Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 53 de 53

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Duas Vezes Amor

Capítulo 53

Depois

Shelby traz uma garrafa de vinho e meio litro de sorvete na sexta-feira e sobe as escadas aos galopes, como um cavalo, para me ajudar a fazer as malas.

– Tem certeza de que não quer que eu vá com você? – pergunta ela de novo, dobrando pela segunda vez uma calça jeans e a enfiando na mala sobre minha cama. Vou levar poucas coisas. Hannah está sentada perto, brincando com o carneiro e o patinho. – Seremos como Thelma e Louise, mas sem o assassinato e a morte ousada.

Gargalho.

– Eu adoraria que você viesse – digo –, mas preciso que volte para a faculdade para ganhar muito dinheiro e me sustentar quando eu estiver velha e acabada.

– E manter o estilo de vida com o qual você se acostumou?

– Exatamente.

– Bem, já tenho minhas ordens, então. – Ela suspira. – Mas como vou sobreviver o resto do verão sem você... ainda precisa ser definido.

– Ah, pare – falo. – Nós nos encontraremos em Boston antes do que você pensa. E, até lá, você estará ocupada com Cara, a hipster que vai se formar em comunicação política.

Shelby faz uma careta para expressar que é justo.

– Verdade – admite ela, dando um sorriso secreto. – Eu pretendo me ocupar.

Vou perder a visita da namorada de Shelby por dois dias: partiremos amanhã, Hannah e eu, em uma viagem breve pelo país em meu carro velho aos pedaços. Parece fingimento, mas é muito sério desta vez: afinal, não se pode escrever sobre viagens sem jamais ter ido a lugar algum, e já chega de ficar sentada aqui esperando que minha verdadeira vida me encontre. Tenho um atlas gigante, uma dúzia de cadernos em branco e nenhum plano verdadeiro, exceto pegar minha menina e partir. Estou apavorada e animada.

Shelby se joga na cama, erguendo Hannah até a altura do peito e sorrindo.

– Oi, menininha – diz. Então, ela se volta para mim. – Está tudo bem agora? Com seu pai e Sol?

– Eu não diria isso exatamente. – Pego algumas regatas da cômoda e as jogo na cama. – Mas melhor. Eu me sinto melhor com isso. Bem o suficiente para ir.

– Graças a Deus. – Ela faz uma careta. – Estava na hora. É isso que me deixa louca em vocês, católicos. Torturam uns aos outros por coisas que acabaram durante o Sacro Império Romano. Forçam todo mundo a se punir, punir e punir, até o fim do mundo, amém. Me deixa louca.

Olho para ela.

– O que acabou de dizer?

– Eu disse que me deixa louca.

Fico de pé, parada, por um minuto.

O que tenho feito senão exatamente isso?

Acima de tudo, tende profundo amor uns pelos outros, pois o amor cobre uma multidão de pecados. Isso é Pedro. De Pedro eu sempre gostei.

– Ei! – Shelby semicerra os olhos. – O quê?

– Nada. – Salto para a cama com minhas duas garotas preferidas e dou um longo apertão nas duas. – Nada mesmo.

É bem cedo quando chego à casa de Sawyer, o sol nascente sobe cinzento e chuvoso atrás de mim. Parei no posto de gasolina para abastecer e pegar provisões de última hora; Hannah está dormindo na cadeirinha do carro, desmaiada pela madrugada. O rádio murmura um som baixo e tranquilizador.

Pego algumas pedrinhas dos canteiros no jardim da frente dos LeGrande, depois atravesso o aglomerado de coqueiros no gramado e as atiro, uma a uma, na janela dele. Ainda nem são sete horas, mas já está úmido, o brilho do ar encharcado da Flórida sobre minha pele.

Nada acontece. Seguro a respiração: é um gesto idiota, muito mais do que poético, mas fazia um sentido bizarro quando eu estava a caminho dali. Estou prestes a desistir, então Sawyer levanta a persiana e olha.

– Isso é para mim? – pergunta ele. Mesmo vendo de um andar abaixo, ele tem um sorriso e tanto.

Sorrio de volta, um sorriso grande e brilhante, e ergo o enorme copo de raspadinha na mão livre em um cumprimento de noventa e nove centavos.

– Parece que sim.

Sawyer assente um pouco, sonolento e impressionado.

– Está cedo. – É tudo o que ele diz.

– Eu sei. Não queria desperdiçar tempo. – Hesito e então falo: – Só parei para descobrir se você queria fazer uma viagem.

Mesmo lá embaixo consigo ver as sobrancelhas castanhas dele se arquearem.

– Aonde vai? – pergunta Sawyer, inclinando-se um pouco mais para fora da janela, como se estivesse tentando ver melhor meu rosto.

Dou de ombros e ergo as mãos, um pouco sem reação.

– Não tenho certeza – admito, ainda sorrindo. Parece incrivelmente poderoso dizer. – Mas trouxe muitos cadernos.

– Ah, é? – pergunta Sawyer, fingindo casualidade. – Vai escrever um pouco?

– Estou pensando nisso – digo, superficial como ele. Parece que estamos circundando alguma coisa aqui, como se talvez nós dois soubéssemos aonde aquilo vai dar. Como se talvez sempre soubéssemos. – Vou começar em Seattle.

– Ah, é? – Sawyer assente em aprovação. – Seattle é bom – diz ele, tranquilo. Os dedos bronzeados de Sawyer se fecham na moldura da janela. – Vai quando?

– Agora mesmo.

Sawyer não diz nada por um momento, então:

– Uau. – Ele me olha como se me conhecesse desde sempre. Como se eu o surpreendesse todos os dias. Sawyer endireita o corpo na janela, alto e familiar; o copo está molhado e pesado em minha mão. – Sei lá. Pode esperar cinco minutos para eu me vestir?

Gargalho de repente, como se alguma coisa borbulhasse dentro de minhas veias. Não percebi até aquele segundo que estava prendendo a respiração, mas expirar é um alívio enorme, anos e anos de tensão sendo drenados.

– Acho que posso – respondo, ainda rindo; rindo, sério, como não faço há séculos. Como Allie e eu costumávamos fazer quando éramos pequenas, brincando no quintal. – Isso parece bom.

– Que bom – responde Sawyer, e começa a abaixar a persiana. – Fique aí. Já desço.

– Tudo bem – digo, e depois: – Ei, Sawyer?

Ele para, volta o rosto para mim.

– Sim? O que foi?

Fico de pé ali. Reúno coragem. Respiro tão fundo que parece que o ar vem do chão sob meus pés, então dou um salto:

– Amo você, sabia?

– Eu... – Sawyer para de falar, um sorriso grande, brilhante e feliz. Ele parece uma criancinha. – Eu sei – diz Sawyer depois de um momento. – Mas, nossa, Reena. – Ele gargalha um pouco, incrédulo. – Como é bom ouvir.

É bom dizer, quero responder, mas percebo que terei um país inteiro para fazer isso. Um continente inteiro. O mundo inteiro. O sol está nascendo, alaranjado, um círculo brilhante no céu.

– Venha – grito, erguendo o queixo. – Desta vez, eu dirijo.

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