Duas Vezes Amor
Capítulo 39
Depois
Não estou dormindo quando o telefone toca no meio da noite – apenas deitada na cama, preocupada com papai, pensamentos como um trem desgovernado e disparado, implacável, em meu cérebro. Impulsiono o corpo sobre o colchão para atender.
– O quê? – digo imediatamente, a voz em pânico e esganiçada, exigente. – O quê? O quê? Diga.
– Reena – diz Soledad baixinho, e acho que nunca senti tanto medo na vida nesta terra de meu Deus. – Reena. Está tudo bem.
Está tudo bem.
Ele está bem, diz ela tranquilamente. Papai sobreviveu à cirurgia, está em estado crítico, mas respira sozinho. Por enquanto, não há nada a fazer a não ser deixá-lo descansar.
– Amo você – diz Soledad antes de desligar; as articulações de minha mão estão pálidas e suadas em torno do fone, e apoio o queixo no joelho no escuro. – Não importa o que aconteça, querida, seu pai a ama também.
Desligo. Choro um pouco. Sento em silêncio no meio do colchão, como se fosse uma ilha no meio do oceano.
Por fim, saio da cama.
Abro a porta e arquejo: ali está Sawyer, sentado no chão do corredor, a cabeça encostada contra a moldura da porta e os cotovelos nos joelhos. Ele tirou a camisa de botão que usou no jantar – parece que faz dias desde que entrou em minha casa com Roger e Lydia, todo idiota e corajoso –, e a cruz no braço de Sawyer aparece por debaixo da manga da camiseta.
– Oi – diz ele, de súbito alerta. – Como está seu pai?
– Bem, acho. Soledad diz que está bem. – Eu me agacho para olhar nos olhos dele, a voz baixa para não acordarmos a bebê. – O que está fazendo?
Sawyer dá de ombros levemente, meio envergonhado.
– Vigiando.
– Para o caso de invasores entrarem?
– Basicamente, você. – Ele faz uma careta. – Desculpe. Foi uma coisa bem ridícula de se dizer. Não quero assustar você.
– Não está me assustando.
– Eu estou me assustando um pouco.
Dou de ombros.
– Meu pai está bem – digo a Sawyer. – Por enquanto, pelo menos.
Sawyer sorri.
– Era Soledad ao telefone?
Faço que sim com a cabeça. Não fico surpresa ao encontrá-lo ali fora, essa é a verdade – como se, de alguma forma, aquilo fosse inevitável, o curso natural das coisas. Talvez ele seja um pombo-correio. Talvez eu seja a base dele.
– Já pensou que este realmente não é o lugar para nós? – pergunta Sawyer.
Semicerro os olhos um pouco, sem ter total certeza do que ele quer dizer.
– Todo dia – respondo. – Mas, como falei antes, para onde vou?
– Você, não – diz Sawyer em tom urgente, como se eu não estivesse entendendo alguma coisa. – Nós.
– Nós?
– E se nós saíssemos daqui? – pergunta ele. – Quando seu pai estiver melhor, quero dizer. E se pegássemos a bebê e partíssemos?
Engulo o nó no coração de volta para o peito.
– Para onde? – pergunto.
Sawyer me encara e sorri, um sorriso grande e simples como um mapa do mundo.
– Todos os lugares – responde ele.
Todos os lugares.
– Sawyer. – Penso logo em todos os motivos por que é impossível, nos lugares em que jamais estive e em todas as coisas que ainda não fiz. Penso em uma estrada se estendendo pelo país e nas noites que passei sozinha e, quando vejo que Sawyer ainda está esperando uma resposta, dou a única que faz sentido. – Por que você não vem dormir onde deveria?
Uma linha vertical surge entre as sobrancelhas dele; os olhos de Sawyer adquirem uma cor esmeralda profunda, pedras preciosas no escuro.
– Tem certeza? – pergunta ele depois de um minuto, e sua voz sai mais baixa do que eu jamais ouvi. – Não diga se não tiver certeza.
– Ã-hã. – Fico surpresa com o equilíbrio em minha voz. Os dedos de Sawyer se abrem e se fecham; pego um dos punhos dele e forço para que ele abra a mão, coloco a minha mão lá dentro. – Tenho certeza.
Puxo Sawyer para que ele fique de pé e entre no quarto. Do lado de fora, pela janela aberta, consigo ouvir a chuva começando a cair. O calor nunca passa aqui, não de verdade. Eu me deito levemente nos lençóis.
Sawyer murmura um ruído baixo em minha têmpora. Sob os cabelos macios e raspados dele, a curva do crânio parece familiar e estranha. Passo os braços ao redor do pescoço de Sawyer para evitar que minhas articulações desmontem, e nós nos abraçamos como se fosse o último dia, até que, de repente, Sawyer fica completamente parado.
– Diga que me ama – ordena ele baixinho. Não está se movendo nem um pouco.
– Hum? – digo, na direção do ombro de Sawyer. Olho para cima. Ele está equilibrando o peso do corpo nos antebraços e consigo ver as sardas no rosto dele enquanto paira em cima de mim. – O quê?
– Diga que me ama – repete Sawyer, e no relance sombrio de seus olhos verdes, vejo que aquilo é muito importante para ele, algum tipo de promessa que fez a si mesmo. Ele não quer que eu o obrigue a fazer aquilo sem dizer as palavras. – Reena. – Sawyer está quase implorando. – Diga que me ama.
Não faça isso comigo, é o que quero dizer a ele. Não pode. Não posso. Quando Sawyer foi embora, segurei aquele amo você bem forte na palma da mão suada, enfiado dentro da camisa como um talismã. Amo você. A única coisa que ele me deu que não devolvi multiplicado por dez. A única coisa que guardei para mim.
– Sawyer – digo, passando o polegar pela sobrancelha dele, tentando enrolar. – Por favor.
Ele me encara.
– Diga.
Se eu disser e o perder de novo, isso pode me matar. Se eu não disser, posso perdê-lo bem ali. Meu coração salta dentro do peito.
– Não consigo – sussurro, por fim, e me sinto a maior covarde. – Desculpe.
Ele fecha os olhos por um segundo, e fico tensa como se estivesse esperando por um golpe, ou que ele role para longe de mim, vista o jeans e saia dali de vez. Mas então:
– Tudo bem – diz Sawyer com um suspiro longo e silencioso. Consigo sentir as costelas dele se expandirem e se contraírem contra meu peito. – Tudo bem.
– Podemos parar se quiser – digo estupidamente. – Entendo se quiser parar.
Sawyer sorri para mim, um sorriso breve que some.
– Não quero parar.
Então continuamos.
É estranho e familiar, de partir o coração, fazer aquilo com ele depois de tantas outras coisas terem acontecido: de uma só vez, me lembro de centenas de coisas diferentes que me obriguei a esquecer, as falhas reveladoras na respiração dele e a cicatriz no centro do peito. A parte de trás do joelho de Sawyer está quente quando encaixo o pé ali. Ele me olha todo o tempo.
Quando acaba, ficamos deitados de lado, olhando um para o outro pelo que parecem dias, luz cinzenta e o som do vento nas palmeiras do lado de fora da janela. Sinto o peso do olhar de Sawyer como algo físico, uma película de suor cobre minha pele. Por fim, não consigo mais segurar; só respirar é difícil.
– Seattle – digo.
Sawyer ergue uma sobrancelha.
– Seattle?
– Penso que todos os lugares devem começar em Seattle.
– Então é Seattle – diz ele como se fosse uma certeza, e, depois disso, caímos no sono.