Duas Vezes Amor
Capítulo 12
Antes
Sawyer não disse uma palavra no caminho da sorveteria até o hospital, silencioso e tão imóvel quanto a noite. Um abismo se abrira dentro de meu peito. O CD no rádio ainda girava, um antigo de Louis Armstrong que Sawyer devia ter conseguido com meu pai, e estiquei a mão para desligar.
– É grave, não é? – perguntei.
Sawyer deu de ombros uma vez, os olhos no asfalto a sua frente.
– Não sei.
– Deve ser ruim, certo? Se ela já está em cirurgia e meu pai não... – Parei de falar, as palavras engolidas pela culpa, pela confusão e por aquele medo enorme e interminável. Cravei as unhas no assento do passageiro, desejando que o carro fosse mais rápido. – Deve ser grave.
– Eu disse que não sei, Reena – disse Sawyer, e fiquei em silêncio depois disso.
Entramos no estacionamento escuro do hospital e nos perdemos a caminho da emergência, nós dois vagando pelos corredores como João e Maria, mais velhos e em pânico.
– Por aqui – disse Sawyer, enfim, e o segui, embasbacada, por um corredor gélido e fluorescente, depois por duas portas, e chegamos ao caos.
Havia uma multidão na sala de espera, pequena, mas inquieta: os pais de Allie e de Sawyer, Lydia, com o cabelo desgrenhado preso em um coque desalinhado. Lauren Werner estava lá, chorando ruidosamente. E meu pai e Soledad, esperando com cautela, de alguma forma já desapontados, como carcaças ou cascas. Soledad estava arrasada. Meu pai parecia velho.
Os dois se levantaram quando corri pela grande extensão do piso de linóleo, e vi os olhos de papai se semicerrarem em confusão: ao telefone, não cheguei a falar onde eu estava ou com quem; e agora ali estava Sawyer, logo atrás de mim, emanando medo e calor.
O namorado de Allie, pensei, pela centésima vez nos últimos quinze minutos. Eu estava com o namorado de Allie.
Mas ele não teve tempo de perguntar, porque a mãe de Allie me viu e se lançou para a frente, me agarrou tão forte que doeu. Senti as costelas roçarem umas nas outras dentro do peito.
– Ela morreu. – A sra. Ballard chorou. Era uma frase que eu jamais tinha ouvido antes e, se Deus permitir, uma frase que não quero ouvir de novo. – Reena, querida. Nossa garota se foi.
Pensei muito claramente: isso não está acontecendo.
Pensei muito claramente: isso é nossa culpa.
Fiquei de pé ali com a mãe de Allie por um tempo, deixei-a chorar no tecido maleável de minha saia. Não chorei. Não tive reação, para ser sincera; senti que estava congelada, bizarramente quieta, como se algo tivesse sido hermeticamente fechado dentro de mim. Ouvi uma ambulância gemer a distância, o chiado de uma porta se fechando. Por fim, o sr. Ballard puxou a mulher com carinho para longe de meus braços.
– Nós ainda não fizemos as pazes – falei para ele.
– Reena. – Era Soledad, aproximando-se, mas eu me afastei, fui para longe dela.
– Estou falando sério – disse, e minha voz estava mais alta desta vez. Era difícil entender o que estava acontecendo. – Não estávamos... nós estávamos...
Parei de falar quando Soledad me abraçou, fiquei de pé ali, os braços moles e em choque, enquanto ela sussurrava orações em espanhol em meu ouvido.
– Não estou brincando – falei para ela, a voz falhando. Senti as costelas começarem a se apertar. Olhei para a frente uma última vez e então não me lembro de mais nada, bem a tempo de ver as costas de Sawyer saindo pelas portas de correr.