Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 19 de 53

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Duas Vezes Amor

Capítulo 19

Depois

Tenho uma prova para fazer sobre “O romance americano moderno”, uma aula para a qual eu fiquei um pouco animada quando vi no catálogo de cursos da Faculdade de Broward no semestre passado, o que só mostra o quanto estou delirando. Por algum motivo, estava imaginando conversas animadas e sofisticadas sobre os grandes escritores das últimas gerações; em vez disso, o curso foi dado por um professor de meia-idade gorducho que é mais entediado do que entediante; ele nos olha com leve pena através de óculos de coruja e periodicamente passa testes de múltipla escolha que tenho quase certeza de que tira da internet.

– Vocês são minha penitência por uma vida desperdiçada – anunciou o professor no primeiro dia de aula, antes de adotar The Things They Carried, dois livros de John Updike e basicamente lavar as mãos por completo em relação à turma. Gosto de imaginar que um dia desses poderei entrar em uma sala de aula na Broward sem pensar na sra. Bowen e em como ela ficaria desapontada, mas, para ser sincera, isso ainda não aconteceu.

Esta manhã, estaciono o carro e sigo pelo corredor gelado até a sala de aula, passo pelo quadro de avisos com flyers dos jogos internos de futebol americano com bandeira, aquele em que não se derruba o adversário, e com os anúncios de happy hour de dois por um em um bar próximo ao campus. Como sempre, não tenho quase nada em comum com meus colegas de turma, mas acho que, a esta altura, a culpa é mais minha do que deles. Saí para tomar café algumas vezes com algumas garotas da turma de contabilidade, mas a maior parte de meu tempo na faculdade não foi a fartura social que Shelby esperava que seria. Basicamente, parece muito com o ensino médio, mas sem aula de educação física.

Sento-me em uma das longas mesas e marco os quadrados apropriados com lápis número dois, depois entrego a prova na frente da sala, onde o bom e velho professor Orrin lê o Atlantic no celular. Ele assente para mim distraído antes de voltar a atenção para a tela. Desço correndo as escadas para o estacionamento, cruzo o asfalto reluzente em que meu carro espera. Há mais do que ficção em minha mente hoje.

A antiga casa de Allie está vazia há séculos: os pais dela se mudaram para Tampa pouco depois do acidente, e os novos donos perderam a hipoteca em um ano. Ela fica ali, na curva acentuada da rua sem saída, vazia e com uma aparência vagamente assombrada, esperando pelo que virá em seguida.

Allie está enterrada no Forest Lawn, mas nunca fui muito de cemitérios, e, de qualquer forma, quem quer que esteja sob aquela lápide – amado anjo, doce garota – não é a Allie que conheci. E talvez a garota com quem briguei tantas noites antes, à luz impiedosa do pátio, não fosse a Allie que conheci também, mas às vezes ainda a encontro ali, no velho quintal. Passo por ali para procurar de vez em quando, no verão ou se me sinto sozinha ou com medo.

Mas nesta tarde – meia semana desde nossa ida ao parquinho, quem sabe quanto tempo desde que papai me olhou nos olhos – não sou a única andando pela antiga propriedade dos Ballard. O jipe enferrujado de Sawyer está estacionado na garagem, inconfundível. Sacudo a cabeça, incrédula, como se alguma corda invisível nos tivesse mantido juntos durante todo o tempo que ele estava fora e agora estivesse encurtando, um nó cego preso em meu pulso.

– Você está invadindo, sabia? – grito, andando pela vastidão confusa de grama seca e marrom, o amado jardim do pai de Allie que cresceu e ficou cheio de ervas daninhas. Não pela primeira vez, me ocorre que as coisas mudam, esteja você por perto para notar ou não.

– Eu sei – diz Sawyer. – O que você está fazendo aqui?

– O que eu estou fazendo aqui? – Sento no balanço ao lado dele, exatamente como ficamos há tantas noites, do lado de fora da festa, a borracha queimando a parte de trás de minhas coxas. – O que você está fazendo aqui?

Sawyer dá de ombros.

– Eu estava por perto. Não sei. Sinto como se nunca tivesse... – Ele para de falar, fica em silêncio, um dos tênis com o bico apontado para o chão. – Penso nela às vezes, sabe?

– É – digo a ele, o que é muito diferente do que quero dizer. – Eu sei.

– Pensei muito nela quando estava fora. – Sawyer ergue a cabeça e me olha; um desafio. – Pensei em você também.

Ignoro a última parte, sacudindo um pouco a cabeça ao olhar pelo quintal, para o pátio vazio, as janelas escuras cobertas de poeira. Cresci neste jardim – Allie e eu dormíamos ali fora todo verão, nós duas, em uma tenda infantil, com uma lanterna de camping Coleman e um rádio, ouvindo o Top 40. No primeiro ano do ensino fundamental, caí daquele trepa-trepa e fraturei os dois pulsos.

– Ela estaria na faculdade – digo a Sawyer. – Se não tivesse... se tivesse vivido. Nós duas estaríamos, talvez.

Sawyer assente devagar.

– Talvez – concorda ele, semicerrando os olhos muito de leve, como se tentasse entender por quanto daquilo o culpo. Não sei se é mais ou menos do que ele pensa.

– Ela ia estudar em Barnard – continuo. Parece que encontrei minha voz para dizer essas coisas depois de tanto tempo. – Eu iria para Nova York depois da faculdade, e nós moraríamos em algum apartamento chique perto do Central Park e andaríamos bem-vestidas. Allie sempre dizia isso quando éramos mais novas, que andaríamos bem-vestidas. – Olho para meu short para a camisa larga do Red Sox, de debrum colorido, que Shelby trouxe para mim da faculdade. – Como pode ver, levei essa vontade ao pé da letra.

Sawyer sorri.

– Se faz alguma diferença – diz ele, as sobrancelhas escuras se arqueando –, acho que você parece artística.

Sawyer toca meu tornozelo com cuidado. Depois de um momento, toco o dele em resposta.