Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 40 de 53

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Duas Vezes Amor

Capítulo 40

Antes

Sawyer ir a festas sem mim era quase pior do que eu ir com ele. Às vezes, ele aparecia em minha garagem depois, piscando os faróis do jipe, esperando no escuro até eu descer para deixá-lo entrar. Eu mandava Sawyer se calar conforme subíamos as escadas, sempre com medo de que aquela fosse a noite em que meu pai nos flagraria. Tentava não pensar em onde ele estivera e o que fizera enquanto nos deitávamos em minha cama e conversávamos sobre todo tipo de coisa: música, nossas famílias, os diversos fatos científicos que Sawyer, na infância, havia aprendido lendo livros sobre o clima.

– Fale sobre tempestades de trovões – sussurrava eu, sonolenta. Tornados. Secas.

Talvez os problemas tivessem começado ali, quando acabaram os fenômenos meteorológicos sobre os quais perguntar a ele, ou talvez tivessem começado muito antes, antes mesmo da noite em que Sawyer apareceu na minha casa muito mais tarde do que o normal, suado e esquivo, eufórico e pálido.

– Você está bem? – perguntei depois de nos trancar dentro de meu quarto, nós dois escondidos do mundo que dormia.

Sawyer assentiu vagamente.

– Hum-hum.

– Tem certeza?

– Eu disse que sim, querida.

Ele sempre teve o sono intermitente e perturbado, mas naquela noite Sawyer se mexeu mais do que o normal, enroscando os cobertores, respirando com dificuldade. Passei a palma da mão pela coluna dele, tentando acalmá-lo, mas parecia que ele estava esperando que algo o atacasse. Como se quisesse se levantar e caçar.

– Quantos? – perguntei, por fim, na terceira vez que ele caiu no sono e acordou assustado um momento depois. Sawyer estava me deixando nervosa. Obviamente, as atividades extracurriculares dele pendiam para o ilegal, mas eu jamais o vira daquele jeito. Tentei me lembrar do que tinha lido sobre como era fácil sofrer uma overdose de comprimidos. – Sawyer. Ei. Quantos?

– O quê? – Ele parecia irritado. – Nada. Estou bem.

– Sawyer...

– Reena. – A voz dele soou afiada. – Deixa pra lá, está bem?

Então por que veio?, eu queria indagar. Em vez disso, desisti, rolando para o lado a fim de encarar a parede.

– Claro – falei, deprimida. Tinha uma prova de cálculo de manhã. Estava mais cansada do que queria admitir. – Bem, tente não morrer, está bem?

Aquilo chamou a atenção dele.

– Ei – disse Sawyer, se aproximando, pressionando o corpo contra minhas costas, enterrando o rosto em meus cabelos. – Ei. Estou bem, certo? Desculpe. Não vou morrer. Fui burro hoje à noite. Não farei de novo.

Não respondi. Não entendia o que havia com Sawyer: não conseguia entender como ele podia me deixar tão feliz e tão triste ao mesmo tempo. Mas deixei que ele me abraçasse mesmo assim, nossas pulsações em um ritmo coordenado, nossa respiração enfim se acalmando. Meus olhos estavam fechados há alguns minutos quando ele disse as palavras:

– Amo você – murmurou Sawyer, tão baixo quanto uma oração sussurrada em meu pescoço.

– Hum? – Eu mesma estava quase dormindo, a visão embaçando; estava cem por cento certa de que tinha ouvido errado.

– Amo você. – Ele falou mais uma vez, agora com mais clareza, bem em meu ouvido, a respiração fazendo cócegas. Sentia-me como uma bomba de hidrogênio. Tentei ficar imóvel, mas sabia que Sawyer conseguia sentir meu corpo inteiro se enrijecendo, um corredor pronto para começar uma corrida...

Preparar...

Fogo.

Abri a boca, fechei de novo.

Ai, Deus.

Eu o amava, sim, esse era o problema. Eu amava Sawyer desde o sexto ano, quando Allie e eu começamos a fazer uma lista dos lugares nos quais o víamos. Eu amava as mãos de músico dele, ágeis e cheias de calos, e a alma sincera que Sawyer mantinha escondida, a salvo de toda bravata, e eu amava como, todo dia, aprendia alguma coisa sobre ele. Eu amava o lado boboca, pateta e secreto dele, e o modo como olhava para meu rosto. Eu amava tanto Sawyer LeGrande que às vezes não conseguia calar a imensidão daquilo, mas, quando abria a boca para contar a ele, nada saía.

Eu poderia fazer qualquer coisa por Sawyer, percebi de súbito. Poderia dar a ele qualquer coisa. Mas não aquilo. Se dissesse aquilo a ele, sabia que jamais poderia pegar de volta.

– Vá dormir agora – sussurrei, e Sawyer não repetiu as palavras.