Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 33 de 53

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Duas Vezes Amor

Capítulo 33

Depois

Brigar com Shelby me deixa totalmente arrasada. Começo a mandar mensagens de texto pra ela – por vários motivos diferentes, coisas normais idiotas, para avisar que Center Stage está passando na TV a cabo ou reclamar da nova música de Taylor Swift alojada bem no fundo de meu cérebro –, até perceber que não estamos nos falando e atirar o celular de volta no sofá. Fico deprimida. Eu me lembro dessa sensação um ano antes de Allie morrer, o vazio esquisito de não ter uma melhor amiga para quem contar as coisas. Como é mais solitário do que qualquer término poderia ser.

Trabalhamos no mesmo turno atribulado no Antonia’s uma noite, dois grupos grandes em oito mesas e uma festa nos fundos, no salão de banquete. Eu a pego pelo pulso no bar durante o período mais próximo de um descanso que conseguimos, os dedos enroscados em torno da meia dúzia de pulseiras que ela usa.

– Shelby – começo, então fracasso completamente e não consigo continuar de algum modo decente.

Shelby ergue as sobrancelhas, um punhado de guardanapos e um olhar que indica que, independentemente do que tenho a dizer, espera que seja algo bom.

– O quê? – pergunta ela bruscamente.

Hesito. Quero perguntar a ela como está a semana; quero as últimas novidades sobre a hipster Cara. Quero dizer que sinto muito, que me sinto como uma daquelas garotas horríveis que não conseguem fazer a amizade com outras garotas dar certo, que sinto falta dela aos montes e não quis estragar as coisas com seu irmão e farei tudo o que ela quiser para compensar. Quero consertar isso da pior e mais idiota maneira, mas não sei como, e no fim apenas sacudo a cabeça.

– Esqueça – digo, perdendo a coragem no último segundo. – Não importa.

– Tudo bem. – Shelby revira os olhos para mim como se, ao mesmo tempo, esperasse aquilo e achasse colossalmente péssimo. – Como quiser, Reena – diz ela por fim, e, depois de um segundo, solto seu braço.

Duas semanas se arrastam. Fico inquieta e ansiosa; Hannah e eu dirigimos pela autoestrada durante horas todas as noites.

– Você está desperdiçando gasolina – observa Cade, mas apenas dou de ombros, entregando o cartão de crédito para o balconista pálido e magricela como um viciado em crack em busca de uma dose. A estrada ronca sob meus pés: siga em frente, siga em frente, siga em frente.

Dirijo.

São cinco horas de um domingo e Soledad está cozinhando; a cozinha tem um cheiro delicioso, uma grande panela de arroz amarelo fumegando no fogão e o balcão cheio de ingredientes para uma receita, que sei que ela tirou da cabeça. Soledad nunca faz nada com receitas prontas.

– Vai jantar aqui? – pergunta ela quando tiro uma garrafa de água da geladeira. – Os LeGrande vêm.

Fico tensa.

– Por quê?

– Como assim, por quê? – pergunta ela, me olhando de um jeito estranho. – Para comer.

– Não, eu sei. – Foi uma pergunta idiota. Roger e Lydia ainda vêm jantar de vez em quando, embora, em geral, Hannah e eu façamos o possível para sair pela porta dos fundos antes de eles chegarem. Sempre pareceu mais honesto fazer dessa forma, e ninguém nos pede para ficar. Não faço ideia do que costumam dizer.

– Não vai ver Aaron esta semana? – pergunta Soledad agora, com a expressão toda casual ensaiada ao tirar uma panela tampada do forno, e faço o possível para devolver à altura. Aaron deixou algumas mensagens no meu celular desde que terminei com ele. Até agora, não liguei de volta.

– Hum, não – digo, brincando um pouco com os ímãs da geladeira. REENA, monto, em vermelho, verde e amarelo. CASA. – Estamos dando um tempo. Posso ajudar?

– Aqui, continue mexendo isto. Está grudando. – Ela sai para que eu possa ficar com o fogão para mim, um cheiro de lilás e baunilha quando Soledad passa. – O que quer dizer com um tempo?

– Hum? – pergunto, batendo com a colher de madeira na borda da panela com mais força do que preciso. – Não sei. Só, tipo, um tempo separados.

– Sério? É uma pena. – Soledad joga alguns tomates-cereja na vasilha de madeira para salada, coloca um na boca e me dá outro por educação. – Gosto de Aaron – diz ela, engolindo. – Acho que ele faz bem para você.

– Jura? – digo. E então: – Merda. Desculpe. É só que você e o resto do mundo acham isso.

– Ah. – Ela não diz nada depois. O silêncio fica suspenso, uma gota de sangue numa vasilha de leite. Espero, no entanto, pacientemente, e, por fim, Soledad suspira. – Reena, quanto a Sawyer...

Não gosto do rumo que estamos tomando.

– Sol, por favor, não quero...

– Sei que há um certo... romance no fato de ele estar aqui. Como um filme. Mas só preciso que se lembre de como foram os últimos anos, está bem? – Soledad passou para as cebolas agora. As mãos finas e graciosas dela cortam e picam. – Para todos. Para seu pai.

– Para meu pai? – Olho para ela.

Soledad trabalha sem parar, o som eficiente do aço na madeira.

– Foi difícil para todos, é o que estou dizendo. E todos poderíamos ter feito as coisas de um jeito diferente e... – O rosto de Soledad se suaviza, e ela está me olhando com compaixão, e é por isso que fico tão surpresa quando ela diz: – Por favor, apenas pense desta vez, querida.

Fico de pé ali por um momento, pateta como uma vaca. Então, meus olhos se arregalam.

– Porra, está de brincadeira comigo? – pergunto baixinho e tenho certeza de que ela vai me passar um sermão pela boca suja, mas, em vez disso, apenas apoia a faca no balcão e sacode a cabeça linda e castanha.

– Não, Serena – responde com calma. – Não estou, porra.

* * *

Preciso ir.

Não sei aonde – a casa de Shelby, talvez, se ela falar comigo, ou a autoestrada, ou pegar o carro e me jogar de um penhasco – mas para fora desta casa é o primeiro passo. Tiro Hannah do cercadinho e pego as chaves nas almofadas do sofá quando a campainha toca, e, quando Roger e Lydia entram, Sawyer está logo atrás deles.

Usando gravata.

Encaro-o por um minuto, como a bebê faz quando está tentando entender algo que nunca viu antes. Dou uma risada curta e histérica.

– O que aconteceu? – pergunta Sawyer antes de dizer oi.

– Nada. – Minto. – Oi.

Sawyer não fica satisfeito. Ele aponta as chaves em minha mão.

– Aonde vai?

Roger e Lydia me olham com expectativa; Soledad está atravessando a porta da cozinha.

– A lugar nenhum – digo, e é definitivo, como o som de algo batendo. Guardo as chaves de novo e entro com eles.