Duas Vezes Amor
Capítulo 42
Antes
Em maio, a Ideal Platônico começou a fazer shows em um dos pavilhões da praia – o tio de Iceman trabalhava para o departamento de parques e recreação e conseguiu o negócio, terças e quintas-feiras à noite, logo depois do pôr do sol. Eu ia sempre que não estava trabalhando, atraindo Shelby com promessas de cebolas fritas e milk-shakes ou sozinha, quando pegava o carro de Soledad à noite e dirigia até a praia com todas as janelas abertas, cantarolando baixinho, fora do ritmo. A verdade era que eu gostava de estar sozinha, livre para me sentar lá no fundo, na mureta que separava a areia da calçada, e olhar sem interrupções, ouvir meu namorado cantar suas músicas.
Naquela noite, eu me sentei no lugar de sempre, mordendo, pensativa, o lábio inferior enquanto a banda se atirava em uma versão em ritmo de rock de “Come Rain or Come Shine”, cujo arranjo eu sabia que Sawyer tinha feito. Olhei ao redor, para a multidão, reconhecendo diversos rostos de outros shows na praia ou das festas às quais tinha ido antes de parar de ir: as Reboladeiras estavam lá – tentei ao máximo não olhar para elas – e usavam short e a parte de cima do biquíni. Sawyer estava se esforçando para não olhar para elas também. Ele me viu olhar e sorriu, os dedos se movendo agilmente sobre o braço do baixo.
Ele era muito bom, e eu ficava muito feliz por assisti-lo. Seu corpo todo relaxava quando ele tocava, os cadarços dos sapatos desamarrados, como se afinal estivesse livre. Ele vestia bermuda azul-marinho e All Star Chuck Taylor surrado, e nunca me senti tão feliz por ser a namorada dele. Vou amá-lo como ninguém jamais amou...
– Então, fomos incríveis? – perguntou Sawyer mais tarde, descendo até mim quando acabou, a multidão se dissipando e flutuando para longe em aglomerados de três e quatro. Eu sempre tentava dar liberdade a Sawyer naqueles eventos, sempre esperava até ele me procurar. Tirei os cabelos úmidos e pesados da nuca.
– Como sempre.
– Cara, vamos para a Meridian um tempo – gritou Animal. Ele estava com uma das garotas de biquíni, que eu silenciosamente nomeei Reboladeira Risonha. – Vocês querem vir?
Segurei a respiração, mas Sawyer sacudiu a cabeça.
– Não – gritou ele de volta por cima do ruído rítmico do oceano. – Encontro vocês depois.
Compramos dois refrigerantes na loja de sanduíches do outro lado da rua, então caminhamos de volta, na direção da água, e nos sentamos onde a areia começava a esfriar.
– Não vamos à praia muitas vezes – observei, olhando para o horizonte escuro. A maré estava subindo, lambendo meus dedos do pé. – Gosto da praia.
– Os verdadeiros moradores da Flórida não vão à praia – respondeu ele. – É quente demais.
– E quanto a eles? – perguntei, inclinando a cabeça para a direita. A distância, um grupo de jovens um pouco mais velhos do que nós estava reunido sob um cobertor. Passava das dez da noite, e, exceto por eles, a areia estava quase vazia. – Eles estão aqui.
– Provavelmente vêm de Michigan.
Terminei o refrigerante e estiquei a mão para pegar a dele, que Sawyer me entregou com um suspiro.
– Não mastigue meu canudo.
– Eu não mastigo canudos.
– Mastiga, sim. – Ele beijou minha nuca.
Toda a pele do meu corpo formigou agradavelmente, mas me inclinei para a frente, para longe da boca de Sawyer.
– Estou suada.
– Salgada – corrigiu ele. – Está com um gosto bom. Como de pretzels.
– Você sabe mesmo como ganhar uma garota na lábia.
– Um Casanova – afirmou Sawyer.
– Heathcliff – falei. – Nas charnecas e tudo.
– Don Juan.
– Juan Valdez. – Gargalhei.
– Ã-hã. Já fez sexo na praia?
– Os verdadeiros moradores da Flórida não fazem sexo na praia – informei a ele. – Quente demais.
Sawyer cutucou a bochecha por dentro com a língua.
– Engraçadinha.
– Você poderia tentar a sorte com alguma daquelas garotas de Michigan.
– Certo. – Ele fez uma careta quando lhe devolvi o copo. – Olha isso – disse Sawyer, erguendo o canudo e rindo. – Você parece uma marmota. – Ele deitou, apoiando a cabeça na areia. Por um minuto, nenhum de nós falou. – Então, o que vou fazer quando você for embora, Reena?
Hesitei. Não estava esperando por isso. Não esperava jamais falar sobre aquilo, muito menos que Sawyer tocasse no assunto. Não vou ficar muito tempo por aqui, eu tinha dito a ele naquele dia, do lado de fora do restaurante, embora ultimamente parecesse que a formatura ia acontecer a qualquer minuto. Eu verificava o correio todo dia em busca de um envelope da Northwestern.
– Pegar garotas de Michigan, obviamente.
– Estou falando sério.
Bem.
– Não sei – falei com cuidado, escolhendo as palavras com toda a cautela de dezessete anos passados ouvindo nas entrelinhas. – Não espero que você, tipo... Não lhe peço nada.
A expressão de Sawyer se alterou, indecifrável. Ele não estava me olhando.
– Ai.
– Não, não quis dizer dessa forma – repliquei, voltando atrás. – Quero dizer, sei que você poderia ser, tipo... fiel. Se quisesse. Eu só... não acho que você ia querer, é isso. Além do mais – tentei, por fim, quando Sawyer ainda se recusava a responder –, isso é tudo completamente hipotético. Se eu entrar. O mágico se.
Sawyer deu de ombros, olhou para o mar. As ondas estavam vindo mais rápido agora: em breve, precisaríamos sair dali.
– Você vai entrar.
* * *
Ele estava certo. Eu entrei.
Sawyer foi me buscar na escola, e eu peguei as cartas no correio quando chegamos à minha porta, devagar como se estivesse passeando. Ele estava com os dedos presos nas alças de trás de meu jeans e peguei as contas, uma revista TV Guide.
E.
Um envelope grande. Da Northwestern.
– Ah – falei, mais como um suspiro. Sentei nos degraus, um punhado de catálogos e envelopes se espalhando na varanda. – Ai, meu Deus.
– Grande é bom, certo? – perguntou Sawyer, sentando-se ao meu lado, embora devesse saber a resposta, pois tinha se inscrito e sido aceito na faculdade no ano anterior. Mas ainda estava de óculos escuros e eu não conseguia ver a expressão em seu rosto. – Grande significa que querem você?
– Grande significa que me querem.
– É claro que querem você. Seriam idiotas se não quisessem.
Parabéns, dizia a carta.
A porta se entreabriu; Soledad estava de pé diante da tela vestindo uma regata rosa-claro, a pele toda bronzeada e os braços cheios de sardas.
– Como foi seu teste? – perguntou ela. E então: – Oi, Sawyer.
– Bom – respondi, virando de costas e olhando para ela. Estendi a carta. – Entrei na Northwestern.
O rosto de Soledad se abriu, um sorriso grande e satisfeito.
– Reena! – gritou ela, correndo para fora a fim de me abraçar. – Ah, Reena, querida, isso é maravilhoso!
Deus do céu, como eu queria ir. Queria fazer aquele curso de escrita, queria estudar fora – ter calças de gorgorão e ler romances russos espessos em cafés e descer a rua toda congelada em botas de neve amarelas durante o inverno. Eu queria ser alguém completamente diferente. Queria conhecer lugares nos quais jamais estive. Queria todas essas coisas desde que conseguia me lembrar, mas queria Sawyer há muito mais tempo do que isso, e, agora que o tinha e que a escolha estava diante de mim, não parecia tão fácil quanto um dia fora. Pensei na sra. Bowen, em todo o trabalho que tivemos para eu me formar mais cedo. Muitos jovens não querem perder o ano de veteranos.
Sawyer ficou na minha casa até tarde naquela noite. Nós dois ficamos no chão de meu quarto até quase onze horas, a porta escancarada de acordo com instruções de Soledad, jogando um jogo épico de buraco: ele era o único que tinha conseguido aprender o conjunto de regras complexo de Allie. Corri para baixo a fim de pegar mais sorvete no freezer, lançando um alegre “Não trapaceie!” por cima do ombro; voltei cinco minutos depois com um copão na mão e vi Sawyer não onde o havia deixado, no chão, mas de pé perto de minha escrivaninha, os tornozelos cruzados casualmente, lendo minha redação de inscrição na faculdade.
– Hã – falei, olhando para ele e tentando não me sentir irracionalmente surpreendida, tão exposta e estranhamente espionada. Afinal de contas, eu sempre disse a ele que o deixaria ler em algum momento. – Onde conseguiu isso?
– Estava no topo da pilha – disse Sawyer, assentindo para a enorme bagunça sobre a mesa: livros e provas, um e-mail da South Florida Living me pedindo para ir conversar com eles sobre aquele estágio. Ele não parecia nem um pouco mal. Estava sorrindo. – Está muito bom, Reena.
– É? – perguntei, deixando passar um tom esganiçado na voz. Eu sabia que estava bom, objetivamente falando; afinal de contas, tinha garantido minha vaga na Northwestern, mas era diferente ouvir Sawyer dizer aquilo. Apoiei o sorvete na cômoda. – Acha mesmo?
Sawyer assentiu e se sentou em minha cama; por instinto, olhei para o corredor, mas meu pai e Soledad ainda estavam lá embaixo.
– Por que não me deixou ler antes? – perguntou ele.
– Não sei – respondi, me sentando a seu lado. Rocei dois dos dedos de Sawyer com dois dos meus sobre a colcha. – Fiquei tímida, acho.
Sawyer sorriu.
– Não precisa ser tão tímida o tempo todo – disse ele. – Sou só eu. – Então, um segundo depois: – Você vai mesmo para todos esses lugares, hein?
Olhei para Sawyer, surpresa. Havia algo no modo como falou que me fez pensar que ele acabava de compreender, pela primeira vez, que eu iria mesmo partir no fim do verão. – É o plano – falei baixinho.
Sawyer assentiu de novo, afundando de volta nos travesseiros. Ele dormira ali tantas vezes que meus lençóis tinham começado a ficar com seu cheiro.
– Talvez eu também precise sair daqui – falou Sawyer depois de um momento.
Ergui as sobrancelhas, estendendo a mão para o sorvete. Apesar de vago, era a primeira vez que eu o ouvia falar sobre qualquer coisa parecida com um plano.
– Quero dizer – falei, inclinando o corpo para cima da cama a fim de pegar nossas colheres dos potes vazios no tapete –, ouvi dizer que Chicago é uma boa cidade para músicos.
– Ah, é? – Olhei para ele e Sawyer estava sorrindo, um sorriso largo e aberto. Senti algo parecido com esperança se expandir como um balão amarelo bem no fundo do peito. – Bem – disse ele, batendo a colher na minha como se talvez estivéssemos decidindo algo juntos. – Talvez eu precise conferir.