Duas Vezes Amor
Capítulo 14
Antes
Fui picada por uma vespa na manhã do velório de Allie. Aconteceu três dias chuvosos e úmidos depois de ela amassar o lindo carrinho contra uma árvore a três quarteirões da casa dos pais, deixando este mundo para o próximo em um ato espetacular de estupidez teatral tão típico de Allie que, de algum modo louco e perverso, me fez sentir ainda mais falta dela do que eu já sentia.
Allie estava bêbada, foi a notícia que se espalhou pela escola na semana em que aconteceu, o nível de álcool em seu sangue estava um décimo acima do limite legal para um adulto no estado da Flórida, mas Allie tinha só dezesseis anos. Psicólogos especializados em luto ficaram de plantão no escritório. Assistimos a uma palestra obrigatória sobre os perigos de dirigir embriagado; os alunos prenderam fitas roxas às alças das mochilas. Aparentemente, Lauren Werner foi interrogada pela polícia.
Era quarta-feira, estava chovendo. Eu queria chorar.
Um inchaço vermelho, inflamado, do tamanho de uma noz atrás do meu joelho parecia um bom motivo para me recolher naquele dia, e fiquei acampada na cama desde a hora em que chegamos da igreja até Soledad bater à minha porta logo antes da confusão do jantar.
– Basta, amiga – disse ela, acendendo a luz e enchendo o quarto com um amarelo tépido. – Você precisa se levantar.
– Estou dormindo – murmurei com o rosto afundado no travesseiro, embora não estivesse. Passei a tarde escondida sob a colcha e bem desperta, seguindo a linha serpenteante de uma rachadura no teto de gesso e esperando pelos passos dela na escada. Meu joelho coçava e latejava. Eu cocei até sangrar.
– Cade disse que você está na escala de hoje do restaurante.
– Cade é um mentiroso imundo.
Ouvi papai parar à porta, a cadência lenta das passadas pesadas dele. O ar-condicionado soprava e murmurava, asmático.
– Deixe ela em paz, Sol. Posso chamar alguém para cobrir.
– Leo... – começou Soledad, pronta para brigar com meu pai. Acho que eu a estava assustando.
– Não se preocupe com isso – falei, tirando a colcha de cima de mim. – Vou me levantar.
– Tem certeza? – Meu pai não estava convencido. Imaginei se ele estava pensando em minha mãe, em flores fúnebres, lápides e vidas que acabavam precocemente. Imaginei o que teria acontecido se eu perguntasse. Quase nunca falávamos sobre minha mãe.
– Claro – menti, erguendo o corpo do colchão. – Encontro você no carro em dez
minutos.
– Ele está preocupado com você – disse Soledad quando meu pai saiu. Ela abriu meu armário e pegou minha calça preta de trabalho. O cabelo longo e preto dela descia pelas costas.
Sentei com as pernas para fora da cama e dei de ombros.
– Você não?
– Estou esperando que você fale comigo, Reena. Mas se não quiser fazer isso...
– Preciso me vestir – interrompi – se você quiser que eu vá trabalhar.
– Cuidado com o tom de voz, por favor. – Soledad atirou a calça na minha direção, além de uma blusa branca que, sinceramente, já tinha sido mais bonita. Ela me perguntou três vezes o que aconteceu na noite do acidente, onde eu estava, por que tinha mentido e o que estava fazendo com Sawyer, para início de conversa. Ela achou que eu estava escondendo a verdade de propósito, uma coisa de adolescente revoltada, ou que talvez eu mesma estivesse na festa e soubesse de algo que não contei. Eu não poderia dizer a ela que a verdade era um milhão de vezes pior. – Mas tudo bem, como quiser. É melhor passar um pouco de blush antes de ir.
Franzi a testa.
– Muito obrigada.
– Passa das cinco horas, querida. Estou tentando acelerar as coisas. Coloque algo nessa perna também, ou vai ficar coçando a noite toda.
O restaurante estava lotado; o calor úmido do verão na Flórida vencia o ar-condicionado industrial, suor se acumulava nas dobras dos meus cotovelos. Sawyer não estava atrás do bar movimentado.
– Oiê, garotinha – cumprimentou-me o pai dele, tirando copos de cerveja da lava-louças e organizando-os em pilhas altas ao lado das torneiras da bebida. Roger era alto e robusto, de sorriso e temperamento fáceis. Ele abriu a entrada do balcão, veio em minha direção e me abraçou pelos ombros. – Está segurando as pontas?
Assenti e me desvencilhei o mais educadamente que consegui. Não queria muito ser tocada.
– Estou bem – falei, a mentira era um carro de fuga. Só queria que ninguém falasse comigo no futuro próximo, queria me encolher e desaparecer.
A noite voou. Entreguei pedido após pedido de bagre frito na farinha de milho de Finch e dirigi sorrisos vazios para dezenas de fregueses, perdendo-me no meio dos murmúrios e tilintares de garfos e pratos e do compasso um-dois constante da banda ao lado do bar. Tinha conseguido limpar quase todos os pensamentos perdidos na mente quando dobrei uma esquina, esbarrei em uma das garçonetes do bar e derrubei uma bandeja cheia no piso de ladrilho.
Foram apenas uns dois pratos, louça quebrada da qual os ajudantes dariam conta em menos de um minuto, mas foi o bastante para acabar de vez comigo. Corri pela passagem na direção do pátio, abaixei-me para desviar de um assistente de bar e me esgueirei para ultrapassar a fila para o banheiro feminino. Meu coração parecia uma corda vibrando dentro do peito. Por que achou que conseguiria fazer isso?, me perguntei, desesperada, ao passar correndo por um dos cozinheiros de bobeira durante um intervalo. Não está dando certo.
– O que não está dando certo? – Esse foi Cade, aparecendo atrás de mim, com a glória de esportista estrela do futebol americano, puxando meu braço. Não percebi que tinha falado alto, e estava fervilhando sob o olhar de irmão mais velho dele. Eu não queria mesmo, de jeito nenhum, falar.
– Está quente demais aqui – murmurei, ultrapassando Cade. – O pátio está aberto?
– Está chovendo – disse Cade, mas recuou. Acho que ele também estava com medo de mim.
– Está sempre chovendo. Vou ficar bem.
Deixei Cade para trás e abri as portas duplas de vidro. O pátio amplo dos fundos era silencioso como um santuário, deserto devido à chuva, que, como percebi ao ser banhada por ela, não era chuva, mas o tipo de garoa sorrateira que você nem mesmo sente até ver que está ensopado. Flores asclepiadáceas se enroscavam na cerca de ferro retorcido; luzes brancas piscavam nas palmeiras. Respirei fundo algumas vezes e meu coração quase desacelerou até eu sentir que não estava sozinha.
– Ah! – gritei ao vê-lo, sentado com a cabeça baixa e os cotovelos sobre os joelhos no escorrega gigante, no fundo do pátio. Foi um reflexo, apenas o susto. Parei tão rápido que quase tropecei.
Sawyer ergueu o rosto com o mínimo interesse, olhou para mim como se não soubesse quem eu era. Eu o vi naquela manhã, no velório, e a expressão vazia dele me intrigou, me fez tentar imaginar se havia vida naquele corpo. Mesmo de perto, eu não tinha como saber.
– Desculpe – falei, quase olhando para trás, quando me virei para fugir daquele lugar para sempre ou, provavelmente, apenas naquela noite. Não nos falávamos desde o escândalo no hospital. Não podia nem sequer imaginar como começaríamos a falar. – Eu não... ninguém me disse que você estava aqui. Desculpe.
– Não – respondeu Sawyer, não completamente amigável. – Não tem problema. Fique.
Parei e olhei para ele. Sawyer ainda estava com as roupas daquela manhã, a gravata cinza frouxa no pescoço, os sapatos do velório brilhando como ônix. Na igreja, ele permaneceu olhando para a frente.
– Não acho... eu deveria mesmo...
– É sério. – Sawyer me olhou de esguelha. – Não fique tão assustada, Serena. Não vou machucar você.
Nossa, não era disso que eu tinha medo, nem de longe: o que me assustava era eu ser uma pessoa capaz de ainda sentir as coisas que sentia por ele depois de tudo o que havia acontecido. O que me assustava era que minha melhor amiga tinha morrido. Sawyer era a única pessoa no mundo que talvez conseguisse entender isso, a única pessoa que sabia o que tínhamos feito, e, por um segundo, quase contei tudo a ele: por que Allie e eu tínhamos deixado de ser amigas, como eu o queria há tanto tempo que nem mesmo me lembrava de como era não o querer. No fim, fui covarde e falei:
– Não estou assustada – menti, sacudindo a cabeça como se a mera ideia fosse ridícula.
Sawyer riu com deboche, um ruído baixo e animalesco. Deu um passo para o lado e abriu caminho.
– Prove – disse ele.
– Eu... Certo. – Irritada, pasma e despreparada, atravessei a extensão do pátio entre nós e me apoiei com cuidado na beira do escorrega. Ele cheirava levemente a sabonete e suor, e o ar era mais quente perto dele, como se seu corpo emanasse mais calor do que o normal. – Aqui estou.
– Aqui está. – Ele estava segurando uma garrafa verde meio vazia e passou o polegar ao redor do gargalo uma vez, oferecendo para mim sem me encarar. – Está trabalhando?
– É. – Aceitei a garrafa de Sawyer, fechei as mãos ao redor do vidro gelado e esperei que ele não notasse se eu não bebesse de verdade. – Bem, mais ou menos. – Senti uma opressão no peito: uma mariposa contra uma janela, batendo as asas desesperadamente. – Acabei de quebrar um monte de pratos.
Sawyer ergueu as sobrancelhas.
– De propósito? – perguntou ele.
– Não.
– Não – repetiu ele, olhando para mim, por fim, com um sorriso breve e lânguido que eu tinha visto centenas de vezes antes na década e meia em que vivi perto dele. – Acho que não.
Sawyer suspirou. Esperei. Ficamos sentados imóveis num silêncio sepulcral e ouvimos as vespas entoando suas elegias no alto das folhas acima de nossas cabeças.