Duas Vezes Amor
Capítulo 45
Depois
Deixo Hannah com Stefanie e dirijo rápido demais até o hospital, com uma muda de roupas e um sanduíche para Sol no assento do carona, ao meu lado. Ela tem uma aparência arrasada, mas meu pai parece bem, considerando a situação: ele está grogue e abatido, um soro preso ao dorso da mão. Tenho cinquenta coisas para contar a ele, mas nenhum de nós diz nada e me sento na beira da cama enquanto assistimos ao Today Show, um trecho incrivelmente chato sobre encontrar os melhores vegetais no verão. Aquilo me faz querer mirtilos. Fico inquieta. Penso em como ele ficaria desapontado se soubesse que passei as últimas doze horas repetindo todos os erros estúpidos que já cometi com Sawyer, ou se esse é o tipo de decisão errada que papai espera de mim depois de tanto tempo. Sinto-me tola acima de tudo, por me deixar acreditar que poderia fazer dar certo depois de tudo o que aconteceu.
– Você me assustou – digo a papai por fim. Quero dizer desculpe, mas não sei por onde começar. – Não faça de novo.
– Sim, senhora. – Ele assente e se recosta nos travesseiros, a pele sob os olhos pálida e cinzenta. A barba de um dia se espalha pela face. – Soledad já me deu um sermão.
– Voltarei mais tarde com Hannah – prometo, encaminhando-me para a saída. Dou um beijo na testa de papai e não choro até chegar ao estacionamento, como se eu tivesse um ferimento grave.
Sawyer aparece dez minutos antes das sete para assumir o lugar de Joe, que me entrega uma bala Dum Dum de caramelo para Hannah antes de voltar para casa, para a esposa. Sawyer cresceu atrás daquele bar, assim como o resto de nós, e logo se acomoda em meio ao Southern Comfort e ao xarope de romã, preparando-se como se jamais tivesse partido.
Tento ao máximo não observar, não reparar que ele lança um sorriso experiente para uma mulher de meia-idade com maquiagem pesada ou fala de beisebol com dois executivos que estão na cidade para uma conferência. Mesmo assim, o restaurante não está muito cheio, e não temos muito o que fazer. Eu me escondo na cozinha por um tempo, conto a Finch o que está acontecendo com meu pai.
Às oito da noite, o lugar enche o bastante para que eu consiga entrar em um tipo de ritmo estranho e familiar: contas divididas e azeite, facas e pratos sobressalentes. Faço meus pedidos de bebidas pelo computador no corredor dos fundos e nem olho para Sawyer.
Por fim, ele repara que não estou reparando, me encara quando sigo para a cozinha equilibrando pratos sujos nos braços. Não sei o que estou esperando exatamente, mas não é o sorriso impassível de âncora de noticiário que Sawyer me lança.
– Precisa de alguma coisa, Reena? – pergunta ele.
Preciso, na verdade; só não registrei no sistema ainda.
– Duas Amstels – digo a Sawyer, sem rodeios. É a primeira coisa que digo a ele a noite toda.
Sawyer ergue as sobrancelhas, provocando.
– Qual é a palavra mágica? – pergunta ele.
Faço cara de raiva.
– Sawyer, cale a boca e pegue as cervejas para mim.
– Irritada – diz ele, e me mostra a língua. Sawyer se vira para pegar os copos, os músculos se movendo por dentro da camisa de uma forma que faço o possível para não reparar. Reviro os olhos para disfarçar, tentando parecer bastante irritada.
– Sabe – digo a Sawyer, com malícia –, se fosse você, tomaria cuidado com o que faço com essa língua.
– Ah, é? – O olhar dele percorre meu corpo de cima a baixo descaradamente. – Onde seria o lugar perfeito para ela?
– Sério? – Meu estômago se revira com tanta força que quase dói, como partes de carro raspando uma contra a outra. Ainda estou segurando quatro pratos sujos. – Cale a boca. – É tudo em que consigo pensar.
Sawyer sorri.
– Por que sempre me manda calar a boca? – pergunta Sawyer com simpatia.
– Por que você sempre merece? – rebato, e sigo para deixar os pratos no cesto. Volto um minuto depois e o encontro inclinado sobre o bar, as duas cervejas esperando.
– Por que escolheu Hannah? – pergunta Sawyer, como se estivesse retomando o fio de uma conversa anterior, como se estivéssemos conversando como velhos amigos durante toda a tarde.
– Hã? – Tiro as garrafas do bar. – Escolhi Hannah para o quê?
Agora é a vez de Sawyer revirar os olhos.
– Sabe o que estou perguntando. O que significa?
– Graça de Deus.
Ele assente em aprovação, pensativo.
– Boa escolha.
– Eu tinha um livro.
– Eficiente – diz Sawyer, então: – E quanto ao seu?
– Serena? – Dou de ombros e entrego as cervejas, então volto, mas não deveria. – Exatamente como soa. Recebi o nome errado.
– Nada – diz Sawyer, sacudindo a cabeça. Ele ainda está inclinado sobre o bar, a cabeça de cabelos castanhos próxima como se ele acreditasse que eu fosse contar algum segredo. – Já procurou meu nome?
– Não – respondo, então, porque aquilo parece magoá-lo (e, sinceramente, que conversa era aquela?). Franzo o cenho. – Tudo bem, pode parar?
Sawyer franze a testa também.
– Parar com o quê? – pergunta ele, como se não soubesse de verdade.
– O que está fazendo – digo. Sinto-me tão estupidamente perto do limite ali, parece que qualquer coisa pode me descontrolar. Por algum motivo, um papo fútil é pior do que a pior das brigas. – De perguntar sobre nomes. De ser meu coleguinha.
– Estou sendo civilizado.
– Bem – digo a ele –, não seja.
Sawyer ri com deboche.
– Isso é muito maduro.
– Você, por acaso, tem sentimentos?
Ele me encara.
– Se tenho o quê?
– Sentimentos – repito; talvez não estivesse falando alto o bastante. – Tem algum? Ou aconteceu algum acidente genético?
Por um momento, Sawyer fica boquiaberto, sacudindo a cabeça levemente.
– Tudo bem – diz ele, por fim, e abre o tampo de madeira, indo até a frente do bar. Ele segura meu braço, sem carinho. – Chega.
– O que está fazendo? – sussurro quando Sawyer me puxa pelo corredor dos fundos, além do escritório e da cozinha. Ele abre a tranca da porta do pátio e a empurra. – Me solte – digo a ele. – Está chovendo.
– Sem sacanagem. É a Flórida. – Sawyer se vira para me encarar depois que saímos, meio cobertos pela marquise sobre a porta. O ar está quente e abafado, meu ombro direito fica molhado. – Sabe, isso é clássico – diz ele, como se não conseguisse mesmo acreditar que ainda estamos tendo esta conversa depois de tanto tempo. – Isso é ótimo.
– O que é? – pergunto, fingindo-me de burra. Não quero fazer aquilo. Não agora.
– Você, logo você, me perguntando se tenho sentimentos. – Ele esfrega os olhos com o osso dos pulsos. – Sabe, sempre achei que fosse bobagem quando as pessoas diziam que você era a rainha do gelo, como se, talvez, só não conhecessem você muito bem, mas sinceramente, a esta altura...
– Você não tem tanta certeza? – Passo por ele. – Bem, não posso dizer que não avisei. – Empurro Sawyer e me dirijo à porta, terminei aqui, terminei com ele, mas Sawyer pega meu braço de novo.
– Reena – diz Sawyer em tom afiado. – Pode parar?
Sacudo a cabeça.
– Olha, desculpe – digo a Sawyer, tentando me afastar do jeito mais claro que consigo, como se fosse possível com ele. – Ontem à noite, tudo aquilo, só estou...
– Não peça desculpas – ordena ele. – Olha, eu não... só não quero que seja mais um modo de nos afastarmos, está bem?
Ah, por favor.
– Nos afastarmos? – Olho para ele, desconfiada. – Eu estava bem aqui.
– Eu sei – concorda Sawyer. – E agora não confia nem um pouco em mim, eu sei disso também. Foi bastante clara. – Sawyer se aproxima de minha orelha. – Mas acho que está feliz por ter acontecido daquele jeito.
Dou um riso de deboche.
– Ah, é, foi incrível.
– Estou falando sério – diz Sawyer, e percebo pela voz dele que está mesmo. – Acho que secretamente você amou porque isso lhe dá uma desculpa para se fechar para todos e não dar a ninguém a chance de mexer com você. – Sawyer se aproxima, nós dois ainda sob a marquise do pátio, aquele lugar que conhecemos a vida toda. – Mas a verdade é que não me deixou mexer com você desde o início. Nunca me deixou ir tão fundo. E agora pode me manter a distância e dizer a si mesma que mereço, e talvez eu mereça, mas isso é uma pena, porque não é o bastante desta vez. – Sawyer me encosta contra a parede externa do restaurante, sem me deixar espaço, como se quisesse ter certeza de que eu sei que ele não vai embora. – Você me entendeu, Reena? Quero mais do que isso.
Sacudo a cabeça de novo, desejando não precisar ouvi-lo.
– Shelby nunca vai me perdoar. – É o que sai.
– Porcaria, Reena – diz ele com a voz mais alta; ah, estou deixando Sawyer irritado. – Pode, por favor, me deixar entrar por um segundo?
– Sério? – indago. Sinto-me um pouco maior, meus ombros se expandem. – Deixar você entrar? O tempo todo em que estivemos juntos, tentei fazê-lo falar comigo.
Aquilo chama a atenção de Sawyer.
– Sobre o quê? – pergunta ele, parecendo genuinamente curioso.
– Sobre tudo! – digo a ele. – Sobre nossa família, sobre seus amigos, sobre Allie...
– Dei a Allie a chave do carro dela.
– O quê? – É tão repentino que acho que ouvi errado, e, quando olho para o rosto de Sawyer, vejo que ele se surpreendeu. Por um segundo, apenas nos encaramos, recalibrando a conversa, mas depois ele respira fundo e prossegue.
– Na noite em que ela morreu. – Parece que é fisicamente doloroso para Sawyer dizer aquilo, como se as palavras tivessem gosto de cascalho ou osso. – Eu estava com a chave dela. E deixei que ela pegasse.
Eu não... parece que Sawyer fala mandarim.
– Mas nós estávamos juntos na noite em que ela morreu – digo, ainda sem entender. – Na sorveteria.
– Antes disso. – Sawyer exala, passa as mãos pelos cabelos. De repente, o rumo daquela conversa mudou por completo; agora era sobre muito mais do que apenas nós dois. – Antes de eu ir para o restaurante. Estávamos em uma festa com umas pessoas. Lauren e todas elas. Não fomos juntos de carro, mas ela me deu a chave porque não quis levar bolsa. Allie tinha aquela bolsa enorme idiota, sabe? – Sawyer dá de ombros e segue para o outro lado do pátio; embora ainda esteja chovendo, troca o porto seguro da marquise pelo escorrega no fundo do pátio. Depois de um minuto, sigo-o.
– Ficamos lá por, tipo, uma hora – diz ele, oscilando um pouco o corpo, mexendo, como por reflexo, na costura da calça de trabalho. – Talvez uma hora e meia. E começamos a discutir.
– Tudo bem – falei, baixinho. Eu me sento ao lado de Sawyer no escorrega, como fizemos na noite logo após o funeral de Allie. Facilita, de alguma forma, não precisar encará-lo. Consigo ouvir os ruídos do restaurante exatamente como da última vez que fizemos aquilo, a mesma sensação submersa de que o mundo externo não tem nada a ver comigo e com ele. – Estou acompanhando até agora.
Sawyer assente.
– Ela disse que ia embora – continua ele depois de um minuto. Meu coração está acelerado dentro do peito. – Ela gritou para que eu devolvesse a chave, e não estava... não estava bêbada, sabe? Não estava caindo. Mas tinha tomado umas duas cervejas e havia aquela expressão nos olhos dela, e... – Sawyer se interrompe de súbito e dá de ombros, indefeso. Ele parece dez anos mais velho. – Eu nunca, jamais, deveria tê-la deixado ir. Mas deixei. Joguei a chave para Allie e disse a ela que desse o fora, se era assim que se sentia em relação às coisas, e eu...
– ... e você foi para o restaurante e me encontrou.
Sawyer assente como se todo o fôlego tivesse saído de dentro dele. A chuva escorre pela minha nuca.
– Então – diz ele por fim, olhando para o outro lado do pátio; Dê o fora, foi o que Sawyer disse a ela, e ela deu. – Agora você sabe.
Agora eu sei.
Por um bom tempo, nenhum de nós diz nada; a chuva cai sobre o concreto. Penso em Sawyer levando esse segredo pelo país. Penso em Allie morrendo sem nunca ter vivido. Choro um tempo, sentada ali, no escorrega, me lembrando da fita roxa que não usei nas semanas seguintes ao acidente, como se nenhum pedaço bonito de gorgorão pudesse se fechar sobre o que quer que eu tivesse perdido. O braço de Sawyer é quente e úmido contra o meu.
– Por que brigaram? – pergunto a Sawyer enfim.
– Por sua causa. – Assim, sem nenhuma hesitação: ele ergue a cabeça para me olhar, a expressão irônica, triste e sincera. – Estávamos brigando por causa de você.
– De mim? – Meu estômago vai parar em algum lugar perto dos sapatos. Não acredito que essa era a verdade durante todo o tempo em que estivemos juntos. Não acredito que ele não me contou antes. – Por quê?
– Ela disse que você estava apaixonada por mim.
Ouço um ruído, um soluço engasgado baixinho, e levo um minuto para perceber que sai de minha boca.
– O quê? – Consigo dizer. – Ela disse... o quê?
Sawyer dá de ombros.
– Você me ouviu – murmura ele, uma casualidade simples no tom que não deixa dúvida em minha mente de que Sawyer diz a verdade. – Ela disse que você estava apaixonada por mim, embora jamais fosse admitir, e que era apaixonada há muito tempo, e ela achava... – Ele sacode a cabeça. – Ela achava que eu também amava você.
– O quê? – pergunto de novo, repetindo isso como um disco riscado. Minha primeira reação é de vergonha completamente irracional em nome da Serena de quinze anos, embora, com nossa filha grande o bastante para andar e falar, provavelmente seja tarde demais para me sentir humilhada pela ideia de que Sawyer saiba que eu tinha uma queda por ele na época. Mesmo assim, saber que Allie me delatou assim, usou meus sentimentos mais íntimos como algum tipo de moeda emocional deturpada em uma discussão bêbada com o namorado... dói. Pela centésima milésima vez, desejo que ela não tivesse batido o carro e desaparecido para sempre, mesmo que fosse apenas para que eu pudesse dizer a ela que aquilo foi cruel.
Por outro lado, eu também a traí. Penso na primeira vez que Sawyer me beijou, no capô do jipe, do lado de fora da sorveteria, na última noite da vida de Allie. Não há limite para as formas como conseguimos decepcionar uma à outra como melhores amigas, Allie e eu. Isso faz com que eu me sinta absurdamente triste.
– Se faz alguma diferença, não acho que ela pretendia magoar você – diz Sawyer agora, observando meu rosto como se estivesse tentando ler hieróglifos gravados ali. – Acho que ela só estava... chateada. – Ele dá de ombros mais uma vez, sincero e arrependido. – E, de toda forma, não estava errada.
Eu o encaro. Hesito.
– O que quer dizer...?
– Está brincando? – Sawyer me olha como se eu fosse louca, como se ainda estivéssemos em margens completamente diferentes do rio. – Por que acha que fui atrás de você naquela noite, Reena? Para ver se era verdade. Eu deixei minha namorada bêbada com a chave do carro dela e fui atrás de você, entende isso? Por que diabo eu teria feito aquilo se não me importasse se era ou não verdade?
– Ã-hã. – Sacudo a cabeça com teimosia, recusando-me a acreditar naquilo. – Você jamais prestou um pingo de atenção em mim antes...
– Não, você jamais prestou um pingo de atenção! – A voz de Sawyer se eleva. – Estava muito preocupada dando um jeito para que eu jamais soubesse como se sentia em relação a mim, para não se sentir envergonhada ou vulnerável ou o que fosse... – Ele para e sai do escorrega. Então se vira e me encara. – Bem, adivinhe, Reena? Eu jamais soube como você se sentia em relação a mim. – Sawyer mexe levemente os ombros elegantes, que mal se movem. É a coisa mais triste que já o vi fazer. – Então, acho que venceu.
Nós nos olhamos por um momento, a chuva ainda ciciando sem parar ao redor e meu coração batendo rápido como asas de mariposa, tão pequeno e sussurrante em meu peito. Sei que só depende de mim aqui, que Sawyer me contou a pior e mais sincera coisa em que consegue pensar. Lembro-me da briga que tive com Allie na noite da festa: Você quer vencer esta briga, Reena? Nem mesmo parece que venci coisa alguma.
– Significa serrador – digo a ele, limpando chuva ou lágrimas do rosto com o dorso da mão fria e encharcada. Não sei por que de repente parece que faz diferença.
Sawyer se sobressalta fisicamente ao ouvir minha voz. Ele me olha e hesita.
– Hã? – pergunta ele.
– Seu nome – consigo dizer depois de um momento. – Aquele que serra.
Não era o que ele estava esperando; o modo como o corpo dele se curva torna isso indubitavelmente claro. Mesmo assim, Sawyer consegue sorrir.
– Faz sentido, acho. – É tudo o que me diz. E oferece a mão para me levantar.