Duas Vezes Amor
Capítulo 49
Depois
Meu pai recebe alta no meio de agosto, dez quilos mais magro e com aparência consideravelmente pior. Ele passa a maioria dos dias na sala de estar ou na fisioterapia, grogue ou irritado, mas está vivo, e isso é bom o bastante por enquanto. Entramos em uma nova rotina, todos nós, os Montero, cheia de remédios e listas. Começo a fazer o jantar. O silêncio cai como uma mortalha. Algumas vezes na semana, o jipe de Sawyer ronca no meio-fio e ele leva Hannah para o parque ou para o zoológico por algumas horas.
– Como você está? – pergunta ele, sempre, quando levo Hannah para fora.
– Bem – digo a ele, e observo Sawyer desaparecer na rua.
Durante o dia, sou uma filha dedicada. Podo o jardim. Coloco sal na sopa. À noite, leio meu atlas como uma Bíblia, imaginando a fuga.
As coisas prosseguem assim por um tempo, um zumbido constante e o murmúrio do ar-condicionado central, até uma tarde, quando desço após colocar Hannah para dormir e encontro papai sentado no sofá, mudando de canal.
– Precisa de alguma coisa? – pergunto automaticamente. – Está com fome?
– Estou bem – diz ele. Então, desliga a TV e fala: – Venha aqui um minuto, minha filha.
Sinto meu estômago revirar – um formigamento quente de culpa e ansiedade, embora saiba que houve um tempo em que me sentia mais segura com papai do que com qualquer outra pessoa no mundo.
– O que foi? – pergunto, tentando não parecer assustada. Minhas mãos se movem diante de mim como borboletas. Meus dedos dos pés se contraem contra o tapete.
– Sente-se – diz papai, e me sento na beira do sofá ao lado dele, os pés ainda plantados no carpete como se a qualquer segundo eu pudesse dar um salto e correr.
– Eu quero conversar com você sobre aquele jantar – diz ele.
– Desculpe – falo de imediato, tentando evitar o sermão inevitável: se ele vai gritar comigo de novo, prefiro assumir logo a culpa e acabar com aquilo, adiantar a coisa toda. Meus livros estão empilhados na escrivaninha do quarto. Tenho provas na próxima semana. – Não deveria ter perdido a calma daquele jeito.
– Não é isso – diz papai, o que é surpreendente. Ele sacode a cabeça, suspira um pouco. – Devo desculpas a você.
– É que tem sido muito difícil... – Paro. – Deve?
– Devo. – O discurso dele parece travado, como se tivesse praticado. Espero. – Você estava certa, Reena – começa papai depois de um momento –, sobre o que disse à mesa. Não protegi você depois... – Ele faz uma pausa, tenta de novo. – Depois que a bebê nasceu. Eu estava com raiva. Você sabe disso. Eu lhe disse coisas horríveis e tenho vergonha de mim mesmo por isso. Desculpe. – Papai engole em seco. – Essa não é a vida que imaginei para você.
Dou de ombros, as mãos ainda se torcendo no colo. Eu as enfio entre os joelhos para fazê-las parar.
– Não é a vida que imaginei para mim também.
– Eu sei. Mas, como seu pai, acho que pareceu... pareceu um fracasso pessoal para mim, ver você perder a chance de estudar em Northwestern. Um bebê aos dezesseis... não é a forma como a criei. Desculpe se é difícil para você ouvir, mas é verdade.
Minhas bochechas estão quentes.
– Eu sei.
– Mas isso não é desculpa. – Papai suspira de novo; ele parece tão velho agora, o rosto levemente flácido. – Agi muito mal depois que me contou que estava grávida. Muito mal, uma porcaria. Você provavelmente precisava de mim mais do que nunca na vida inteira, e o que eu fiz? Virei as costas.
Começo a negar, um reflexo absurdo. É bizarro ouvi-lo falar assim. Afinal, assinto.
– É – digo a ele, praticamente o máximo que consigo falar. – Tem sido difícil.
– Mas olhe para você – diz papai. – Você se virou muito bem. É responsável. Aceitou sua cruz. Faz um bom trabalho com Hannah. Talvez pense que não reparo nisso, mas reparo.
Sinto os olhos começarem a se encher de lágrimas, aquele nó familiar na garganta. É como se eu estivesse prestes a chorar durante os últimos dois anos.
– Obrigada.
– Sei que muita gente a abandonou na vida – diz papai, e é quando as lágrimas caem de verdade. Ele se aproxima um pouco, apoia a mão pesada em minhas costas. – Sua mãe e Allie. Sawyer. E eu também. – O braço dele desliza para baixo, ao redor de meu ombro, e papai me puxa para perto; ele tem cheiro de sabão em pó e lima. – Mas o que quero dizer, querida, é que isso não vai acontecer de novo, está bem? Não vou a lugar nenhum. Não importa o que aconteça, o que faça ou aonde vá... não vai me perder de novo.
Bem, isso faz tudo desabar. De repente, é como se ele tivesse me dado permissão para me soltar de tudo a que tenho me agarrado com tanta força – a culpa e o medo com os quais caminho desde a noite do ataque cardíaco dele, o ódio absurdo que está entocado dentro de meu peito. Apoio a cabeça no ombro de papai e me permito chorar um pouco, deixo uma mancha molhada na camisa dele como não faço desde que era menina. Meu pai acaricia meu cabelo. Sei que isso não consertará tudo entre nós – temos muitos, muitos quilômetros a percorrer –, mas parece, no mínimo, um começo.
– Tem outra coisa – diz ele depois que me recomponho um pouco, soluçando, mas não mais chorando. A mão dele ainda está em minhas costas, uma sensação familiar após tanto tempo. – É sobre Sawyer.
– Sinceramente? – resmungo. – Não tem nada acontecendo entre mim e Sawyer.
– Não é isso. – Papai sacode a cabeça. – Embora qualquer decisão que tome em relação a ele seja exatamente isso, sua decisão. – Ele pigarreia de novo, endireita o corpo. – Tem algo que jamais contei a você sobre Sawyer, sobre o momento logo antes de ele partir.
Sinto as sobrancelhas se erguerem; só consigo imaginar.
– O quê?
Papai estende a mão para pegar o copo d’água na mesa e toma um longo gole antes de continuar.
– Ele veio aqui, aqui em casa. Procurando você.
– Espere – digo, hesitando. – Antes de partir de vez?
Papai assente.
– Foi quando as coisas entre nós não estavam tão amigáveis, e não o convidei para entrar, mas o carro de Sawyer estava cheio de todo tipo de porcaria, como se fosse viajar. – Papai apoia o copo de volta na mesa. – Eu não sabia, na época, que ele estava partindo, mas também nunca lhe contei que ele veio.
Fico sentada ali por um minuto, recalibrando. Parece que fui atingida por um guindaste. Penso em Sawyer do lado de fora de minha casa naquela noite: se eu tivesse pedido que fosse comigo, acha que teria ido? Limpo as palmas das mãos suadas na calça jeans. Talvez nem fosse isso o que Sawyer queria naquele dia – talvez eu esteja entendendo errado –, mas, se havia um monte de coisas no carro dele, significa que no dia em que o vi fazer as malas e deixar a casa de estuque em ruínas para sempre, Sawyer foi se despedir antes de partir.
– Bem. – Papai se senta um pouco mais para a frente e suspira, parecendo exausto. – Só queria dizer, Reena, que peço desculpas por ter sido tão duro com você. Eu a julguei, e isso foi um erro. Se tem alguma coisa... eu gostaria de tentar compensar.
Fico confusa por um momento, tentando encaixar todas as peças – pensar em alguma solução, um plano para viver nossas vidas de um novo modo. Estou prestes a dizer a papai que esqueça, que nós dois só precisamos de tempo – quando, de súbito, me ocorre, tão óbvio e aterrorizante quanto o Livro do Apocalipse.
– Preciso de sua benção para uma coisa – digo a ele.
Papai hesita por um momento: ele acha que tem a ver com Sawyer, tenho certeza, mas, para seu crédito, ele cede.
– Pode dizer.
Ergo a cabeça, limpo os olhos e encaro papai com determinação.
– Vou fazer uma viagem.