Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 37 de 53

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Duas Vezes Amor

Capítulo 37

Depois

A última vez que estive em um hospital foi quando Hannah nasceu. Ela levou vinte e uma horas para chegar, minha bebezinha, e passei grande parte dessas horas mastigando lascas de gelo e xingando Deus e os homens. Encarava as paredes amarelo-claras da maternidade. Chorava um pouco.

A vez antes dessa foi a noite em que Allie morreu.

– Por que não estava com o celular? – Cade exige saber antes de qualquer coisa. Ele parece inquieto, anda de um lado para outro na sala de espera como um leão. – Tentei ligar para você milhares de vezes.

– Stef nos encontrou em casa – falo, sacudindo a cabeça, tentando limpar a mente. Entrego Hannah a Sawyer, os braços dele já estendidos. – O que está acontecendo? Como ele está?

– Está em cirurgia. Teve um ataque cardíaco.

– Eu sei – disparo. – Stef falou. O que mais?

– Eles o levaram para cima há alguns minutos. É uma ponte de safena tripla.

– Isso é perigoso?

– Não é mais perigoso do que o ataque cardíaco – replica meu irmão, o rosto contorcendo-se de forma maldosa.

– Não precisa ser sacana com relação a isso.

– Você deveria estar com o celular.

– Saí com pressa. – Uma nova onda de medo e náusea me percorreu quando lembrei da saída dramática. Não acredito que falei com meu pai daquele jeito, sabendo como é o coração dele. – Fui horrível com ele no jantar. Com Roger e Lydia. Brigamos. – Mal consigo dizer as palavras. Parece um déjà vu cruel e incomum, e tento não seguir a mesma linha de pensamento para a inevitável conclusão, como Allie e eu jamais conseguimos fazer as pazes antes de ela...

– Meu Deus, Reena. – Cade sacode a cabeça. – Eles estão aqui. Foram comprar café. – Cade olha para trás, para Soledad, que está imóvel como uma estátua da Virgem, sentada em uma cadeira de plástico com encosto duro. A camisa dela está frouxa e amassada. Soledad parece meio morta. Sento-me ao lado dela e busco o rosário dentro de sua bolsa, pois sei que ela o deixa ali, no fundo. Soledad passa o rosário pelo punho sem me olhar.

Olho em volta. Sawyer está perto da porta conversando baixinho com a bebê, explicando uma pintura em aquarela de aparência horrorosa pendurada na parede.

– ... o oceano. – Ouço Sawyer dizer. – Nada de banho hoje.

A parede é texturizada com tons de marrom e bege, o linóleo é salpicado de cinza, como um Pollock barato. A máquina de refrigerante zumbe e brilha. Um jovem com uma toalha enroscada na mão se senta ao lado de uma mulher de expressão entediada vestindo uma blusa de frente única e brincando com o celular: além de nós, são os únicos ali. Dia sem emergências, talvez.

Cruzo as pernas, descruzo. Está frio ali dentro, desconfortável, como o polo Norte ou uma loja de conveniência às duas horas da manhã. Penso no dia em que Sawyer chegou. Penso na noite do acidente de Allie. Atrás do balcão, uma recepcionista está lendo Glamour. Engulo em seco.

Cade me contou uma vez que, na noite em que mamãe morreu, papai ficou sentado no breu de nossa casa antiga e aos pedaços e tocou piano até o amanhecer alaranjado e orvalhado atrás dele. Escalas musicais, contou-me Cade. Escalas musicais, Mozart e Billy Joel e qualquer outra coisa em que conseguiu pensar, melodias inventadas do nada das quais ninguém, nem mesmo ele, conseguia se lembrar quando a manhã chegou.

Não tenho como verificar se isso aconteceu de fato. Deus sabe que meu irmão gosta de uma boa história, e nunca lhe faltou imaginação para inventar uma, mas, desde a noite em que a ouvi pela primeira vez – sussurrada no calor de floresta tropical de nosso quintal, anos depois de supostamente ter acontecido –, acreditei cegamente. Há um retrato disso em minha mente: meu pai, o rosto endurecido devido ao luto, curvado com os dedos flutuando sobre as teclas pretas e brancas do piano. Um retrato tão claro que, por muito tempo, eu estive convencida de que talvez me lembrasse também.

Agora, quando penso nisso, percebo que deve ser apenas uma montagem, algum amálgama incongruente de todas as outras noites em que acordei e encontrei papai ao piano Steinway lustroso e esplendoroso, próximo à janela de nossa casa. Vivi dezenas e dezenas de noites assim quando era pequena: noites em que eu saía da cama, acordada por algum pesadelo terrível, e saía descalça e sonolenta pelo corredor para me sentar à base da escada e ouvir papai tocar. Com a música certa, entenda, meu pai poderia expiar quaisquer pecados cometidos contra a filhinha dele pelo mundo afora. Com a música certa, eu, sonolenta e encostando a cabeça de cabelos castanhos contra o corrimão e fechando os olhos, pensava que papai poderia me libertar.

– Reena.

Olho para a frente e percebo que não é a primeira vez que Sawyer chamou meu nome – que ele, Cade e Stef, que nos seguiu no próprio carro, estão me olhando, esperando. Meu tornozelo se agita, sem descontrole. Paro.

– O quê? – pergunto, defensiva.

– Vou levar Hannah para trocar a fralda.

Quase rio.

– Você ao menos sabe como trocar uma fralda? – pergunto, e sai muito mais ofensivo do que pretendo.

Sawyer sorri, meio segundo apenas.

– Eu descubro.

Esperamos. O que não dizem sobre hospitais, o que não mostram nos programas de TV sobre médicos bem-paramentados e os pacientes cujas vidas eles salvam, é quanto tempo tudo demora. Roger e Lydia voltam com duas bandejas de papelão cheias de cafés gelados. Pego um e agradeço. Stef pega comida no refeitório. Sawyer caminha com Hannah. Consigo ouvir Soledad murmurando em espanhol:

– Dios te salve, Maria...

Quando a recepcionista termina de ler a Glamour e a deixa no balcão, me aproximo e pego a revista, folheio para descobrir o que garotas com mais dinheiro, menos gordura abdominal e pais saudáveis estão vestindo na estação. Consigo ouvir o relógio tiquetaqueando, constante.

Horas se passam até alguém sair para falar conosco, é quase meia-noite quando um médico desarrumado e com aparência cansada, usando óculos sem armação, aparece na sala de espera para nos informar que, na verdade, não tem nada a informar. Houve algumas complicações, diz ele vagamente; não há nada que possa nos dizer além disso. Ficarão com meu pai até de manhã, as máquinas apitando e mãos frias dentro do peito dele. Devemos todos voltar para casa.

– Eu fico – diz Cade de imediato, sacudindo a cabeça como um asno. – Você vai – diz ele a Stef. – Reena, você também deveria ir.

Discuto.

– Se você vai ficar, eu vou ficar.

Cade ergue uma sobrancelha para mim.

– E quanto a Hannah? – Ele é um desgraçado mandão às vezes, meu irmão, mas é prático como ninguém.

Olho para Sawyer. Estou tão desesperada a ponto de deixá-lo levar a bebê de mim? Estou tentando pensar rápido agora, mas Soledad se levanta da cadeira. Como se alguém a tivesse ligado na tomada, ela volta à ação, assumindo o comando.

– Não seja teimosa, Reena – diz ela. – Leve a bebê para casa.

– Eu levo – oferece Sawyer.

– Não falem de mim como se eu não estivesse aqui – disparo. – Estou bem aqui.

Ele dá de ombros, todo inocente.

– Eu sei que está.

– Vá – diz Soledad. – Amo você. Coloque a bebê para dormir. – Antes que eu consiga esboçar reação, Soledad me abraça, apertando forte. – Reena – continua ela baixinho, e me ocorre que um dia nunca deveria durar tanto. – Reze.

Em casa, bato a porta do carro na entrada da garagem. O som é estranhamente assustador. Sinos de vento tilintam na varanda. Nas árvores, grilos e cigarras estão esfregando as pernas preguiçosas.

– Que barulhão – sussurra Sawyer para Hannah ao tirá-la da cadeirinha do carro.

Ficamos calados na viagem de volta, uma das poucas vezes que estive no carro com Sawyer sem o rádio estar ligado. O barulho repentino, natural ou não, é assustador.

Ele me leva até a porta, hesita quando tiro as chaves de dentro da bolsa de fraldas de Hannah. Ela está totalmente acordada agora, berrando sílabas sem sentido. Abro a porta, e Sawyer entrega Hannah para mim. Tantos pais e filhas esta noite.

– Então – diz ele, de pé em minha varanda com as mãos nos bolsos. Estou com metade do corpo dentro de casa e a outra metade fora. – Como está?

Dou de ombros, sobrecarregada com minha menina e a bolsa, mas muito mais pela fadiga repentina e total que toma meu corpo, como se a pele estivesse cheia de areia.

– Bem. Cansada.

Sawyer não fica satisfeito. Ele não se move.

– O que mais?

– Não sei. – Algo que não consigo nomear. – Fora de mim, talvez. – Tudo é tão pesado, e me sinto súbita e ridiculamente a ponto de explodir em gargalhadas na cara dele em mais um segundo, então:

– Precisa que eu fique? – pergunta Sawyer na mesma hora em que digo:

– Quer ficar?

De onde diabo isso saiu? Não quero entrar na casa sozinha, é daí que saiu, mas não tenho tanta certeza de que quero entrar com Sawyer.

– Acho que estou bem – digo, mas Sawyer interrompe.

– Eu dormiria no sofá.

– Não, é, totalmente – digo, toda desconfortável. – É claro.

Não tenho certeza se isso foi um acordo, mas Sawyer entende dessa forma.

– Tudo bem – diz ele, devagar. – Então... vou ficar.

Hesito.

– Tudo bem. – Seguro a porta externa para ele entrar e deixo que ela bata ao se fechar, jogo a bolsa de fraldas na base das escadas com um estampido forte. A primeira coisa que faço é desligar o ar-condicionado: não suporto mais um sopro de ar reciclado.

Levo Hannah comigo, equilibrando-a no quadril e abrindo as janelas com uma das mãos, deixando o ar entrar. Fiquei muito boa, no último ano e meio, em fazer coisas com uma só mão.

– Ei – diz Sawyer, surgindo atrás de mim na sala de jantar. – Precisa de ajuda?

– Não conseguia respirar. – Talvez seja a verdade, aliás, agora que penso a respeito. Talvez não tivesse respirado direito desde antes do jantar. Posso estar com danos cerebrais, privada de oxigênio.

– Vamos colocar esta dama na cama – sugere Sawyer. Assinto, querendo que alguém dite as regras neste momento, e troco Hannah antes de colocá-la no berço sem falar muito. – Apagou – diz Sawyer, esfregando a mão sobre a cabeça raspada, depois que Hannah passa a respirar profundamente por alguns momentos.

– Muito bem. – Afundo na cadeira de balanço, exausta.

– Vá colocar o pijama – diz Sawyer, reparando como estou cansada. Provavelmente pareço um lixo, embora não consiga me importar. – Está com fome?

Faço que não.

– Comi, tipo, três pacotes de M&Ms enquanto esperávamos – digo a ele, aceitando a mão que Sawyer oferece para me ajudar a levantar.

– Eu sei – responde ele. Sawyer fecha a porta do quarto da bebê quando passamos para o corredor, deixando apenas uma fresta aberta para que um filete de luz recaia sobre o tapete cinza do lado de dentro. – Eu vi. Você é uma mulher impressionante. Mas quer um jantar de verdade?

– Sim. Talvez. Não sei.

– Bem, como está tão determinada – ele sorri –, vou descer e ver o que tem na geladeira. Vá tirar as roupas.

– Cale a boca. – Caminho pelo corredor até meu quarto. Troco de roupa e refaço a trança dos cabelos apressadamente. Quando desço, Sawyer esquentou sobras do jantar da noite; Stef deve ter lavado a louça enquanto nos esperava, e há diversos potes Tupperware organizados e empilhados no balcão. Sawyer ligou o pequeno rádio de Soledad na estação da universidade, e Billie Holiday canta sobre seu homem mau, tão mau.

– Quer encher a cara? – pergunta ele, tirando a cabeça de dentro da geladeira. Sawyer segura uma garrafa de vinho branco.

Ergo as sobrancelhas.

– Achei que não bebesse mais.

– Não bebo. Mas isso não quer dizer que você não possa.

– Não, obrigada. – Sento no balcão enquanto ele guarda a garrafa. – Você entrou em algum programa?

– Hum?

– Para parar de beber?

– Ah. Não. Só meio que parei.

– Uau.

– Eu não era alcoólatra. Só era burro. – Ele gesticula elegantemente com os ombros. – Mas com a oxicodona precisei de uma ajudinha. O quê? – pergunta Sawyer ao ver minha expressão presumivelmente embasbacada. Ele assente e come uma garfada de arroz de um dos potes. – Fui em Tucson durante, tipo, um mês.

Hesito.

– Antes ou depois da fazenda de soja?

– Antes. – Ele me olha, interessado. – É tão difícil acreditar?

– Que você esteve em reabilitação? Um pouco.

Sawyer dá de ombros.

– Não espalhe, está bem? Não quero que as pessoas pensem que perdi o jeito. – Ele sorri, olha pela janela para o quintal sombreado. – Mas foi bom. Eu estava bem viciado quando saí daqui, menina.

Sem brincadeira. Penso nos comprimidos no sapato de Sawyer na primeira noite que passamos juntos, em Animal e em Lauren Werner e na casa de estuque aos pedaços. Penso em como me senti quando o perdi, devagar, de forma dolorosa e confusa, e em como foi imaginar se algum dia o tive de verdade.

– É – digo, devagar. – Eu lembro.

Ficamos em silêncio por um minuto, nós dois. Por fim, pigarreio.

– Seus pais sabem? – pergunto, a voz meio alta na cozinha vazia. – Que você foi?

– Não. – Sawyer sacode a cabeça. Ele tirou a gravata ridícula em algum momento, a camisa de botão foi desabotoada no colarinho e as mangas estão enroladas até os cotovelos. – Ninguém sabe. Ou melhor – corrige ele. – Você sabe, agora.

Penso nisso por um minuto.

– Queria que tivesse dito alguma coisa.

– Sério? – Sawyer parece interessado.

– É – respondo, sorrindo um pouco. – Talvez eu tivesse odiado você um pouco menos.

Sawyer sorri.

– Provavelmente não.

– Bem, não, provavelmente não. – Brinco um pouco com a comida no prato. – Mas não deve ter sido fácil.

– Olha, não foi moleza. – Sawyer dá de ombros. – Mas tinham uma máquina de raspadinhas vinte e quatro horas.

Ahá. Franzo o nariz.

– Resolvido o enigma – digo, sentindo-me um pouco envergonhada e não completamente certa a respeito do motivo. Ainda há tanto sobre ele que não sei. – Mais barato que bebida alcoólica.

– Mais barato do que muita coisa – diz Sawyer, e ficamos em silêncio depois disso.

Mesmo assim, fico feliz por ele estar aqui. Relaxei: meu coração se acalmou ao ritmo da música que sai do rádio, melosa e lenta, e essa percepção é o bastante para me deixar em pânico de novo. Mandei meu pai para o hospital hoje. Humilhei minha família. Estou em cacos, arrasada e exposta, em tantos sentidos da palavra.

– Ei – diz Sawyer. – Pare com isso.

Hesito.

– Com o quê?

– Você não causou o ataque cardíaco em seu pai.

– O quê? – Por um momento insano, acho que ele, de fato, leu minha mente, mas Sawyer apenas dá de ombros.

– Era o que estava fazendo, não? – pergunta ele. – Se martirizando por ter se defendido uma vez na vida?

Considero a negação, decido que é inútil.

– Entre outras coisas.

– Bem, pare com isso. Olha – diz Sawyer. – Sabe que amo seu pai como se ele fosse o meu. Sei que ele me odeia agora, e não tem problema, mas ele sempre foi bom para mim quando eu era pequeno, e não o culpo. Mas sei como ele é. E sei como deve ter sido para você. Tudo o que você lhe disse hoje... – Sawyer sacode a cabeça. – Ele mais do que mereceu.

– Talvez.

– Talvez, não – diz Sawyer. Ele dá um passo à frente, bem perto de mim. Minha respiração falha um pouco. – Estou dizendo a verdade.

Ele se inclina – ai, Deus, definitivamente se inclina, tão perto que consigo ver as manchas cor de âmbar em seus olhos verdes – mas, por fim, saio do balcão, fugindo. Este dia não acaba, e não preciso de mais uma coisa perigosa.

– Acho que vou tentar dormir – digo a Sawyer, abrindo um espaço seguro entre nós, a extensão limpa dos azulejos da cozinha. – Quer que eu arrume o sofá para você?

Sawyer ergue uma sobrancelha castanha.

– Acho que me viro.

– Tudo bem, então. – Colocamos os pratos na lava-louças. Limpo o balcão, distraída. A lua invade a janela, pálida e prateada.