Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 50 de 53

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Duas Vezes Amor

Capítulo 50

Antes

Depois de voltar da casa de Sawyer, fechei a porta do meu quarto e guardei todos os livros de viagem, joguei mapas na lixeira. Arranquei os pôsteres de Paris e de Praga. Peguei o casaco de inverno que tinha comprado para Chicago. (“Sei que estou me adiantando um pouco”, dissera Soledad quando me mostrou o catálogo, “mas é bom estar preparada.”), e o enfiei no armário, bem no fundo, no lugar em que Sawyer e eu tínhamos nos agarrado na tarde do casamento de Cade e Stef. Imaginei que conseguia sentir o cheiro dele, de leve, como sabonete.

Precisei fazer duas pausas para vomitar.

Quando enfim terminei, sentei no meio do chão do quarto por um tempo, olhei em volta para as prateleiras vazias e para as paredes nuas. Inclinei o corpo e encarei o teto, as duas mãos no estômago. Chorei por um tempo. Pensei.

Por fim, caminhei escada abaixo, para onde Soledad estava refogando cebolas, sussurrando uma letra de Dolly Parton.

– Molho de carne – disse ela para mim, em vez de oi, então: – Não sabia que estava em casa. – Apoiou a mão fria em minha bochecha, como se estivesse verificando se eu estava com febre, algo que ela sentia, mas não podia comprovar. – Está se sentindo melhor?

Dei de ombros e então a abracei, impulsivamente e com força. Soledad tinha um cheiro de roupa limpa, familiar, de baunilha e casa.

– Estou bem – consegui dizer, inspirando o cheiro de Soledad para tentar me manter equilibrada. – Estou bem.

– Bom – disse ela, e beijou minha têmpora. Soledad pareceu surpresa, e me ocorreu que talvez eu não a deixasse me abraçar fazia um tempo. – Arrume a mesa, então.

Fiquei pela casa um tempo depois daquilo, lendo ao lado de Soledad e seguindo meu pai na jardinagem, colhendo minúsculos morangos vermelhos. Eu queria, de maneira um pouco bizarra, passar algum tempo com os dois enquanto ainda tinha a oportunidade: sabia que os perderia de qualquer maneira, como se eu fosse me mudar para o outro lado do mundo. Sabia que os dois jamais me olhariam da mesma forma de novo – e, sinceramente, eu não tinha certeza de que desejava que olhassem. Mesmo assim, parte de mim já sentia saudade deles, e eu queria aproveitá-los enquanto podia.

Então, sequei os tomates, ajudei Sol com o jantar e me acostumei com o modo como minha vida seria. Sentei no quintal sob as laranjeiras e tentei dizer a mim mesma que poderia ser o bastante, que eu poderia ser feliz daquela forma, que não estava apavorada e sozinha, que as paredes não estavam se fechando dos dois lados.

Achei que ele pudesse ligar. Observei o telefone como uma sentinela.

Ele não ligou.

No sábado à noite, meu pai estava zapeando entre filmes antigos na TV a cabo, tônica e lima na mesa ao lado. Ele me olhou com um pouco de curiosidade quando entrei.

– Oi, querida – disse papai, e me abraçou com o braço pesado. Ele parecia tão feliz ao me ver que quase partiu meu coração. – Não vai sair?

– Não – falei, e fiz o máximo que pude para manter a voz tranquila. – Vou ficar bem aqui.

Todos, menos eu, levaram mais de uma semana inteira para perceber que Sawyer tinha partido.

Acho que não podia culpá-los por completo. A frequência de Sawyer no trabalho e nos jantares em família era esporádica, para dizer o mínimo; ele ia e vinha da casa de estuque aos pedaços conforme queria. Então, quando não apareceu para os turnos durante uns dois dias e depois uns dois dias depois desses... bem.

– Droga, Sawyer. – Ouvi Roger murmurar uma noite, cuidando das torneiras do bar no meio da correria do jantar. – Um chute no meu saco.

Se eu suspeitasse que Sawyer não voltaria tão cedo – e era mais do que uma suspeita, sinceramente; era algo que eu sabia bem no fundo – decerto não contaria. Não estava falando quase nada. Eu ia para a escola, trabalhava no restaurante e mantinha a mente rigorosa e tediosamente vazia; sempre que tentava pensar no que estava acontecendo ou fazer algum tipo de plano, meus pensamentos apenas... se dissipavam. Eu me sentia debater ao longo dos dias, enroscada em um emaranhado espesso de cobertores, tudo abafado e vindo de algum lugar distante.

Não sabia como lidar com o que estava vindo.

Então não lidei.

Isso funcionou por um tempo. Fiquei na minha. Sabia, em algum lugar no canto mais escuro de minha mente, que precisaria contar em algum momento, sobre Sawyer e tudo o mais, mas, conforme os dias se passavam, alguma parte pequena e insana de mim começou a achar que talvez eu tivesse inventado a coisa toda. Talvez tivesse imaginado fazer o teste no banheiro de Shelby. Talvez nunca tivesse ficado com Sawyer.

Uma tarde, no fim de maio, entrei pela porta da frente um pouco mais tarde do que o normal, depois de ter passado uns bons quinze minutos encarando o conteúdo do armário sem qualquer ideia de que livros poderia precisar levar comigo, então consegui virar duas vezes em ruas erradas conforme voltava para casa da escola. Era um pouco assustador. Eu tinha problemas de motivação demais para me importar.

Eu iria direto para o andar de cima, para o quarto – tinha passado muito tempo encarando a parede –, mas papai e Soledad estavam sentados no sofá, lado a lado, como dois soldadinhos de chumbo.

– Oi, Reena – disseram eles quando entrei.

Hesitei.

– Hã – falei, deixando a mochila no chão, onde fiquei. Eu me sentia levemente enjoada. – Oi.

Meu primeiro pensamento foi que sabiam, de alguma forma, sobre o bebê, que tinham intuído, apenas por me conhecerem, e a onda de alívio que senti naquele momento foi violenta e imensa. Então, percebi que não era nada disso.

– Precisamos conversar sobre Sawyer – disse Soledad para mim. – Roger e Lydia precisam saber onde ele está.

– Sawyer? – repeti. Senti uma vontade repentina e ridícula de gargalhar. – Não faço ideia.

– Reena – disparou papai –, não é hora de brincar...

– Leo – interrompeu Soledad; então se virou para mim: – Soube dele? Vocês dois brigaram?

Sacudi a cabeça uma vez e me sentei com força na poltrona, a sensação era de um colapso físico. De repente, estava muito, muito cansada.

– Ele deu o fora – falei, dando de ombros. – Não sei para onde. Mas acho que não vai voltar.

Aquilo pegou os dois de surpresa; não sei o que estavam esperando que eu contasse, mas não era aquilo.

– Quando? – perguntou Soledad, baixinho.

– Há uns dez dias? – chutei. Os dias tinham começado a se misturar numa escuridão interminável, semanas inteiras passavam como um borrão. Eu não conseguiria guardar aquele segredo por muito mais tempo. – Duas semanas?

Papai ouvia em silêncio, o olhar sombrio fixo em minha direção.

– Reena, querida – disse ele, obviamente espantado. – Por que não contou?

Respirei fundo, ergui o queixo para entrar na dança.

– Há muitas coisas que não contei – comecei.

Dizer que papai não aceitou bem minha gravidez seria como chamar um furação de nível cinco de brisa inconveniente. Ele gritou – Cristo, ele gritou comigo, todo tipo de acusação odiosa em que jamais quero pensar de novo. Chorei. Soledad chorou. E papai chorou também.

Então, veio a calmaria.

Soledad entrava em meu quarto algumas noites, esfregava minhas costas e sussurrava orações em meus ouvidos. Shelby segurava minha mão e me contava piadas. Elas faziam o que podiam para me acalmar, para me fazer sentir menos sozinha; mesmo assim, passei aqueles longos e embaçados meses sem ter certeza de nada, apenas da sensação de estar gritando de pé na beira de um precipício, esperando por um eco que se recusava a vir.