Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 47 de 53

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Duas Vezes Amor

Capítulo 47

Depois

Há complicações após a cirurgia de meu pai, sangramentos que requerem uma segunda operação. Passamos uma semana de dias e noites naquela sala de espera, Cade, Soledad e eu, alternando, indo para casa tomar banho, jantando Coca-Cola Diet e salgadinhos das máquinas de petiscos. A mãe de Shelby deixa panelas em nossa porta. Lydia leva mudas de roupa. Hannah pega um resfriado de verão que nos mantém acordados à noite e me transforma, para todos os propósitos, em figurante de algum filme de apocalipse zumbi; Sawyer aparece no hospital para tirar Hannah de minhas mãos por vinte e quatro horas, me entrega um Tupperware cheio de risoto que sei que ele mesmo fez.

– Eu devia um jantar a você – diz Sawyer, apoiando a bebê no quadril.

– Você me deve mais do que jantar – digo a ele, mas não há emoção de verdade por trás disso. Pego a mão livre de Sawyer, aperto um pouco, apesar de não querer. – Obrigada.

Sawyer sorri.

– De nada.

Não conversamos muito, minha família. Cade anda de um lado para outro. Leio revistas. Soledad reza. Ela parou de comer quase completamente; penso em Jesus no deserto, lutando contra seus demônios por quarenta dias.

– Sobre aquela coisa – diz Soledad de repente certa noite, quando chego para liberá-la para ir para casa. Ela está assistindo Leno com os olhos pesados. – Eu não deveria ter dito aquilo a você. Não deveria ter mandado você pensar. Eu sei que pensa.

– Tudo bem. – Dou de ombros. – Não importa.

– Mas importa.

– É – digo. – Acho que importa. – Estendo uma sacola de comida para a viagem e penso em como Cade e eu costumávamos nos espancar quando éramos crianças, e então esquecíamos a briga um minuto depois, assim que algo mais importante surgia, como se nada tivesse acontecido. Talvez seja assim que as famílias funcionem. – Trouxe comida para você. O drive-thru era o único lugar aberto.

– Obrigada, querida. – Soledad suspira. – Sawyer está com a bebê?

– Ã-hã.

– Ele sabe cuidar dela – diz Soledad. – Preciso reconhecer isso em Sawyer.

Penso em Seattle, em bosques chuvosos e café em manhãs de neblina. Penso no ar desértico, quente e árido. Penso no centro do país, no verde interminável, e quero tanto, tanto, tanto sair deste lugar.

– É – digo a ela. – Precisa mesmo.

* * *

A caminho de casa, na manhã seguinte, paro na Target e pego um guia das estradas da parte continental dos Estados Unidos.

Hannah e eu dividimos um sanduíche de manteiga de amendoim com geleia na cozinha quando a campainha toca – não uma, mas cinco ou seis vezes seguidas, incessantemente. Caminho, descalça, pela sala de estar com a bebê apoiada no quadril e escancaro a porta: ali está Shelby, do outro lado, vestindo uma camiseta da sra. Pac-Man, e ostenta uma carranca, estendendo uma enorme bandeja de vidro de brownies mistos.

– Eu que fiz – diz ela, ríspida, empurrando os brownies para mim. – Coma ou não.

Estendo a mão livre como um reflexo, quase não consigo pegar a bandeja sem deixar cair. Com tudo o que tem acontecido ultimamente, nossos caminhos não se cruzam há algumas semanas.

– Obrigada – digo a ela, um pouco chocada; então, tento sorrir: – Você os envenenou?

Os olhos de Shelby se semicerram.

– Eu deveria – bufa ela. Shelby estica os ombros, entrando em casa. – Eu disse a você que não seria sacana contanto que você não fosse sacana – anuncia ela, se jogando no sofá. – Bem, você foi sacana. Mas vou ser legal.

Hesito, sem entender por completo, apoiando a bandeja de brownies sobre a TV.

– Mesmo?

– Sim, mesmo. – Ela ainda parece irritada, mas estende os braços para pegar a bebê, espera eu entregar Hannah e a aconchega na curva do braço cheio de sardas. Minha menina tagarela com alegria, ela ama Shelby, sempre amou. Shelby passa o polegar pela orelha coberta pelos cabelos ralos de Hannah. – Acho que ninguém te deu um tempo. Então, estou te dando um.

Imediatamente sinto um nó subir até minha garganta. Minhas mãos flutuam, meio descontroladas, na lateral do corpo.

– Você sempre me deu tempo – consigo dizer, a voz falhando um pouco, e eu não a mereço, não mereço alguém tão determinado quanto Shelby para me ajudar a travar minhas batalhas. – Você é minha melhor amiga.

Shelby inclina a cabeça para o lado, curvando um pouco as laterais da boca, como se talvez tivesse medo de que eu a comovesse também.

– Ah, pare – diz Shelby, irritada. E em seguida: – Você também é minha melhor amiga.

Bem, isso basta, estou chorando de verdade quando me sento no sofá, tudo tão dolorosamente perto da superfície o tempo todo.

– Desculpe – digo a ela, quase emocionada demais para dizer as palavras. – Não quis sacanear seu irmão. Não quis estragar tudo.

Shelby passa um dos braços em volta de meus ombros, está segurando Hannah e eu.

– Eu sei – diz ela, a têmpora ruiva roçando levemente a minha. – Também peço desculpa. Deveria ter vindo logo, quando seu pai ficou doente. Isso foi bem sacana da minha parte.

– Achei que você fosse me odiar para sempre – digo a ela, e percebo que é verdade: tive certeza de que nossa amizade tinha seguido o mesmo rumo de minha amizade com Allie e que eu perdera Shelby para sempre e jamais conseguiria encontrar o caminho de volta. Sinto-me absurdamente aliviada por ela estar ali.

Shelby sorri.

– Eu jamais poderia odiá-la, bobinha – diz ela. – Amo você demais para isso. – Shelby suspira um pouco, me aperta. Espera eu me acalmar. – Shh, Reena. Você ficará bem. – Ela repete um minuto depois, mas baixinho: – Você ficará bem – promete Shelby em voz baixa, e algo na voz dela me faz acreditar.