Duas Vezes Amor
Capítulo 28
Antes
Numa tarde úmida de fim de fevereiro, dei uma passada no restaurante no meu tempo livre, às pressas – não ia trabalhar, mas deixei o livro de cálculo no escritório na noite anterior e queria ver se conseguiria pegá-lo antes de precisar voltar para a escola para uma reunião do jornal.
– Droga. – Foi a primeira coisa que ouvi. O restaurante estava deserto, a calmaria entre o almoço e o jantar, e a voz de Roger ecoava do escritório. – Por onde diabo você andou?
– Olhe, não vai acontecer de novo. – Era Sawyer. Ele estava ali. Congelei. Por onde tinha andado? Não o via há semanas, desde a noite que passamos juntos, mas imaginei que estivesse me evitando.
– Pode apostar que não vai. Não vamos fazer isso. Não quero policiais ligando para minha casa. Você não vai desaparecer durante semanas. Se quiser viver naquele chiqueiro, desperdiçar sua educação e destruir sua vida, é problema seu, mas não vou participar disso.
Polícia? O que diabo ele tinha feito? Pensei no comprimido que não era Advil no tênis de Sawyer na noite em que dormi com ele. Pensei na mão quebrada dele no ano anterior. Fiquei de pé ali como se tivesse sido atingida por um raio, as pontas dos dedos tracejando a borda de uma toalha de mesa, sentindo-me absoluta e cem por cento colada ao chão.
– Saia da minha frente, Sawyer. Não quero nem olhar para você.
Eu conseguia ouvir meu coração batendo, rápido e ansioso. Cheguei mais perto, de fininho, para ouvir.
– Pelo amor de Deus, pai – começou Sawyer, mas Roger o interrompeu, tinha terminado.
– Falei sério. E não ouse falar assim comigo.
– Tudo bem. – Ouvi Sawyer se levantar e corri para a porta da frente o mais rápido que consegui. Tentei ser bem silenciosa, mas a alça da minha mochila agarrou no encosto de uma cadeira e precisei parar para soltá-la. Minhas mãos tremiam enquanto a libertava.
– Ah – falou Sawyer quando se virou em um canto e me viu. Ele parecia irritado. – Oi.
– Não ouvi nada – respondi de imediato, então voltei atrás. – Quero dizer. Oi, eu, hã, esqueci o livro.
– No escritório – disse ele, esboçando um sorriso, que sumiu em um piscar de olhos. Sawyer não tinha feito a barba. – Sobre a mesa. Imaginei que fosse seu.
– É. Bem. – Comecei a passar por ele, mas Sawyer me segurou pelo pulso.
– Aonde vai?
– Pegar o livro – respondi, olhando para nossas mãos, então para o rosto dele, depois para as mãos de novo. Aquilo saiu mais arredio do que pretendi.
– Ãhã. – Sawyer deu um apertão, então soltou meu braço. – Parece um plano.
– É. Então. Vou entrar e... fazer isso.
Sawyer assentiu.
– Tudo bem.
Entrei no escritório, murmurei um cumprimento para Roger, peguei a porcaria do livro e disparei para fora. O jipe de Sawyer estava estacionado no meio-fio, e ele se recostara na porta do motorista, os braços e os tornozelos cruzados.
– Precisa de carona? – perguntou ele.
Engoli em seco.
– Não.
– Quer uma mesmo assim?
– Sawyer... – O vento soprava. Um carro passou correndo. – Tenho uma reunião.
Ele deu de ombros.
– Falte.
– Não.
– Por que não?
Está de brincadeira?, quase perguntei. Porque estou tentando tirar você da cabeça. Porque nem sempre gosto do modo como ajo quando estou com você. Porque transamos e você desapareceu da face da terra.
– Por que a polícia ligou para sua casa? – perguntei.
Sawyer sorriu.
– Achei que não tivesse ouvido nada.
– Menti.
– Entendo. Pegue uma carona comigo e contarei.
– É assim que jovens são mortas.
– Como?
– Entram no carro com garotos suspeitos.
Sawyer apenas ergueu uma sobrancelha.
– Uma caminhada, então?
Eu deveria ter respondido não. Deveria ter ido para minha reunião idiota. Deveria ter feito basicamente qualquer outra coisa em vez do que, de fato, acabei fazendo. Mas isso jamais havia me impedido quando se tratava de Sawyer, e, mesmo me lembrando do inferno desprezível que as últimas semanas tinham sido, assenti.
– Bem rápida – falei depois de um minuto. – Pelo quarteirão.
Sawyer assentiu uma vez, considerando.
– Pelo quarteirão – disse ele.
Partimos na direção da Grove Street, sob o sol claro de fevereiro – passamos por uma joalheria, pela lavanderia. Aquilo parecia um pouco ridículo. Por um tempo, nenhum de nós falou.
– Então, aqui estou – falei por fim. – Caminhando. O que a polícia queria?
Sawyer deu de ombros.
– Eu me meti em problemas em um bar. Bebi demais.
Revirei os olhos sem conseguir evitar.
– Acha que isso o torna mais interessante ou algo assim?
– Hum? – Aquilo chamou a atenção dele. – Como assim?
– Todo esse sofrimento que você demonstra. – Eu me sentia descontrolada. Ele já tinha me largado, eu não tinha nada a perder. – Quero dizer, sei que as garotas caem nessa. Eu caí nessa. Mas acha que torna você mais interessante? Quer saber? – Dei de ombros. – Não torna.
– Não. – Sawyer deu uma risadinha impossível de decifrar. – Acho que não.
– Posso perguntar outra coisa?
– Vá em frente – permitiu Sawyer. – Mande.
– Por que perdeu tempo comigo? – Eu me sentia reconfortada pelo ritmo de minhas botas na calçada; por algum motivo, encontrava coragem naquilo. – Sei lá, aquelas garotas... aquelas no seu show ou aquelas que vão ao restaurante. Sinto que provavelmente teriam... sinto que você provavelmente teria precisado de muito menos esforço com elas. Menos enrolação.
Sawyer parou de andar.
– Não quero nada com elas. Já falei.
– Certo. Você odeia pessoas do seu tipo.
– Reena, desculpe por não...
– Não importa – falei, interrompendo-o, mentindo. – Quero dizer, não estava mesmo esperando nada de você.
– Ai. – Sawyer exalou, passou a língua pelos dentes. – Você deveria falar com meu pai.
– Está vendo? É disso que estou falando. Pobrezinho. Quando, na verdade, é tudo mentira, e não sei por que deixei que me afetasse daquele jeito se vou embora em alguns meses, de qualquer forma, e provavelmente nunca voltarei, a não ser que seja Natal e eu precise que alguém me compre um casaco. Ou algo assim.
– Sei que você vai sair daqui, Reena. – Sawyer suspirou. – Não precisa usar a cartada da inteligência comigo, está bem? Sei o quanto é inteligente. Olhe – disse ele, segurando meu pulso de novo, puxando-me para um canto com força o suficiente para fazer minha mochila bater contra a parede. Meu coração estava aos pulos dentro do peito. – Fiquei um pouco arisco, está bem? Fico assim às vezes. Um pouco assustado. Mas não quero fazer isso com você. Não quero ficar com medo.
Bufei um pouco.
– Pare.
– Estou falando sério – disse ele, baixinho. Sawyer segurava meus dois pulsos, depois passou a segurar minhas mãos. – Sei que não tem motivo para acreditar em mim. Eu provavelmente não deveria acreditar em mim. Provavelmente pensaria que é tudo mentira. Mas eu gosto de você.
Sacudi a cabeça com teimosia.
– Certo.
– Eu gosto. Gosto da sua inteligência. – Sawyer sorriu. – E gosto do resto também, se não se importa que eu diga.
Em algum lugar da minha mente, um piloto em um pequeno avião fazia o que podia para evitar uma queda violenta, gritando socorro sem que ninguém ouvisse.
– Pare com isso – consegui dizer, mas àquela altura eu não estava enganando nenhum de nós. – Não estou brincando.
– Nem eu.
– Você jamais teria dito outra palavra para mim se eu não tivesse...
– Você está errada – interrompeu Sawyer. – Eu teria levado algum tempo. Mas teria chegado lá.
– Duvido muito.
– Preciso provar que não.
Mudei de posição, hesitante. Uma guerra silenciosa era travada em meu peito.
– Estou falando sério sobre a faculdade – falei por fim, como se fosse algum tipo de comprometimento, uma rota de saída, um plano de contingência, um modo de proteger o coração. – Vou receber a resposta das universidades em breve. Não vou ficar muito tempo por aqui.
– Anotado. – Sawyer sorriu. – Mas quero ficar com você.
– Você sempre consegue o que quer? – comecei, mas só cheguei à metade do interrogatório, pois Sawyer inclinava o corpo para me beijar contra a lateral do prédio, as mãos quentes dos dois lados do meu rosto. E no calor emanado do corpo dele, de algum modo, minhas perguntas se evaporaram no ar úmido da Flórida.