Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 48 de 53

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Duas Vezes Amor

Capítulo 48

Antes

Fiquei sentada no chão do banheiro de Shelby por um tempão, a testa encostada na beira da banheira, sem falar. A porcelana estava fria e lisa contra minha pele. Shelby apoiou as costas na porta, de pernas cruzadas e paciente, passando a ponta da caixa de papelão sob a unha. Eu conseguia ouvir a mãe de Shelby se movendo pela cozinha, fazendo jantar e cantando com o rádio, o som da vida em movimento.

Eu estava grávida.

Eu.

– Meu Deus, Shelby – sussurrei por fim, apoiando as mãos na banheira e erguendo o rosto. Quando levantei a cabeça, ela pareceu pesada o bastante para se soltar de meu pescoço por completo. Desejei que um pântano me engolisse. Desejei minha mãe. – O que vou fazer?

Precisava contar a Soledad.

Precisava contar a meu pai.

Precisava contar...

Ah, Deus.

Joguei água no rosto e dirigi para o sul, pela 95, para Sawyer e a casa de estuque aos pedaços. A noite caía, as palmeiras eram silhuetas cinzentas e graciosas contra o céu que escurecia. Corri. Corri muito, na verdade, e também estava chorando de novo e, ao virar à esquerda na Powerline Road I, estive a centímetros de bater em uma picape amarelo-canário e quase me matar.

Eu quase me matei e matei meu filho.

A buzina estridente sumiu, longínqua, e encostei assim que pude, as duas mãos tremendo ao volante. Pensei em Allie e em escapar por pouco, imaginei por que as coisas acontecem do jeito que acontecem. Eu sentia falta dela mais do que nunca, se é que era possível. Minha respiração vinha em soluços engasgados e insanos.

– Parabéns, cara – falei de repente, conversando com ela como se estivesse sentada no banco do carona ao meu lado, os pés para o alto do painel e cantando com o rádio, a cabeça para trás, para rir alto e forte. Eu nunca tinha feito aquilo antes, não em todos os meses desde que Allie morrera. – Você estava certa. Eu não conseguiria lidar. Não consigo lidar, e... teria sido ótimo se você tivesse ficado por aqui para me ajudar.

Carros passavam zunindo pela avenida. Allie não respondeu.

Por fim, me recompus o suficiente para dirigir o restante do caminho até a casa de Sawyer, deslizando em silêncio ao longo do meio-fio do outro lado da rua. Desliguei o motor e saí, os chinelos afundando na grama seca e espinhosa. Os restos de duas garrafas de cerveja quebradas estavam espalhados na calçada, verdes e afiados.

Encarei por um bom tempo a casa baixa e extensa. Parecia pior do que eu me lembrava, coberturas de alumínio sujas sobre as janelas e uma mancha esquisita de ferrugem surgindo no exterior, perto da porta. Um cone de trânsito laranja aleatório estava caído no jardim. Antes eu achava que fosse algum clubinho exótico, romanticamente aos pedaços. Agora só parecia destruída.

As janelas estavam escuras, mas o jipe de Sawyer estava na entrada da garagem, e eu me convencia a atravessar a rua e tocar a campainha quando a porta da frente se abriu e lá estava ele: cabisbaixo e felino, irritado e triste. Eu mal reconheci o rosto de Sawyer. Ele havia emagrecido assustadoramente, percebi. Não tinha reparado nisso antes. Os ombros despontavam, esquisitos, sob a camiseta, como fibra de vidro ou granito.

Na verdade, pensei, enquanto estava de pé ali: era estranho, mas pareciam asas.

Sawyer não me viu. Ele não estava olhando. Segurava uma mochila, algum acessório velho e ridículo de acampamento que eu sabia que era do pai dele porque meu pai também tinha um. Eles os tinham comprado juntos quando eram adolescentes, na época em que costumavam fazer coisas como acampar.

Sawyer cruzou o gramado, jogou a mochila no banco de trás do jipe e passou para o banco do motorista. Eu fiquei de pé ali e o observei, estupefata. Não sabia aonde ele ia. Não sabia quanto tempo ficaria fora. Esperei enquanto o motor ligava, alto e revoltado – Reena ao fundo, observando, como sempre. As lanternas traseiras brilhavam como duas brasas vermelhas.

Espere, quase gritei, mas não gritei, e aquele seria meu fardo. Em vez disso, fiquei de pé no acostamento e observei Sawyer desaparecer, as luzes sumindo a distância como se eu acordasse de um sonho.

Fiquei ali um bom tempo, os pés enraizados à calçada, e em minha mente, a quietude começou a fazer um sentido doentio. Eu não iria a lugar algum, percebi, entorpecida – nem faculdade, nem Chicago, nem na direção do pôr do sol para ver o mundo. Era o fim. Sawyer tinha partido – partido, partido, eu já sabia, do modo como sabemos que temos fome ou que está prestes a chover – e eu teria de ficar em Broward. Eu teria de fazer aquilo – o que quer que aquilo fosse – sozinha.

Eu estava chorando de novo, silenciosa e burra, bem ali no meio-fio como uma grandessíssima tola. Todo aquele planejamento cuidadoso, todos aqueles mapas e revistas, aquelas noites em que sonhei acordada até dormir. Os lugares que exploraria, as histórias que escreveria quando chegasse lá – e para quê? Baixei o rosto para a calçada encharcada e rachada, senti os limites da vida se fecharem ao meu redor. O ar estava pesado e opressivo, empurrando a superfície de minha pele.

Por fim, depois de muito tempo, me recompus, enxuguei os olhos e esfreguei as palmas das mãos contra a calça jeans. Respirei fundo e me dirigi ao único destino que fazia sentido naquela bifurcação.

Entrei no carro e segui para casa.