Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 2 de 53

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Duas Vezes Amor

Capítulo 2

Antes

– Gin – disse Allie, triunfante, jogando a última carta na minha colcha de retalhos e erguendo o queixo pontudo vitoriosamente. – Você já era.

– Ai. Sério? – Voltei a me recostar nos travesseiros e apoiei os pés no colo dela. Tínhamos passado a maior parte da tarde vidradas em uma versão ridiculamente complicada de um jogo de buraco, com um leque de regras próprias rígidas e complexas que jamais conseguimos explicar para mais ninguém, o que não importava, na verdade, pois só jogávamos uma contra a outra. – Desisto.

– Não pode desistir se já perdeu – disse ela, estendendo a mão até minha cômoda para escolher uma música no meu laptop. O pop alegrinho de que Allie mais gostava saiu pelos alto-falantes. – A essa altura é apenas... ceder.

Gargalhei e a chutei de leve.

– Mala.

– É você.

– É sua mãe.

Passamos um tempo num silêncio confortável e familiar. Allie remexia distraída em uma franja na bainha de meu jeans. Na parede havia um pôster da Ponte dos Suspiros em Veneza, outro de Paris ao anoitecer – ambos salpicados de manchas gordurosas nos cantos, da coisa pegajosa que usei para colocá-los e tirá-los do lugar até que estivessem perfeitos. Era a primavera de nosso último ano antes do ensino médio, quase verão; o mundo parecia infinito e impossivelmente pequeno.

– Ei, meninas? – Minha madrasta, Soledad, surgiu à porta, os cabelos escuros presos em coque no alto da cabeça. – Roger e Lyd chegarão a qualquer minuto – disse ela para mim. – Podem descer e arrumar a mesa? Allie, querida – continuou Soledad, sem se incomodar em esperar minha resposta; eu diria que sim, óbvio. Eu sempre fazia isso. – Quer ficar para o jantar?

Allie franziu a testa, olhando para o despertador na minha mesa de cabeceira.

– Eu preciso ir para casa – respondeu ela, suspirando. Allie tinha sido pega furtando de novo algumas semanas antes; óculos escuros de plástico e uma echarpe de seda da Gap dessa vez, e os pais dela estavam mantendo as rédeas curtas. – Mas obrigada.

– Tudo bem. – Soledad sorriu e deu dois tapinhas na porta antes de se virar, e o metal delicado de sua aliança bateu na pintura. – Coloque um prato a mais, Serena, por favor – gritou Soledad, olhando para trás. – Sawyer também vem esta noite, eu acho.

Imediatamente, Allie e eu nos olhamos, os olhos arregalados.

– Posso ficar – anunciou Allie depressa, levantando-se como um suricato. – Vou ligar para minha... hã. É. Com certeza posso ficar.

Gargalhei tanto que quase caí da cama, pensando, mesmo enquanto tentava me recompor, que precisaria passar maquiagem.

– Você é tão descarada – falei, ficando de pé no carpete e indo em direção ao corredor de modo casual, como se meu coração não estivesse saltando no peito. – Vamos, nerd. Pode dobrar os guardanapos.

Vinte minutos depois, Lydia LeGrande entrou na cozinha como uma tempestade tropical, cheia de confiança e colares volumosos, beijando minha bochecha rapidamente.

– Como você está, Reena? – perguntou ela, sem esperar por uma resposta antes de apoiar uma bandeja de queijos caros no balcão para tirar o plástico de cima. Roger a seguiu com uma garrafa de vinho, movendo o corpo consideravelmente grande com destreza surpreendente, e apoiou a mão nas minhas costas para dizer oi.

– Oiê, garotinha – disse ele.

Os LeGrande eram os amigos mais próximos de meu pai e Soledad, sócios no restaurante onde todos trabalhávamos e parceiros nas férias em Keys e nos shows no Holiday Park. As partidas de Outburst deles eram escandalosas e lendárias. Lydia fizera faculdade com minha mãe. Ela e Roger haviam apresentado meus pais, e, na época que minha mãe morreu de complicações da esclerose múltipla quando eu tinha quatro anos e meu pai estava ocupado demais sentindo ódio de Deus para pensar em coisas como almoços e meias limpas, foi Lydia quem contratou Soledad para morar conosco, sem perceber, na época, que havia encontrado uma segunda esposa para meu pai, exatamente como havia encontrado a primeira. Pouco depois de uma década, eles ainda apareciam bastante para jantar, mas sem o filho, na maior parte das vezes.

Naquela noite, no entanto, a sorte estava ao meu lado ou as luas de algum planeta distante estavam alinhadas, porque, como queríamos, Sawyer entrou cabisbaixo atrás deles, de jeans e camiseta e com os cabelos castanhos ondulados. Em seu pescoço estava o minúsculo pendente de meia-lua que ele sempre usava, oxidado e fino.

– Você – disse-lhe meu pai, como um cumprimento, ao voltar do quintal, onde estava acendendo a churrasqueira. Allie e eu ainda estávamos arrumando a mesa; ela segurava um punhado de garfos. – Tenho um disco que quero que ouça. Um disco de verdade. Herbie Hancock. Venha comigo.

– Meu filho está de mau humor – murmurou Roger em tom de aviso, mas Sawyer apenas deu um beijo em Soledad e assentiu para meu pai, seguindo-o até a sala de estar, onde ficava o enorme aparelho de som. Sawyer era afilhado de meu pai, crescera passeando pelos corredores cheios de nossa casa; meu pai tinha ensinado Sawyer a tocar piano mais de uma década antes.

– Oi, Reena – disse Sawyer, distraído, assentindo para mim ao passar, próximo o bastante para que eu sentisse seu cheiro de sabonete e algo levemente morno. Eu tinha visto Sawyer no trabalho alguns dias antes. Ele não aparecia para jantar havia quase um ano.

Engoli em seco, o coração acelerado contra o tórax como pedrinhas contra uma janela.

– Oi.

Sawyer estava dois anos a nossa frente na escola, no segundo ano do ensino médio, embora parecesse bem mais velho – mais perto da idade de meu irmão, Cade, do que da minha. Ele sempre tinha sido assim, desde que eu me lembrava, como se já tivesse vivido mil vidas diferentes. Sawyer ficava no bar no restaurante, aparecia na escola quando queria e me ignorava na maior parte do tempo: não de um jeito malicioso, mas como se ignora a mensagem na lateral de um prédio que se vê todo dia. Eu era parte do cenário, me misturava, tão familiar a ponto de ser completamente invisível a olho nu.

Diferente de Allie. Allie era difícil de ignorar.

– Oi, Sawyer – disse ela, os cabelos cacheados saltando quando Allie virou a linda cabeça. Ela mudara de roupa, pegara emprestada uma de minhas regatas, preta, simples, com listras fininhas, nada muito arrumado. Os ombros de Allie eram cheios de sardas do sol. – Há quanto tempo.

Sawyer parou e olhou para ela com algum interesse. Roger fora com Soledad até o pátio àquela altura, meu pai tinha desaparecido na sala. Lydia estava à vontade na cozinha, como sempre, vasculhando as gavetas de talheres em busca de facas que combinassem com os queijos. Allie apenas sorria.

Eu observava com atenção. Os dois se conheciam, é claro, das diversas festas da minha família – aniversários e formaturas, dos corredores da escola. Mas não eram amigos, nem de longe, e por isso fiquei tão surpresa quando Sawyer sorriu de volta, lenta e confortavelmente.

– É mesmo – disse Sawyer a Allie, erguendo o queixo na direção dela. – Quanto tempo.