Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 20 de 53

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Duas Vezes Amor

Capítulo 20

Antes

– Então – disse Sawyer, do nada –, conseguiu terminar a dissertação?

– O quê? – Pisquei para ele. Eu estava sentada em uma mesa nos fundos, embrulhando talheres em pequenos burritos de guardanapos de tecido branco, uma perna dobrada sob o corpo. Era quase Ação de Graças no meu segundo ano da escola. Sawyer e eu nos evitávamos havia semanas, desde a noite no banco do piano; eu seguia, de soslaio, o trajeto que ele fazia. O restaurante fervilhava, ininterruptamente, como uma corrente que nos levava. – Minha dissertação?

– A coisa do guia de viagem – explicou ele. Uma camiseta cinza despontava sob o colarinho da camisa de botão de Sawyer. – Para a Northwestern.

– É, não, eu sei do que está falando. – Terminei com os rolinhos, empilhei os últimos em uma cesta de vime sobre a mesa. – Só não achei que você se lembrasse disso.

– Bem – responde Sawyer, dando de ombros. – Lembro.

Quem diria?

– Está quase pronta – contei. Na verdade, eu estava na metade do terceiro rascunho daquela coisa idiota, certa de que havia algo importante que eu estava deixando de fora. A sra. Bowen tinha lido, assim como minha professora de inglês. Noelle, a editora loira e enxerida do jornal da escola, lera uma cópia e avaliara a dissertação como satisfatória, o que, da boca dela, era, na verdade, um grande elogio; estava dentro dos padrões dela, talvez. Mas não dos meus. – Só consertando mais algumas coisas.

– Isso é legal. Ainda quero ver. – Sawyer hesitou por um minuto, apenas de pé ali, as mãos enfiadas nos bolsos, me observando. – Pode fazer um intervalo agora? – perguntou ele. – Preciso pegar uns CDs com o Animal.

Senti minhas sobrancelhas se erguerem.

– Animal?

– É meu baterista.

– Como o dos Muppet Babies?

– É, como o dos Muppet Babies. – Sawyer sorriu. – Vamos, venha comigo. Podemos parar para um refrigerante ou algo assim. O que quer que as crianças estejam bebendo ultimamente.

– Absinto, na maioria das vezes – respondi, hesitando, sem querer demonstrar o quanto estava esperando um convite como esse nas últimas semanas. Por fim, tomando fôlego: – Claro, tudo bem. – Levantei, desamarrei o avental. – Só me deixe avisar o meu pai.

Enfiei a cabeça para dentro do escritório abarrotado que papai compartilhava com Roger, papéis empilhados sobre a mesa e fotos das nossas famílias nas paredes.

– Posso fazer um intervalo? – perguntei. – Está, tipo, supervazio.

Ele me olhou sobre o monitor do computador, os óculos de leitura apoiados no osso do nariz.

– Claro. Aonde vai?

– Obrigada – respondi, depressa: – Vou resolver algumas coisas com Sawyer.

– Com Sawyer? – As sobrancelhas dele se ergueram tão rápido que pensei que saltariam da cabeça.

– Sim.

– Está bem – respondeu ele, hesitante, com um olhar de quem gostaria de ter um motivo para me proibir. – Tome cuidado.

– Pode deixar.

– Mentiu desta vez? – perguntou Sawyer quando voltei. Ele estava segurando minha mochila em uma das mãos e a chave do carro na outra, encostado no bar.

– Não – disse a ele, meio que surpresa por Sawyer ter se lembrado. – Contei a verdade.

Àquela hora do dia, não havia muito tráfego perto do restaurante, apenas as mesmas lojas de antiguidades e calçadas quebradas. O motor roncou atrás de meus joelhos. Sawyer apertou o botão do rádio, e o CD no player ganhou vida: Miles Davis, reconheci pouco depois. Bitches Brew.

– Gosto muito das coisas que ele fez logo antes desse – falei, indicando o rádio com a cabeça quando Sawyer olhou para trás e entrou na pista principal. – Kind of Blue e tudo isso. Sei lá, sei que todo mundo gosta muito desse álbum, é bom, mas, se você vir fotos dele dessa época, são tão ruins e tristes. Ele parece a Tina Turner o tempo todo.

Sawyer gargalhou.

– Olha só. Não sabia que gostava dessas coisas.

Dei de ombros.

– Não diria exatamente que gosto. Mas vivi dezesseis anos na minha casa, não teria como não absorver um pouco disso.

– Acho que não – respondeu Sawyer. – De qualquer forma, meu iPod está jogado por aí em algum lugar. Coloque o que quiser.

Assenti e olhei em volta até encontrá-lo, com algum Solomon Burke antigo selecionado.

– É bom? – perguntei depois de um momento, quando as buzinas começaram.

– Pode ser. – Sawyer estava sorrindo. Ele tamborilava no volante enquanto dirigia. – Seu pai me apresentou a tudo isso, sabia? Quando me dava aulas.

– Eu lembro. – Costumava me sentar na cozinha e ouvir. – Ele ficou muito chateado quando viu que Cade e eu éramos uma negação com música. – Sorri. – Só mais uma na longa fila de decepções paternais, imagino.

– Não sei quanto a isso. – Sawyer sacudiu a cabeça. – Vocês são, tipo, os filhos perfeitos. Todo mundo sabe que ele sente orgulho dos dois.

Puxei uma das pernas para cima do banco quando dobramos a esquina e apoiei o queixo no joelho.

– Bem, seu pai sente...

Sawyer me interrompeu.

– E se não falarmos do meu pai?

– Ele tem orgulho de você – protestei.

– Ele é um babaca. – Sawyer pisou o freio de uma vez, sem discussão, e me ocorreu que, apesar de todos os nossos anos de proximidade, talvez eu não soubesse de verdade como era ser um LeGrande.

– É aqui – disse Sawyer, um instante depois, desafivelando o cinto de segurança e passando uma das mãos pelos cabelos ondulados. Estávamos sentados diante de um pequeno bangalô cinza que precisava desesperadamente participar de algum daqueles programas de reforma: a varanda descascada, uma das janelas da frente quebrada, o gramado completamente morto. Soledad teria um ataque só de olhar para ele, e eu tinha quase certeza de que Lydia LeGrande não teria ficado muito impressionada também. – Quer esperar aqui?

– Ah – falei. Logo imaginei qual de nós o envergonhava, se Animal ou eu, ou se talvez eu só o tivesse pressionado demais de novo. – Sim, claro.

– A casa é bem nojenta – disse Sawyer, como explicação, sacudindo a cabeça. – Um bando de homens mora nela, então... não sei, não quero, tipo, chocar você ou coisa parecida.

– Não, está bem. Fico aqui.

Recostei a cabeça para ouvir música e consegui a façanha de esperar trinta segundos depois de ele entrar na casa – a porta estava destrancada e Sawyer entrou sem bater –, para começar uma investigação mais completa do conteúdo do jipe. Virei o corpo a fim de olhar o banco traseiro: um moletom azul desbotado e uma edição velha da Rolling Stone estavam amassados no chão, mas, tirando isso, Sawyer tinha limpado o carro. O CD gravado por Allie não estava mais lá. Havia algumas notas fiscais de bar sob algumas moedas no nicho entre os dois bancos da frente e – ai, Deus, é isso que você merece por ser tão enxerida – vi duas camisinhas enfiadas no compartimento em que deveria ficar o dinheiro para o pedágio. Senti que estava corando, embora não tivesse mais ninguém no jipe. Cruzes. Shelby se divertiria com isso, eu sabia.

– Oi – disse Sawyer, e me sobressaltei quando ele abriu a porta. – Pronta?

– Claro. Onde estão os CDs?

– CDs? – Sawyer me olhou inexpressivo.

– É – falei. – Você disse que ia pegar...

– Ah, é, é. – Sawyer assentiu. – Não estavam com ele.

– Ah. – Ele estava mentindo, obviamente. Pensei em brigas de bar e sujeitos desonestos, imaginei de que tipo de esquema eu tinha acabado de participar.

– Ele é meio aéreo – continuou Sawyer conforme saíamos para a estrada principal. – O Animal. O nome verdadeiro dele é Peter. Mas ninguém se chama Peter numa banda de rock.

– Claro que chama – repliquei. – E Pete Townshend?

– Verdade...

– Pete Seeger.

– É, mas...

– Peter, Paul e Mary.

– Peter, Paul e Mary não eram uma banda de rock!

– Mas eles cantavam sobre drogas. – Eu estava me divertindo. – Então, se seu argumento é que pessoas chamadas Peter são caretas demais para cantar ao estilo drogado, Peter, de Peter, Paul e Mary, obviamente prova o contrário.

– Sabe, acho que eu gostava mais de você quando não falava. – Sawyer estava rindo. – Quer um milk-shake ou algo assim? A Baskin-Robbins fica no caminho de volta.

– Não. Só um refrigerante está bom.

– Você decide – disse ele. Trocou de faixa e executou uma baliza com um talento particular do lado de fora de uma mercearia chinesa na A1A. Saltei para a calçada, o sol quente e aconchegante na pele.

– Ah! – falei, feliz, quando entramos. A mercearia Sunrise era apenas uma loja de conveniência pomposa, mas sempre havia algum produto de hortifrúti incomum empilhado na tenda próxima à porta; eu tinha escrito uma matéria sobre ela para o jornal, na verdade, e sobre alguma fruta chamada Ugli. – Eles têm romãs.

– Romãs? – Sawyer jogou um pacote de chiclete no balcão e começou a pegar a carteira no bolso de trás. – Quer uma?

Parei e peguei uma garrafa de Coca-Cola da geladeira próxima à porta.

– Sim.

Sawyer gargalhou.

– Então, pegue. E uma para mim também. Nunca comi.

– Nunca comeu romã? – perguntei, apoiando as duas frutas do tamanho de uma bola de softball no balcão.

– Não.

– E morou aqui a vida toda?

– Mais tempo do que você, na verdade.

– Que triste.

– Entrem os violinos – concordou Sawyer. Ele deixou o troco na caixinha de gorjetas e me entregou o saco plástico. – Aqui – disse Sawyer. – Oferta de paz.

Ergui as sobrancelhas.

– Estamos brigando?

– Não sei – respondeu ele, segurando a porta aberta. Atravessamos a calçada até o jipe e entramos. – Diga você.

Pensei nisso por um segundo e em como, na outra noite no restaurante, Sawyer me afastou totalmente assim que mencionei o nome de Allie.

– Não – falei depois de um minuto. Estiquei o braço para a sacola da mercearia e remexi até tirar de dentro uma gorda romã. – Acho que estamos bem. – Então, respirando fundo e abrindo a fruta com as unhas dos polegares: – Você sente falta dela?

Sawyer não estava esperando isso de mim, não havia dúvida. Eu também não estava esperando – em geral, era eu quem não queria falar sobre coisas dolorosas –, mas parecia que um de nós precisava dizer. Olhei para ele e vi seis expressões diferentes tomarem seu rosto: surpresa, tristeza, alguma coisa que achei que se parecia muito com culpa. Por fim, ele parou em leve irritação.

– É claro que sinto – disse Sawyer com uma voz que, pensando bem, indicava que talvez estivéssemos mesmo brigando. – Sério, que tipo de pergunta é essa?

Dei de ombros, defensiva.

– Bem, eu sei...

– Estávamos brigados quando aconteceu – interrompeu Sawyer com grosseria. – Então. – Ele deu de ombros uma vez, como se não quisesse admitir aquilo e estivesse chateado por eu ter lhe arrancado a informação. Sawyer não olhou para mim ao engatar a primeira marcha. – Entenda o que quiser.

Hesitei.

– Brigados por quê? – disparei, sem conseguir me controlar. Apesar de toda a energia mental que gastei pensando em Sawyer e Allie juntos, jamais imaginei os dois brigando. Pensei na noite em que me beijou, a sensação que tive de que havia algo que ele queria dizer e não disse. – Sei lá, não que seja da minha conta, eu só...

– Não importa. – Sawyer sacudiu a cabeça, determinado. – Não é importante. Falar sobre isso não muda nada. – Um segundo depois, no entanto, como se talvez ele reconsiderasse: – Você sente falta dela?

– Eu...

Parei, tentando pensar em como explicar. Estávamos falando da minha melhor amiga desde a pré-escola: a garota cujo lanche e cujo dever de matemática eu compartilhava desde antes de ter decorado meu próprio telefone, que enterrara os pés gelados e irritantes sob meu corpo durante milhares de noites de filmes diferentes e tinha me mostrado como usar um absorvente interno. Ela cresceu em minha cozinha, era minha sombra... ou melhor, eu era a dela. E agora ela tinha partido para sempre. Tentei imaginar de novo o quanto Allie tinha contado a Sawyer sobre a nossa briga.

– É – respondi por fim. – É, sinto muita falta dela.

Sawyer assentiu, visivelmente desconfortável. Falar sobre isso não muda nada, dissera ele; em geral, eu teria concordado sem discutir, mas havia algo diferente a respeito de Allie. Parecia, para mim, que ela estava no carro conosco, em carne e osso, os pés apoiados no assento traseiro, reclamando do rádio. Imaginei o quanto era possível que Sawyer também sentisse o mesmo.

Eu estava juntando coragem para insistir com ele mais um pouquinho quando Sawyer parou de repente, o jipe guinchou e freou de súbito no acostamento. Ainda estávamos a quatro ou cinco quarteirões do restaurante.

– O que está fazendo? – perguntei, um pouco histérica.

Ele riu e deu de ombros e, do nada, tínhamos voltado ao normal; parecia que Sawyer não gostou do rumo da conversa e decidiu mudá-lo de acordo com sua vontade.

– Vou comer a porcaria da romã.

– Você pirou – falei, mas enfiei a mão na bolsa de novo e a entreguei a ele. Senti Allie sair pela porta de trás, deixando a mim e Sawyer sozinhos no carro de novo, apenas nós dois.

– Talvez – concordou ele. – Como se come isto?

– Apenas abra e coma as sementes.

Com cautela, observei-o fazer isso e fiquei aliviada quando sorriu um momento depois.

– Tem gosto de ponche de frutas. – Ele comeu, pensativo por um momento, e então disse: – E por que você não tem namorado?

Quase engasguei.

– O quê?

– Você me ouviu.

– Quem disse que não tenho namorado?

Sawyer ergueu as sobrancelhas. Ele estava com a barba por fazer e tinha suco de romã no lábio inferior.

– Tem?

– Não – admiti. Mexi um pouco na casca da romã, sulcando-a com a unha. – Mas pelo menos me dê um pouco de crédito. Teoricamente, eu poderia ter um.

– Teoricamente, sim – concordou Sawyer. – Mas por que não tem?

– Porque sou fria e pouco amigável.

Sawyer riu e passou o braço por trás do encosto do banco do passageiro. Pela janela, carros passavam zunindo, dezenas de estranhos resolvendo seus problemas, totalmente alheios ao que pudesse estar acontecendo dentro do jipe de Sawyer.

– Não, não é.

– Ah, eu sou – respondi. – Pergunte a qualquer um. Uma rainha do gelo, até.

– Não, não é. – Ele estava sério agora. – Você só é contida, só isso. É meio... intrigante.

– Certo – consegui dizer, sacudindo a cabeça.

– Por que nunca aceita um elogio?

– Por que faz tantas perguntas? – disparei de volta.

– Por que eu a faço corar tanto?

– Não faz! – Levo a mão à bochecha. E, obviamente, estava queimando sob a palma. – Droga – falei, envergonhada. Mesmo assim, virei o corpo na direção dele no banco do passageiro e puxei um joelho para cima, para apoiar o queixo. Eu queria ver aonde aquela conversa iria.

– Rainhas do gelo não coram – disse Sawyer tranquilamente, como se estivesse satisfeito consigo mesmo. – Portanto, você não é uma rainha do gelo.

Revirei os olhos.

– Que científico.

Sawyer deu de ombros.

– É apenas lógica. Então, de quem você gosta?

– De quem eu gosto? – Gargalhei, sabendo que ele gostava de me deixar desconfortável. Eu mesma me divertia. – O que é isso, o sexto ano?

– Responda.

– Não gosto de ninguém.

– Ninguém?

– Não. Rainha do gelo.

– Pare de dizer isso. Não acredito em você. Todo mundo gosta de alguém.

– Está bem – falei, torcendo para que ele não percebesse minha respiração irregular. – Bem, então, de quem você gosta?

– Não é justo – disse Sawyer. – Perguntei primeiro.

Sacudi a cabeça.

– Não vou ter essa conversa com você.

– Você está corando de novo – disse ele, alegre, extraindo mais algumas sementes da pele pálida da romã. Pela janela, o sol brilhava. Sawyer segurou minha bochecha com uma das mãos meladas e virou meu rosto para a frente, confiante, e, quando me beijou, foi doce como açúcar e magenta, como algo que vi a vida inteira, mas jamais experimentei.

– Rainha do gelo – murmurou Sawyer quando acabou; parecia que estava tentando comprovar sua teoria e tinha sido bem-sucedido. – Não engulo essa, Reena. Nem por um segundo.