Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 10 de 53

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Duas Vezes Amor

Capítulo 10

Antes

– Com quem? – Foi a primeira coisa que meu pai quis saber quando contei a ele que sairia depois do trabalho; uma pergunta bastante justa, considerando que tinha passado os últimos oito meses me encontrando, no máximo, com o entregador de pizza do Papa Gino’s. Ele estava conversando com o baterista da banda e cheirava a café e colônia, bem familiar; era um cheiro do qual eu achava que sentiria saudades quando saísse de casa.

– Allie – disparei sem saber que mentiria até ter mentido. – Com Allie.

Não sei por que não contei a ele. Não havia motivo para achar que papai diria que eu não poderia ir: Sawyer era o afilhado dele, afinal, herdeiro do talento musical de meu pai na prática, se não no sangue. Mesmo assim, ele teria perguntado os ondes e os porquês e os o que vocês vão fazer e milhares de outras coisas que eu nem conseguia imaginar. Por enquanto, parecia mais fácil não dizer.

– Allie – disse meu pai devagar, e passou o braço sobre meus ombros, parecendo um urso. – Eis um nome que não ouço há um tempo.

– Hã – falei. – É.

Meu pai deu de ombros, assentindo para um dos garçons para que servisse uma rodada de bebidas por conta da casa. Ele confiava em mim. Jamais tivera motivo para não confiar.

– Divirta-se – disse ele e roçou os lábios em minha testa, em um beijo distraído de despedida. – Volte para casa no horário.

– Sim – respondi. – É claro.

Encontrei Sawyer no corredor dos fundos, recostado na porta do escritório e verificando o celular, vagamente entediado.

– Você mentiu para seu pai a meu respeito? – perguntou ele, rindo um pouco.

– Sim – respondi.

O risinho virou um sorriso.

– É, tudo bem, então – disse Sawyer, perversamente encantado. – Contanto que eu saiba o que está rolando. Está pronta?

– Claro – falei, esperando com todas as forças que ele não conseguisse ver o quanto aquilo significava para mim, que apenas a ideia de estar sozinha com ele fazia meu estômago dar piruetas que causariam inveja em muitas ginastas.

Sawyer segurou a porta dos fundos e eu o segui pelo estacionamento até seu jipe velho. Ele não disse nada. Eu não sabia aonde iríamos, e àquela altura parecia um pouco tarde para perguntar: abri a boca, hesitei, fechei de novo. Sawyer não pareceu nada incomodado.

Olhei dentro do jipe o mais discretamente que consegui, iniciando uma lista na mente quando Sawyer acelerou. Chão do carro de Sawyer LeGrande, inventário completo: garrafa de Snapple vazia, sabor ice tea de pêssego; confere. CD Duke Ellington Live at Newport 1965, confere. Painel: óculos escuros, confere. Aromatizador em forma de árvore, ainda na embalagem; confere. CD com coletânea de músicas com a letra de Allie Ballard na etiqueta, confere.

Fechei os olhos por um segundo. Allie costumava gravar CDs para mim o tempo todo, músicas para meu aniversário, para o Natal, para a primavera e para as terças-feiras. O meu preferido se chamava O Mix do Mau Comportamento: sessenta minutos de um hip-hop ridículo encerrado pela música “A Groovy Kind of Love”, de Phil Collins, com o qual fui presenteada no primeiro baile do ensino médio. Acabamos voltando à minha casa às nove e meia naquela noite, fazendo brownies com Soledad e gritando com Kanye, curvando o corpo em risadas histéricas.

Eu não quis suspirar, sequer me ouvi fazer isso, mas devo ter feito, porque Sawyer olhou para mim ao virar na A1A, as feições delineadas pela luz vermelha das lâmpadas de neon no painel.

– Dia longo? – perguntou ele.

– É – respondi, deixando que Sawyer pensasse que era a monotonia do trabalho me deprimindo, e não o total desespero por estar no jipe com ele, vendo seus olhos brilharem centenas de milhares de adjetivos além do verde. – Um pouco.

Sawyer assentiu.

– Quer sorvete?

Hesitei.

– Sorvete? – repeti. Não sei o que estava esperando, mas... não era isso.

– Sim, princesa, sorvete. – Sawyer gargalhou ao entrar em um estacionamento, sem esperar por minha resposta. – O que achou que eu iria oferecer, cola para cheirar?

– Não! – respondi, embora, para ser sincera, tal convite talvez não me surpreendesse tanto. Soltei o cinto de segurança e saí do carro. – Não.

– Você acha que eu sou todo errado. – Sawyer encostou o ombro no meu enquanto atravessávamos o estacionamento, e o toque foi tão leve que pensei ter sido sem querer. – Tipo, muito mais valentão do que sou de verdade.

Sacudi a cabeça e virei o rosto.

– Não acho, não – prometi.

– Tudo bem – disse ele, parecendo achar que eu estava mentindo, mas sem se importar de verdade. – Se está dizendo...

Pedimos no balcão e vasculhei a bolsa em busca da carteira, puxando de dentro um molho de chaves e meu Lonely Planet para chegar ao fundo da bolsa. Sawyer empurrou minha mão.

– Eu pago – disse ele, entregando uma nota amassada de dez dólares para o caixa. Ele apontou o livro. – Planejando uma viagem?

– É – respondi. – Quero dizer, não. – De repente, pareceu tão estúpido aquele jogo que eu jogava comigo mesma, como amarelinha ou Barbie. – É para minha carta de admissão.

– Para a faculdade? – Sawyer ergueu as sobrancelhas e lambeu a base do meu cone de sorvete, que pingava, antes de entregá-lo para mim. Era uma loja antiquada, com painéis de vidro e enfeites nas paredes, uma caixa registradora antiga que se abria com um apito alto. Senti cheiro de açúcar e ar frio. – Já?

Assenti.

– Northwestern – contei a ele. – Vou me formar um ano mais cedo, então me inscreverei no outono.

Sawyer inclinou a cabeça para o lado.

– Isso é ambicioso.

– Sou ambiciosa.

– Eu sei – disse ele ao pegar o próprio sorvete e me levar de volta na direção da porta, segurando-a aberta com um dos pés para eu passar. – Então, sua carta é sobre isso? – perguntou ele ao atravessarmos o estacionamento na direção do carro, passando por uma multidão de jovens barulhentos e inquietos com mais ou menos nossa idade. – Viajar?

– É, mais ou menos. – Sacudi a cabeça, envergonhada. – É idiota.

– Duvido. – Tínhamos voltado para o jipe a essa altura. Sawyer subiu no capô para tomar o sorvete, inclinou a cabeça para o espaço vazio ao seu lado até que eu entendesse o recado e apoiasse os pés no para-choque junto com ele. – Conte.

– Hã, está bem. – Revirei os olhos um pouco, corando no escuro. – O curso no qual vou me inscrever é de não ficção criativa, sabe? Escrever sobre viagens. – As palavras pareceram duras e pouco familiares; aquilo não era algo que eu havia contado a muita gente além de Allie. – Então, vou escrever a carta como se fosse um guia de viagem, basicamente. Vá por aqui, faça isso, evite esse hotel nojento; mas, em vez de ser sobre um lugar em particular, é, na verdade, sobre, tipo, minha vida. – Dei de ombros de novo, envergonhada. – Ou, tipo, a vida que quero ter.

– Isso não é idiota. – Sawyer estava rindo. – É legal. Quero ler quando você terminar.

Ri com ironia.

– Sei.

– Estou falando sério – disse Sawyer, pensando. A camisa branca dele parecia brilhar na luz das fachadas das lojas. – Se formar mais cedo, hein? – perguntou ele depois de um momento. – Você está tão desesperada assim para sair daqui?

– Não – expliquei –, não é isso. Quero dizer, é claro que vou sentir saudade da minha família e de todo mundo. Amo minha família, eu só... – Dei de ombros. Não sabia como poderia explicar algo como solidão para alguém como Sawyer. A sensação de que precisava encontrar algo em que me agarrar e, independentemente do que fosse, não estava ali. – Não tem muito para mim aqui, sabe?

Sawyer deu um pequeno sorriso indecifrável.

– Então, é melhor eu andar com você enquanto posso, não é?

O que... o quê? O que estava acontecendo ali? Não fazia ideia do que ele queria.

– Basicamente. – Foi tudo o que eu disse.

Ficamos sentados em silêncio por um tempinho, observando os carros passarem pela estrada. Tomei o sorvete. Esperei.

– Você está quieta – disse Sawyer por fim.

Pensei nisso por um momento.

– Bem – respondi –, você também.

– Reena. – Estávamos próximos o bastante para que nossos braços se tocassem, quentes e levemente grudentos devido ao calor. – Por que está aqui?

Olhei para ele de esguelha. Meu coração parecia um tambor dentro do peito.

– Diga você.

Sawyer sacudiu a cabeça.

– Estou falando sério.

– Está mesmo?

– É – disse ele. – Estou mesmo.

– Sawyer. – Hesitei, corando. Eu tinha noventa por cento de certeza de que estava entendendo completamente errado o que quer que acontecia ali. – Olhe. Allie é minha amiga. Ou era minha amiga, pelo menos, e...

– Você não se cansa? – interrompeu ele.

Parei.

– De quê?

Sawyer deu de ombros.

– De ser quem todos pensam que é.

– O quê? Não. – Sacudi a cabeça, enrolando, e olhei para a estrada, para as lojas abertas e para as palmeiras. Senti cheiro de asfalto e escapamento de carros. – Quem mais eu poderia ser?

Sawyer parecia saber que eu estava fingindo; olhou para mim por um segundo de uma forma que quase me deixou nervosa, parecendo conseguir me ver por dentro. Lutando contra a sensação esquisita de que eu estava enfrentando muito, muito mais do que poderia aguentar, fiz o que qualquer ser humano racional faria ao ser confrontado com uma pergunta que não queria responder para uma pessoa pela qual tinha uma quedinha há dois mandatos presidenciais:

Enfiei o cone de sorvete bem na cara dele.

– Desculpe – falei de imediato, rindo com um pouco de histeria. – Minha nossa. Desculpe. Não acredito que acabei de fazer isso.

Sawyer me encarou por um segundo, com sorvete lambuzado pela boca e pelo nariz.

– Eu... meio que não acredito que você fez isso também – disse ele, mas estava rindo. Quando Sawyer apoiou a mão livre na minha nuca e me beijou, senti gosto de chocolate e confeitos coloridos. Nem mesmo fechei os olhos.

Ele se afastou um pouco.

– Tudo bem eu ter feito isso? – perguntou ele depois de um segundo ou dois.

Assenti, abestalhada.

– Gostou tanto quanto eu?

Assenti de novo.

– Vai voltar a falar comigo na vida?

Assenti.

– Quero dizer – falei, recuperando-me de leve, os pensamentos desgovernados como traças nos cantos desesperados da minha mente. – Sim.

Sawyer sorriu.

– Tudo bem – disse ele. Sawyer jogou o resto do sorvete em uma lixeira próxima e segurou meu rosto com as duas mãos. – Que bom.

Sawyer ainda estava me beijando quando o celular tocou dentro da calça jeans dele um minuto depois, e indiquei que me afastaria, mas ele segurou mais forte, um punho fechado com leveza em meus cabelos.

– Ignore. Ignore – murmurou Sawyer, e ignorei por um minuto, mas então o meu celular começou a tocar também.

– Sawyer – falei, e estiquei a mão para a bolsa mesmo com o restante do corpo ainda na ação. – Sawyer, é da minha casa. Preciso atender. Alô? – falei enquanto... ai, Deus, ai, inferno, estávamos no meio de um estacionamento e meu pai estava no telefone... Sawyer desceu a boca por meu pescoço. – Oi. O que foi?

– Reena – disse meu pai, e havia um tom na voz dele que eu nunca tinha ouvido, de pânico e ódio. – Ah, graças a Deus. Onde diabos você está?

Saltei do capô daquele jipe tão rápido que quase arranquei a cabeça de Sawyer, fechando os olhos com força, tentando pensar no que dizer: tinha mentido para meu pai pela primeira vez na vida toda e fui pega. Como isso era possível?

Eu ainda tentava pensar numa resposta quando ele insistiu:

– Está com Allie? – Meu pai exigiu saber.

Fechei a mão livre em punho, senti as unhas se enterrarem na palma da minha mão. Sawyer estava me observando com cautela. Busquei algo plausível, mas precisei me conformar com a verdade.

– Não – admiti. – Não estou.

– Graças a Deus – disse ele, então, para quem quer que estivesse no quarto com ele, Soledad ou Cade: – Ela está bem. Eu a encontrei.

– O quê? – falei, exasperada. De repente, senti muito, muito medo. – O que está acontecendo?

– Reena – disse ele, e eu soube que jamais esqueceria isso enquanto vivesse, as luzes de neon da sorveteria próxima, a expressão de curiosidade no rosto lindo de Sawyer LeGrande, e os minúsculos cacos de vidro incrustados no asfalto, como se algo frágil e brilhante tivesse acabado de explodir ali. – Tenho uma má notícia.