Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 21 de 53

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Duas Vezes Amor

Capítulo 21

Depois

Literalmente todas as minhas calças jeans têm furos, e Soledad tem coisas para fazer, então prendo Hannah na cadeirinha do carro e a levo para o que, espero, seja a viagem mais curta e mais eficiente do mundo para o Galleria na East Sunrise Boulevard. O shopping tem cheiro de cloro e rosquinhas Cinnabon. Uma vendedora, estudante animadinha do ensino médio, carrega minhas coisas para dentro da cabine, o short dela é tão minúsculo que os bolsos aparecem por baixo da bainha das pernas bronzeadas e magricelas.

– Ela é tão bonitinha – diz a vendedora para mim, sorrindo para Hannah, que está desmaiada de sono no carrinho com um punho coberto de baba na boca. – Você é a babá?

– Não – respondo depressa. Ouço bastante essa pergunta, e costumava me deixar toda vermelha, eu gaguejava as explicações para caixas de banco e atendentes de bar, os dois lados desejando, por Deus, que não tivessem perguntado. Por fim, descobri que era melhor ser clara e direta. – É minha filha.

Os olhos da vendedora se arregalam apenas por um segundo. Ela deve ser apenas um ano mais nova do que eu.

– Ah – diz ela com alegria, desviando os olhos ao pendurar a calça jeans no gancho dentro do cubículo bem-iluminado. – Que ótimo.

Assim que tranco a porta e desço o zíper da calça, Hannah acorda, vermelha e mal-humorada.

– Oi, bebezinha – digo com um sorriso, tentando distraí-la com as palavras. – Sairemos em dois segundos, está bem?

Nada feito. Hannah chora enquanto tento agitar o corpo para dentro e para fora da primeira calça. Quando fica claro que tudo o que escolhi é pelo menos um tamanho menor, ela está bem no meio de um berreiro espetacular, gritando como se estivesse sendo torturada. Então a tiro do carrinho, fazendo o que posso para acalmá-la.

– Tudo bem aí dentro? – grita a vendedora com a voz esganiçada.

– Sim – grito de volta, tentando dar a impressão de que sei o que estou fazendo. Sei o que estou fazendo, de verdade; tento me lembrar disso enquanto toco a testa de Hannah com os lábios. – Estamos bem.

Mas não estamos: a fralda dela precisa ser trocada, e Hannah não para de chorar. Não vou comprar nada hoje. Visto o jeans furado o mais rápido possível. A bebê chora, soluça e grita um ocasional: “Nããão!” Quando saio da loja, me dou conta de que pareço uma daquelas pessoas dos reality shows da MTV a que muita gente assiste para se sentir melhor com a própria vida.

– Ah, que pena – grita a vendedora atrás de mim. – Nenhuma delas coube?

Só quero voltar para casa e dar o dia por encerrado, mas disse a Aaron que passaríamos na casa dele depois do shopping para comer pizza e ver um filme, algum terror com o qual concordei contra a vontade.

– Relaxe – diz Aaron no meio do filme, rindo quando quase salto do sofá pela terceira vez em vinte minutos. Odeio filmes de terror, na verdade.

– Relaxe você. Essa vaca está morta – respondo, esticando o braço para pegar a pipoca na mesa de centro e indicando com a cabeça a detetive feminina na tela. Hannah está dormindo no quarto de Aaron. Maxie, o buldogue, ronca no chão.

– Que nada. – Aaron me puxa para si, a mão parece a pata de um urso brincando com meu cabelo. Ele tem cheiro de água do mar e sabão, limpo. – Ela é bonita demais. As bonitas nunca morrem.

– Em que universo? – pergunto, rindo. Estou prestes a encostar no ombro dele quando meu celular começa a tocar dentro da bolsa: Rolling Stones, percebo depois de um segundo, “Sympathy for the Devil”. Meu coração acelera dentro do peito. No segundo ano do colégio, Shelby mudou o toque do meu celular para que tocasse essa música quando Sawyer ligasse. Quando a ouço agora, eu meio que... congelo.

Aaron começa a rir, então olha para mim e franze a testa.

– Quem é? – pergunta ele quando eu tiro o telefone da bolsa.

– Ninguém – respondo, recuperando-me e apertando o botão IGNORAR. – É só... uma brincadeira.

– É Sawyer? – Aaron não parece muito feliz com a ideia. A luz azulada da TV pisca no rosto dele.

– É – confesso... Não há motivo para mentir, certo? Nada acontecendo. – Mas não preciso falar com ele, então...

– Então – dispara Aaron de volta, nada convencido. – Por que ele está ligando, então?

Isso me surpreende um pouco. É a primeira desconfiança que o vejo demonstrar, e devo ter deixado transparecer, porque Aaron tenta consertar.

– Olha – diz ele. – Não quero ser babaca. É só que...

– Não, eu sei – digo. – Não tem problema. Não faço ideia do que ele quer, sinceramente. Mas não me importo muito também. Estou com você agora, sabe?

– Tudo bem – diz Aaron por fim, e ficamos juntos por um tempo, vinte minutos preguiçosos no sofá depois que o filme acaba. Ele estava certo, aliás: a policial corajosa sobreviveu para combater o crime por mais um dia.

– Posso fazer uma pergunta? – diz ele, depois que começo a me afastar; está ficando tarde e olho ao redor em busca dos chinelos. – O que aconteceria se você ficasse?

– Não posso – digo automaticamente, como um reflexo, embora por um momento eu imagine qual seria a sensação de dizer sim. – Quero dizer, a bebê está aqui e...

– Quero dizer. – Aaron parece desapontado por um segundo, faz cara de sério: na primeira vez que levei Hannah à casa de Aaron, ele comprou tampas para todas as tomadas. – Eu não a mandaria para casa de táxi.

– Eu sei. – É o seguinte: eu gosto muito, muito dele. É um cara com um coração enorme. Mesmo assim, a sugestão de ficar parece algo importante por algum motivo, um passo que não sei se estou cem por cento pronta para dar com ele: penso no telefone tocando mais cedo, “Sympathy for the Devil”. Tento parar de pensar nisso.

Por fim, sorrio e passo os dedos no cabelo loiro na base da nuca de Aaron.

– Outro dia – prometo, e sigo para o quarto a fim de pegar minha menina.

Sawyer liga de novo quando estou a caminho de casa, Mick Jagger ressoando das profundezas da minha bolsa. Cato o celular e olho por cima do ombro para Hannah, na cadeirinha, mas ela está alheia ao mundo. Meu carro tem cheiro de cereal e desinfetante para mãos.

– Não queremos comprar nada – digo, em vez de alô.

– Você ainda não ouviu o que estou vendendo. – Sawyer está rindo; consigo ouvir na voz dele.

Franzo a testa para a estrada diante de mim, cheia de lojas abertas com iluminação de neon e de lanchonetes fast-food. Estou tão cansada de passar por esse caminho.

– Não preciso.

– Claro que precisa.

– Facas? – pergunto, entrando na estrada. – Acabamento de vinil? Seguro contra enchentes?

– Melhor – diz Sawyer, empolgado. – Me deixe cozinhar um jantar para você.

Ai, meu Deus.

– O quê?

– Jantar – repete ele mais devagar, como se talvez o problema estivesse na pronúncia. – Hoje à noite.

– São nove e meia.

– É europeu.

– Na sua casa?

– Bem, é onde minha cozinha está – diz Sawyer, usando a lógica.

Reviro os olhos. A estrada está bem vazia a esta hora, com silhuetas escurecidas de palmeiras emoldurando a pista central e o brilho vermelho de faróis espalhados à frente. O para-brisa embaça um pouco devido à umidade, e o limpo com a palma da mão.

– Onde estão seus pais?

– No restaurante.

De jeito nenhum.

– Já comi.

– Coma de novo – sugere Sawyer, irredutível.

– Acho que não.

Ele fica em silêncio por um minuto, como se estivesse retomando a formação, mudando de tática.

– Onde você está? – É o que Sawyer tenta a seguir.

Verifico Hannah no espelho mais uma vez.

– No carro.

– Onde você estava?

Suspiro.

– Na casa de Aaron.

– Ah. – Sawyer parece satisfeito. – Foi por isso que não atendeu.

– Vai ver não atendi porque não queria falar com você.

– Não foi por isso – diz ele, confiante. – Você atendeu agora, não foi?

Nossa, ele é tão irritante. E, acho, está certo.

– Estávamos vendo um filme.

– Que filme?

– Quem é você? Meu pai? – Vasculho o painel em busca de chiclete, coloco um pedaço entre os dentes e mordo forte. – Um de terror, não sei.

– Você odeia filmes de terror.

– Talvez eu goste deles agora.

– Venha.

– Sawyer. – Eu deveria desligar, de verdade. Não sei por que ainda estou ao telefone. – Não.

– Por que não? Vamos lá, Reena – diz ele. – Quero ver você.

– Você me viu outro dia.

– Quero ver você de novo.

É uma má ideia, só isso. É uma ideia muito ruim.

– Preciso desligar – consigo, por fim, dizer. Não há motivo no mundo para eu querer dizer sim. Mas quero. Estou passando pelo aeroporto neste momento: os aviões voam baixo e são enormes, tantas idas e vindas, e estou exatamente onde sempre estive. – Estou dirigindo, lembra? Não é seguro.

Por um segundo, Sawyer não responde. Espero que retruque com algum papo novo e criativo de vendedor, mas no fim ele só diz:

– Não. – Sawyer suspira um pouco, parecendo derrotado, e, de súbito, fico surpresa ao ver que não me sinto nem um pouco vitoriosa. – Não, acho que não.

Em casa, coloco a bebê no berço sem problemas e circulo por um tempo, inquieta. Bebo um pouco de água ao lado da pia. Subo para o quarto e encaro o número de Sawyer na lista de contatos do meu telefone – disco seis números, então hesito e desligo (minha vida inteira é um padrão cíclico, alguma variação de espere e verá). Caminho de um lado para outro.

Por fim, desço.

Soledad e meu pai estão sentados no sofá da sala, assistindo a Law & Order.

– Vocês podem me fazer um favor? – digo, pairando na base da escada como se fosse um fantasma, desejando não parecer tão tímida.

Os dois olham para mim com expectativa. Não costumo pedir favores.

– De que precisa, querida? – responde Soledad, e seu carinho me faz sentir como uma criança.

– Pode ficar atenta a Hannah? – peço a ela. – Preciso fazer uma coisa.