Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 23 de 53

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Duas Vezes Amor

Capítulo 23

Depois

Passa das dez e meia, mas o ar ainda está muito úmido e pesado quando chego à casa dos pais de Sawyer. O peso atmosférico parece físico, algo que eu gostaria de arrancar de mim. Choveu umas duas horas atrás – chove todo santo dia, infinitamente –, e a grama está escorregadia sob meus pés.

Toco a campainha duas vezes e receio que ele não esteja – ou pior, que os pais dele estejam –, mas quando Sawyer enfim abre a porta percebo que a casa está silenciosa, exceto pelo murmúrio baixo do rádio em algum lugar. Sawyer está com óculos de armação escura apoiados no nariz.

– Quando você ficou cego? – pergunto.

– Sempre fui. – Sawyer dá de ombros como se nem estivesse surpreso em me ver. – Só não admitia.

– Ah. – Assinto uma vez, brevemente. – Ainda quer fazer o jantar para mim?

Isso o faz sorrir.

– Sim – responde Sawyer, e recua para me deixar passar. – Sim, definitivamente. Entre.

Eu o sigo pela sala de estar, para além do monte de retratos de família em preto e branco nas paredes da sala de jantar – o trabalho de Lydia está por todos os corredores. Quando eu era pequena, ela costumava me deixar tirar fotos com sua pesada 35 mm e me mostrava como revelar no quarto escuro que tinha montado no banheiro do primeiro andar. Lembro que me sentia nervosa com a possibilidade de errar perto dela mesmo naquela época, e minhas mãos tremiam quando eu tentava segurar a câmera, um rolo de filme inteiro com fotos embaçadas e sem foco.

Conheço a casa dos LeGrande quase tão bem quanto a minha: já me sentei para assistir a dezenas de Super Bowls no sofá de couro da sala ali, comi bolo na varanda em vários dias durante anos e anos. Sei onde eles guardam as colheres e as lixeiras de reciclagem e o papel higiênico sobressalente, todos os segredos e todos os cheiros.

– Gosta de risoto? – pergunta Sawyer.

– Hum. – Isto é... não é o que eu esperava quando ele disse jantar. Hesito. – Claro.

Sawyer acende a luz da cozinha. O cômodo fica claro como um hospital, cheio de azulejos verde-claros e o brilho de aparelhos de aço inoxidável.

– Então – diz ele, tirando uma panela do rack acima do balcão no centro da cozinha –, como está Aaron?

Rio com sarcasmo.

– Pode parar de dizer o nome dele assim?

– Como estou dizendo?

– Não sei. – A risada se transforma em uma gargalhada um pouco histérica. Sinto como se cada órgão de meu corpo tivesse se posicionado em algum lugar no fundo da minha garganta. – Como está dizendo.

– Não estou dizendo de modo nenhum. – Sawyer dá de ombros. – Aaron é um nome bíblico.

Subo no balcão.

– Aaron conserta barcos.

Sawyer balança a cabeça devagar, como se estivesse absorvendo essa informação. Parecia que havia um fichário antigo em sua cabeça e ele tinha acabado de catalogar Aaron na gaveta de merdas pelas quais não tem interesse, mas suspeita que precisa conviver com elas por enquanto.

– Ele é bom com a bebê?

– Eu não estaria com ele se não fosse – digo, presunçosa. – Podemos, por favor, não falar sobre Aaron?

Sawyer sorri como se dissesse como quiser.

– Sobre o que quer falar?

– Não sei – respondo. – O que quer que as pessoas normais falem. Beisebol.

– Quer falar sobre beisebol?

– Não. – Ergo as mãos e as deixo caírem de novo, inutilmente. – Na verdade, nem sei nada sobre beisebol.

– Nem eu. – Sawyer está picando uma cebola, rápido e experiente, como Finch nos ensinou quando éramos crianças. – Isso é estranho? – pergunta ele depois de jogar a cebola na panela, me olhando de esguelha. – Sua expressão está mostrando que você acha isso muito, muito estranho.

– Bem – digo, dando de ombros, mexendo nas cutículas em frangalhos. – É um pouco estranho.

– É – repete Sawyer. Então, após um segundo: – Ela manteve tudo igual. Tipo, meu quarto e tal.

– Quem? – pergunto. – Sua mãe? – Na verdade, não estou ouvindo de verdade, apenas observo Sawyer fritar o arroz, acrescentar uma concha de caldo. Obviamente, está à vontade fazendo aquilo, claro que já fez antes, mas ainda assim, é, de certa forma, pouco natural, como uma árvore começar a falar.

– Ã-hã. O quê? – pergunta Sawyer ao me ver encarando. – É assim que se faz risoto.

– Eu sei fazer risoto – digo a ele. Bato levemente com o salto do sapato nos armários. – Só estou surpresa por você saber também.

– Eu sei fazer muitas coisas que não costumava saber – responde ele, e definitivamente não estamos mais falando de jantar. O ar estala: elétrons demais, quase parece possível esticar o braço e pegá-los, senti-los zunindo dentro da mão. Viro o rosto.

– De toda forma – digo alto demais. – Sua mãe. Seu quarto. Acho que ela só... Não sei. Acho que sabia que você voltaria.

– Acho que sim.

– Ela sentiu sua falta.

– Mesmo? – pergunta Sawyer. Ele mexe o arroz mais uma vez antes de abandonar o fogão e, ai, Deus. Sawyer para de pé bem entre meus joelhos.

– É – digo devagar, os olhos baixos. As mãos de Sawyer estão apoiadas em minhas coxas. – Acho que sentiu um pouco. – Quando ergo o rosto para ele, estamos nos encarando como trabalhadores em um trem lotado na hora do rush, e preciso muito de meio segundo para... – Só – falo – espere um pouco.

– Reena... – começa Sawyer, mas interrompo.

– Pare. – Sacudo a cabeça. – Não... Só preciso... – E vou dizer pensar um minuto, mas em vez disso há um roçar súbito de lábios e rostos, línguas em contato como se cada amo você suprimido estivesse escondido naquela escuridão úmida. Eu poderia fingir surpresa, mas foi para isso que fui até lá, não? Era o que eu queria desde a manhã em que ele apareceu. Passo os braços ao redor do pescoço dele, segurando firme. Depois de um momento, ouço Sawyer dizer meu nome.