Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 27 de 53

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Duas Vezes Amor

Capítulo 27

Depois

Tem uma feira em Las Olas aonde gosto de levar a bebê nos fins de semana, para comprar sacolas cheias e pesadas de limões amarelos baratos e observar os aposentados animadinhos. Compro um biscoito de chocolate para Hannah na barraca de orgânicos, e ela descansa feliz no carrinho enquanto escolho alecrim para Soledad, abacates para papai. Compro onze laranjas do tipo kumquat porque gosto da aparência delas.

Aaron tem vindo conosco nos últimos tempos – é fanático por um pão de Nutella que é basicamente apenas bolo, chocolate e avelã com calda de laranja com açúcar – e esta manhã ele nos encontra perto da fonte, como sempre, tênis da moda e a largura imponente do corpo, com uma das mãos no meu bolso de trás enquanto andamos. Aaron é a única pessoa no mundo que me faz sentir realmente baixinha.

Mas ele está quieto hoje, meio deprimido. Anda com a testa franzida sob o boné.

– Qual é o problema? – pergunto por fim, esticando o braço para pegar a limonada de lima dele, roçando o ombro no peito sólido de Aaron. Ele tem cheiro de roupa limpa e um toque cítrico, como o sabonete no banheiro de sua casa; há uma covinha minúscula em seu queixo onde meu polegar se encaixa quase perfeitamente. – Você está estranho.

Aaron dá de ombros, desinteressado. Estou esperando um não, não estou ou um não se preocupe com isso, o tipo de adivinhe em que estou pensando com o qual estou acostumada quando se trata dos homens da minha vida. Mas, em vez disso, ele se senta em um banco perto dos sabonetes e das velas de cera de abelha e passa a mão pelo cabelo cor de areia.

– Posso fazer uma pergunta, sem você se descontrolar? – pergunta Aaron.

Meu corpo inteiro logo fica alerta, esticando-se como o de um furão – mas como ele poderia saber?

– Sim, claro – respondo. Penso em mim e Cade quando crianças, nos fazendo de bobos assim. Puxo o carrinho para perto a fim de que possa ver o rosto da bebê. – É claro.

– Foi para a casa de Sawyer depois de sair da minha casa na outra noite?

Hum.

– Você me seguiu? – É a primeira coisa que me vem à mente, de zero a completamente assustada em dois segundos e meio. O sol bate em meu pescoço. Há, tipo, seis emoções diferentes acontecendo no momento, sem dúvida: culpa e essa indignação esquisita, raiva de Sawyer e de mim mesma. Mais que tudo, tenho medo de ter destruído isso. Aaron me olha como se fosse louca.

– Não – diz ele de imediato. – Cruzes. Encontrei Lorraine no trabalho, e ela mencionou que a viu lá. Não sei. Só estou perguntando...

– Lorraine me seguiu?

– Reena, ninguém seguiu você! – Aaron parece um pouco irritado. – Acalme-se por um segundo. Ela mora por lá. Perto dos LeGrande, acho. Ela os conhece, por isso comentou comigo.

Eu... ah.

– Só isso? – pergunto.

Aaron franze a testa.

– Tem mais alguma coisa?

– Não – respondo depressa. – Não, definitivamente não. – Ele não sabe. Estou agindo como louca. – Estou agindo como louca – digo a Aaron, encarando a calçada entre os pés. – Desculpe. – Esfrego a ponta do rabo de cavalo por um segundo, tentando entender como agir em relação àquilo. Sei que às vezes sou reservada. Não é uma qualidade de que gosto em mim mesma, mas de maneira alguma posso contar toda a verdade a Aaron. O que aconteceu com Sawyer foi um erro idiota, uma recaída que só aconteceu uma vez. Nunca vai se repetir. – Desculpe. Sim, vi Sawyer aquela noite.

– Você viu? – diz Aaron, e, nossa, o rosto dele, sinto-me terrível, sinto-me a pior pessoa no mundo. Ele parece irritado, sim, mas, mais do que isso, parece magoado. – Sério?

– Ele é o pai de Hannah, Aaron. – Estou sendo deliberadamente dissimulada, como se, de alguma forma, Sawyer fosse apenas isso, alguém que eu conheci há muito tempo, uma nota de rodapé em minha vida. Não é justo fazer isso, eu sei, mas é que... a última coisa que quero é estragar tudo com Aaron. – É claro que vou vê-lo agora que voltou. Ele quer participar da vida da bebê, e só precisamos... entender como isso vai ficar, acho.

Pego a mão de Aaron, passo o polegar pelos calos nas pontas dos dedos dele – há uma cicatriz na parte carnuda da palma de sua mão, longa e fina, de um machucado que sofreu em um pedaço de metal pontiagudo de uma escuna que ele ajudou a restaurar em Nova Hampshire. Às vezes, imagino o que teria acontecido se Aaron tivesse ficado em Broward para o ensino médio – se eu teria reparado nele então, no sorriso irônico e nas manchas âmbar nos olhos castanhos, ou se teria sido burra e distraída demais para ver.

Ele dá de ombros agora, um indício de teimosia triste que jamais vi nele antes.

– Não, eu sei – diz Aaron, por fim. Ele olha para Hannah por um minuto, pega o biscoito encharcado e meio mastigado que ela estende para ele sem nenhuma hesitação. – Olhe, Reena – diz Aaron para mim. – Eu cresci com muita falsidade na vida, está bem? Não sou mais assim. Gosto muito de você. Quero que saiba que gosto muito de você. Mas se não estiver em um momento em que isso possa progredir... – Ele sacode a cabeça. – Acho que eu preferiria saber agora.

Sinto o rosto corar, uma vermelhidão quente e agradável que começa em meu peito e irradia para fora, o corpo inteiro se aquecendo de um modo que não tem nada a ver com a temperatura do ambiente. Coloco as mãos nos dois lados do rosto dele e dou um beijo em seus lábios.

– Gosto muito de você – digo a ele, as pontas dos dedos roçando os cabelos de sua nuca. – Foi só... não sei, um imprevisto ou algo assim. Mas não tem nada acontecendo entre mim e Sawyer, está bem? – Engulo a culpa e a incerteza, sorrio quando Aaron estende a mão para colocar uma mecha de cabelo atrás da minha orelha. – Eu diria se tivesse.

Depois de um momento, Aaron me dá um meio sorriso, relutante. Uma bandinha começa a tocar no fim da rua. Por fim, Aaron estende a mão e voltamos pelo mercado: multidões e laranjas, o estado ensolarado.

No início do verão, Shelby e eu marcamos de fazer ioga depois de minha aula de artes nas quintas-feiras de manhã. Porém, durante três semanas seguidas, uma de nós ou ambas nos atrasamos tanto que não pudemos entrar. Então, agora, marcamos de tomar café da manhã no restaurante grego do outro lado da rua da academia de ioga, e para esse encontro chegamos sempre, misteriosamente, na hora.

Ela chega antes de mim hoje, senta-se a nossa mesa de sempre, com dois cafés gelados diante de si, e empurra o mais escuro na minha direção quando me sento.

– Cuidado – diz ela baixinho, os cabelos ruivos caindo como uma cortina de teatro no rosto. – Marjorie está de mau humor.

– Bom saber. – Marjorie é a garçonete extremamente alta e magra que trabalha neste turno do Monte Olimpo. Metade do tempo ela fica animadíssima ao nos ver, na outra metade nos odeia, e não existe jeito de prever isso. Essa instabilidade acrescenta um verdadeiro elemento surpresa à omelete Ocidental. Assinto depressa, estendo a mão para o cardápio. – Vou escolher rápido.

– Acho melhor. – Shelby coloca mais creme no café, toma um gole para experimentar e franze o nariz coberto de sardas. – Então, o que aprendeu na escola hoje, querida? – pergunta ela depois que peço, muito educadamente, dois ovos fritos dos dois lados. – Tem algum dever de casa para eu assinar?

Sorrio.

– Você pode me fazer um ditado com algumas palavras para eu treinar a grafia. – Foi Shelby quem me convenceu a me inscrever em Broward, logo depois de Hannah nascer. Ela estava preocupada, provavelmente com razão, que eu jamais visse alguém da minha idade de novo se não fosse obrigada a comparecer a algum lugar em que faziam chamada. – Idiota.

Tomamos café e tentamos, sem sucesso, fazer Marjorie sorrir. Planejamos levar a bebê à praia. Shelby está namorando agora uma menina chamada Cara, de Boston, estudante de comunicação política com enormes óculos de estilo hipster, e estou bem curiosa a respeito da garota, que, de acordo com Shelby, talvez venha no final do verão.

– Vocês vão gostar uma da outra – promete ela, embora eu secretamente não consiga imaginar que a deprimente mãe adolescente amiga de Shelby seja uma das pessoas que essa garota precisa conhecer. Mesmo assim, Shelby parece tão feliz; estou ansiosa para conhecer o motivo de tanta felicidade.

– Então – diz Shelby enquanto termino a torrada, e, apenas pela mudança quase imperceptível no tom de voz dela, já tenho a sensação pesarosa de que sei que rumo aquilo vai tomar. – Você e Sawyer.

– Eu e Sawyer o quê? – digo, e sai um pouco mais defensivo do que pretendo. Respiro fundo, engulo o que estava mastigando. – Aaron contou alguma coisa?

– Se meu irmão falou comigo sobre os problemas com a namorada? – Shelby ri com deboche. – Não. – Ela estende a mão e rouba as últimas batatas fritas abandonadas em meu prato. – Ele também meio que não precisa. – Ela dá de ombros, como se dissesse o que se pode fazer? – Coisa de gêmeos.

Assinto, mastigo devagar.

– Certo.

– Certo. – Shelby toma um gole demorado de café, então se recosta de novo e me encara do outro lado do tampo de fórmica rachado. Ela consegue fazer isso; sei por experiência própria. Shelby me vence na espera.

– O quê? – indago por fim, literalmente jogando as mãos para o alto. Meu garfo tilinta na mesa. Marjorie me lança um olhar detestável. – Não tem nada acontecendo com Sawyer. Acredite. Sawyer é um desastre. Ele e eu juntos somos um desastre.

– Mas? – incita Shelby, então repete mais três vezes: – Mas, mas, mas. – Ela sorri, como se estivesse tentando amenizar a pontada de dor. – Isso é de um poema, certo? Sinto que é de um poema.

Rio com deboche.

– Deve ser – digo a ela com tranquilidade, fazendo o melhor para conter a conversa. Sinto-me o pior tipo de traidora. Porque o que aconteceu com Sawyer, uma única vez ou não, é mais do que apenas sacanear Aaron. É cem vezes mais complicado do que isso: Shelby e a família dela só fizeram cuidar de mim. Minha família só fez cuidar de mim. E aqui estou, mentindo para todos como se estivesse no segundo ano do ensino médio de novo. Odeio isso. Não vou fazer isso. De jeito algum.

Shelby apenas dá de ombros.

– Olhe – diz ela para mim. – Não vou me sentar aqui e dizer a você que não tem nenhum tipo de risco emocional. Amo você, amo meu irmão idiota. É claro que quero que vocês sejam felizes juntos se puderem.

– Shelby – começo, e ela ergue a mão para me interromper.

– Mas se não puderem, e já vi esse filme, sei como as coisas são com você e com Sawyer. Então, contanto que não seja sacana em relação a isso, só quero dizer que vou tentar muito não ser sacana em relação a isso também. – Ela dá de ombros de novo, parecendo cansada da conversa. – Mas ele gosta de você. Aaron. Posso ver.

– Eu gosto dele – digo de imediato: um reflexo, como virar o rosto ao ouvir meu nome.

– Eu gosto dele pra caramba.

– Bem – replica ela. – Bom. – Shelby franze a testa e olha pelo restaurante em busca de Marjorie. – Acho que deveria ter pedido mais bacon – lamenta ela, e não tocamos mais no assunto depois disso.