. Espere. – Vesti um suéter por cima da regata e desci, descalça, as escadas. A cozinha estava escura, exceto pela luminária sob o micro-ondas, e silenciosa, a não ser pelo murmúrio baixo da lava-louças no modo de secagem. Ele estava de pé nos degraus dos fundos quando abri a porta.
– Oi – falei, cautelosa, ainda lembrando de quando tínhamos sido flagrados. Sawyer me beijou por um tempão sem entrar, como se esperasse um convite. Ele tinha um cheiro quente como a terra, não completamente limpo, e, quando finalmente entrou na cozinha, trouxe um pouco de lama para dentro.
– Desculpe. – Foi o que ele disse primeiro, olhando para baixo. – Oi.
– Oi. Tudo bem. – Olhei para a entrada da garagem atrás dele, mas o jipe não estava lá. – Veio de carro até aqui?
– Não. Andando.
– Da sua casa?
Sawyer fez que não com a cabeça.
– Estava em uma festa.
– Por quê?
– Por que eu estava em uma festa?
– Por que veio andando?
– Queria ver você.
Semicerrei os olhos.
– Está bêbado?
– Só um pouco.
– Está só bêbado?
Sawyer fez uma careta.
– Posso dormir aqui?
Jesus Cristo.
– Hum – falei, hesitante. Aquele era basicamente o plano mais idiota do universo. De maneira alguma Sawyer poderia passar a noite em minha cama. Eu nem conseguia imaginar como meu pai ficaria puto se nos pegasse, definitivamente me proibiria de ver Sawyer depois daquilo, e o que aconteceria então? Era absurdamente estúpido sequer pensar naquilo, uma missão suicida, mas: – Claro. – Ouvi-me dizer. – Sim. Claro. O que há?
– Nada. Senti sua falta. Sou burro. Você devia estar dormindo.
– Fazendo dever de casa, na verdade. – Afastei os cabelos dele da testa. Sawyer precisava de um corte.
– Ah. – O rosto dele se anuviou apenas por uma fração de segundo, ao redor dos olhos. – Se estiver ocupada, posso ir.
A voz dele acabou comigo, tão baixa e murmurada, como um ronronar de gato e um caminhão sobre cascalho. Eu poderia ouvir Sawyer ler a lista telefônica, era a verdade.
– Não se preocupe. Suba. Posso terminar amanhã de manhã. – Encolhi um pouco o corpo ao dizer isso, pensando na sra. Bowen e no meu C em literatura, as promessas que tinha feito a mim mesma de que não faria aquilo. Era primavera, a formatura estava próxima. Eu não podia arriscar estragar tudo. Mesmo assim, dei a mão a Sawyer, puxando-o para perto. – Sério, tudo bem.
Ele hesitou, sem se mexer muito.
– Não quero estragar as coisas para você – disse ele.
– Não está estragando nada para ninguém.
– É, diga isso a meu pai.
– O que seu pai disse? – perguntei, parando para olhá-lo, confusa. Estávamos de pé no meio da cozinha agora, canecas para o café da manhã posicionadas meticulosamente no balcão. Soledad jamais ia dormir até que tudo estivesse no lugar certo. – Quando viu seu pai?
– Passei lá para buscar algumas coisas. Preciso tomar banho.
– Sawyer. O que ele disse?
Os dentes de Sawyer roçaram a parte de cima do meu maxilar, voltando para perto de minha orelha.
– Você deveria vir comigo.
– Já estou limpa – respondi, engolindo em seco audivelmente.
– E daí?
– E daí que, se meu pai acordasse, ele arrancaria suas bolas.
Sawyer inclinou a cabeça para o lado como se dissesse, justo.
– Nada de banho, então.
Dei uma risadinha e segurei a mão fria e macia dele, puxando-o para fora da cozinha pelo corredor escuro. As escadas antigas estalavam e murmuravam.
– Shh – sussurrei, o coração acelerado, as pontas dos dedos enroscadas no ombro dele para mantê-lo onde estava. Nossa, íamos, com certeza, ser pegos.
Prestei atenção por um minuto e não ouvi nada.
– Precisa ficar muito quieto, Sawyer, sem brincadeira.
– Não sou eu, é sua casa – sussurrou Sawyer de volta. A mão dele subiu a parte de trás da minha camiseta. Mesmo bêbado, ele era rápido e sorrateiro, gracioso como um animal em fuga. Pensei na floresta Sherwood. Pensei em Robin Hood.
Meu quarto estava à meia-luz com a lâmpada de leitura na mesa de cabeceira, e fiquei próxima à porta para olhar em volta, tentando, de novo, entender o que Sawyer viu quando entrou ali. Olhei para as prateleiras lotadas, as fotos nas paredes – Cade e eu na praia quando éramos pequenos, Shelby na arquibancada da escola. Havia uma foto de minha mãe, de quando ela estava grávida de mim, redonda como uma bola, a cabeça para trás, rindo; ao lado dessa, havia uma grande foto em preto e branco do rio Sena.
– Ei – disse Sawyer, exalando, sentando-se na beirada do colchão. – Sua cama está quente.
– Eu estava sentada nela. – Tranquei a porta do quarto para ficar em segurança, então atravessei o cômodo e ajoelhei diante de Sawyer. Havia cordões e pulseiras ao redor da garganta e dos pulsos dele, de cânhamo e couro, parecia um cigano. – Tem certeza de que está bem?
– É. Desculpe. Eu deveria ter deixado você dormir.
– Já falei, não estava dormindo. Deite-se – instruí, e subi ao lado dele. Ouvi Sawyer respirar por um tempo, até que ele pareceu se acalmar um pouco. Mantive um ouvido atento para o corredor. Sawyer definitivamente não estava só bêbado.
Eu me aproximei até estar encostada nele, uma das pernas jogada sobre a sua, e apoiei o queixo na curva de seu ombro. A pele fina do pescoço de Sawyer estava quente contra minha bochecha. Imaginei onde ele estava e com quem, se por acaso se divertia mais quando eu não estava por perto. Percebi que Sawyer conseguia ser uma pessoa completamente diferente quando queria, como se pudesse se transformar bem diante de meus olhos.
Ele não é o que achamos que era, lembrei-me de Allie dizendo, a luz do quintal refletindo nos cabelos amarelos dela na última noite de nossa amizade. Desejei poder conversar com ela agora. Ele era assim com você? Imaginei-me perguntando – nós duas, sentadas nos balanços para os quais éramos velhas demais, a mãe dela fazendo muffins de linhaça dentro da casa.
– Você pensa em Allie? – perguntei de súbito. Disparei a frase, rápida e baixa, antes que pudesse pensar o suficiente para perder a coragem.
Apenas por um segundo, observei Sawyer desaparecer em algum lugar de sua mente no qual eu não conseguia encontrá-lo. Então, ele piscou e voltou.
– O quê?
– Você ouviu.
– Talvez não.
– Ouviu, sim.
Sawyer deu de ombros sobre os travesseiros em minha cama.
– Não sei, Reena. Não quero falar sobre isso.
– Por que não? – perguntei, me apoiando em um cotovelo para olhar para ele: músculos nos ombros, nós duros dos ossos do pulso. A pele de Sawyer estava levemente brilhante, um pouco pálida.
Ele sacudiu a cabeça com teimosia.
– Por favor.
– Por favor, eu? – Franzi a testa. – Por favor você. Só estou perguntando...
– Reena. – Ele parecia nervoso, como se eu o estivesse irritando de alguma forma, como se talvez ele estivesse arrependido de ter aparecido. – Olhe, posso ir embora se quiser. Mas não quero falar sobre isso.
– Tudo bem. – Deitei de costas de novo e olhei para o teto. Eu me sentia inquieta e desconfortável, fora de mim.
– Não vai mais gostar de mim – disse ele baixinho. – Se falarmos sobre isso.
Sentei na cama.
– O que isso quer dizer?
Sawyer deu de ombros de novo, desanimado.
– Significa exatamente o que eu disse.
– Eu jamais poderia não gostar de você – protestei, embora, de repente, houvesse uma parte de mim que não estava totalmente certa disso. – Teremos que conversar sobre isso em algum momento, não acha?
– Por quê? – perguntou ele então, direta e simplesmente. Eu nem mesmo tinha uma resposta para isso. Pensei no queixo delineado de Allie e nos pés de palhaço dela, nas longas horas passadas na seção de DVDs da biblioteca debatendo o que assistir naquela noite e o modo como ela conseguia me fazer rir do outro lado da sala com uma contração ínfima do rosto.
Porque sinto falta dela, quase disse a Sawyer. Porque sinto falta dela do fundo do meu coração idiota.
No fim, no entanto, apenas deixei pra lá. Não sei por quê, exatamente, talvez tivesse medo do que ele diria, que, depois de exposto, Sawyer jamais conseguisse voltar atrás. Como se o que tivéssemos fosse tão frágil, quebradiço como casca de ovo, valioso como pedra preciosa, que eu precisasse proteger a qualquer custo.
– Qual é a única coisa que você acha interessante de verdade? – perguntei, abraçando os joelhos com os braços e baixando o rosto para Sawyer. – Não algo óbvio. Não diga que é sua guitarra.
Sawyer visivelmente relaxou nesse momento, o corpo inteiro se esticando. Ele colocou um braço atrás da cabeça e, simples assim, éramos amigos de novo.
– Posso dizer garotas? – perguntou ele, sorrindo um pouco.
– Não diga garotas.
– Posso dizer uma garota em especial?
– Eu mandei não dizer garotas!
– Tudo bem. – Ele se virou para me olhar. – Bem, se não posso dizer minha guitarra e não posso dizer garotas, acho que preciso dizer o tempo.
– Desculpe. Como é?
Sawyer deu de ombros.
– O clima.
– Todo tipo de clima?
– Bem, sim. Mas não é disso que estou falando, exatamente. Estou falando de, tipo, como ele funciona. Energia, frentes e coisas assim. Sei muito sobre o clima, na verdade. Eu queria ser meteorologista quando era pequeno.
– Não.
– Sim.
– Você é uma caixinha de surpresas.
– É o que dizem.
Estiquei o braço para Sawyer e apaguei a luminária.
– Fale sobre nuvens.