Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 9 de 53

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Duas Vezes Amor

Capítulo 9

Depois

Depois da igreja, levo Hannah para almoçar em casa e a prendo no cadeirão, então pico algumas frutas para mantê-la ocupada enquanto faço torradas com pão de trigo.

– Ei, moça, você consegue dizer banana? – pergunto a ela, e Hannah repete, obediente. – Boa menina – digo com alegria, erguendo a mão para um cumprimento. Por mais idiota que pareça, eu não me dei conta, quando estava grávida, de que Hannah teria uma personalidade de verdade, separada da minha, mas, é claro, ela aparece mais a cada dia: Hannah gosta de sorvete, de abacate e de dançar ao ritmo de Beyoncé no banco traseiro do carro, mexendo o corpinho com um entusiasmo surpreendente na cadeirinha. Ela fala cada vez mais agora, língua de bebê e partes de conversas que repete para mim. É tipo a coisa mais legal do mundo.

Soledad entra e deixa a bolsa no balcão, então pega um pedaço de banana da tábua. Reclamo.

– Isso é para Hannah.

– Desculpe. Estou morrendo de fome. – Ela passa a mão carinhosa na cabeça de Hannah. – Então, Lydia conversou comigo quando estávamos saindo – diz Soledad, entrando no assunto de uma vez. – Ela quer levar Hannah até a biblioteca esta semana para fazer um cartão para ela.

– O quê? Por quê? – Passo um pouco de manteiga de amendoim na torrada e corto em minúsculos triângulos, então os coloco na bandeja do cadeirão. – Aqui está, bebezinha. – Olho para Soledad e torço o nariz. – Por que ela precisa de um cartão? Tem um ano e dois meses. Eu pego livros para ela.

– Eu sei disso. Mas acho que Lydia quer passar um tempo com ela.

Fico tensa.

– É mesmo?

Sol olha para mim.

– Sim.

– Que especial.

Na infância, eu passava mais tempo com Lydia do que com qualquer de minhas tias e primas, e é por isso que não faz tanto sentido que eu jamais tenha superado o medo dela. Quando eu tinha entre dez e onze anos, ela, Soledad e eu costumávamos sair para almoçar em lugares caros e fazer a unha do pé, ler revistas de fofoca e escolher nossos vestidos preferidos em cada página. Lydia tem um estúdio de fotografia bem-sucedido e vasculha feiras de objetos usados em busca de tapetes antigos para os corredores; ela me comprou um colar de quartzo rosa incrível quando fiz treze anos. Lydia nunca agiu como a mulher dragão comigo, não exatamente, mas mesmo assim eu sempre a achei apavorante, tanto quanto uma tigresa ou uma professora que não conseguisse impressionar. Não consigo deixar de pensar que Lydia acredita que há algo de muito errado comigo.

Além disso, até esta manhã, ela demonstrou quase tanto interesse em Hannah quanto alguém demonstraria em decorar os detalhes mais meticulosos do contrato dos Termos e Condições do iTunes. Então. Não estou me sentindo muito generosa com Lydia LeGrande neste momento.

– Acho que estaremos ocupadas nesse dia – anuncio com soberba, e minha madrasta revira os olhos.

– Eu não disse em que dia seria.

– Bem, Hannah e eu temos uma vida social muito agitada.

Soledad dá um discreto riso de ironia.

– Reena.

– Sawyer voltou faz um dia, e de repente ela quer ganhar o prêmio de Avó do Ano? Sério? – Faço uma careta ao servir leite no copo com tampa de Hannah. – Quando foi a última vez que você a viu segurar esta criança? Nunca, é a resposta, caso esteja se perguntando. Nunca.

– Nunca – repete Hannah, animada, jogando a torrada com manteiga de amendoim no chão.

Soledad ergue as sobrancelhas.

– Reena – diz ela de novo, mais baixo dessa vez. – Calma.

– Calma, você. – Nossa, isso me deixa irritada. – Não. A resposta é não. E por que ela falou com você, mesmo? Se quiser falar comigo, pode falar comigo. Estou bem aqui. Estive bem aqui, se você se lembra, nos últimos dois anos.

Soledad assente devagar. Não sei se ela reprova ou se talvez esteja um pouco impressionada.

– Sim, querida – diz Soledad depois de um momento e beija minha têmpora antes de ir. – Eu lembro.

* * *

Meu celular toca assim que Hannah começa a soneca e o pego do fundo da bolsa, onde vibra sob um frasco de ibuprofeno e uma edição em papel-cartão de The Very Hungry Caterpillar. É Aaron. Sorrio.

– Oi, moço – digo, apoiando o celular entre a orelha e o ombro conforme disparo escada abaixo. Dou tchau para Soledad e corro pela porta dos fundos. – E aí?

– Esquina da Las Olas com Third Avenue – diz Aaron com um sorriso satisfeito evidente na voz. – Toma essa.

– O quê? Não mesmo. – Tem uma drag queen que se parece com Celine Dion e fica andando pela cidade, e, se Aaron conseguir provar que a viu, tenho que pagar o jantar, esse é o jogo. Aaron paga o jantar com mais frequência. – Tirou uma foto?

– Acha que é a minha primeira vez? – Ele gargalha. – É claro que tirei uma foto. O bife é por sua conta, Chicken Little. Ainda está de pé esta noite?

Hesito. Aaron é o irmão gêmeo de Shelby, aquele que se mudou para Nova Hampshire antes que eu pudesse conhecê-lo no colégio. Agora é mecânico de barcos em uma marina na Intracoastal, e provavelmente a melhor coisa que já aconteceu comigo no quesito namoro. Mesmo assim, o dia não chegou à metade e só quero me sentar, bem quieta, em uma sala sozinha.

– Que tal amanhã? – pergunto, adiando.

– Amanhã pode ser – diz Aaron, bem-intencionado. – Vá de carro até o centro enquanto isso, veja se consegue vê-la com seus próprios olhos. Vamos dividir a conta.

– Que generoso – brinco; as regras são minhas, afinal. – Escuta, vou trabalhar no turno do brunch, então preciso ir, mas...

– É, é. Não se preocupe – diz Aaron, então hesita: – Mas você está bem? Parece... Não sei. Alguma coisa.

Eu provavelmente poderia contar a Aaron sem problemas. Ele é um ser humano sensato, mais fácil de lidar do que jamais imaginei. É provável que ele não fique estranho por Sawyer ter surgido do nada. É provável que fique muito bem com isso.

Mas mesmo assim. Mesmo assim.

– Cansada – respondo, o que, tecnicamente, não é mentira. – Vejo você amanhã à noite.

– Onde diabo você esteve? – É a primeira coisa que Shelby diz quando chego no trabalho, dez minutos atrasada, antes de Oi ou Como vai? ou qualquer outra coisa remotamente civilizada. Ela voltou para casa no verão, pois está de férias da faculdade em Massachusetts, onde está aprendendo a ser médica e também a falar como no filme Uma mente brilhante. Shelby voltou de avião para Broward no meio do primeiro ano de faculdade para me ajudar a dar à luz Hannah, decorando os nomes de todos os ossos no corpo humano entre minhas contrações e convencendo as enfermeiras a ajudá-la com o dever de casa. Shelby tinha dezoito anos e foi minha parceira de parto. Nem todos têm uma amiga assim.

– Precisei colocar a bebê para dormir – digo, olhando ao redor do restaurante vazio. Só começamos a receber clientes ao meio-dia nos domingos, e ainda faltam quinze minutos.

Shelby faz uma careta.

– Ã-hã. – Ela olha para mim com determinação no momento em que o telefone da recepção toca, como se soubesse exatamente o quê e quem estou procurando, e não entende por que estou tentando dissimular.

– Bom dia, Antonia’s – diz Shelby, toda melosa, mas está me encarando como se meu cabelo estivesse em chamas, ao mesmo tempo que rabisca o livro de reservas, e fico de pé ali esperando pelo que virá a seguir.

– Primeiro – diz Shelby ao desligar; a voz melosa desapareceu e foi substituída pelo sotaque misturado que ela tem (Shelby viveu em vários lugares diferentes do país, e dá para ouvir na voz dela). – Sawyer Superesperma está na cozinha com Finch neste exato momento. Então, você provavelmente deveria começar por lá.

– Shh – sussurro, os olhos desviando na direção dos fundos do restaurante. Abro a boca para explicar, embora no fim só consiga pensar em: – Ele também estava na igreja.

– É – diz Shelby, cheia de atitude. – Aposto.

Encaro-a.

– O que isso quer dizer?

Shelby dá de ombros.

– Não sei. Não gosto do cabelo dele. Fica parecendo um paciente com câncer. – Shelby nunca esconde suas opiniões. – Por que não ligou para mim?

– Eu não sabia que a notícia se espalharia tão rápido – respondo e me sento em uma cadeira vazia. Senti dor de cabeça nas últimas vinte e quatro horas e penso, desejosa, no Advil em minha bolsa, embora neste momento em particular até mesmo encontrar um copo d’água pareça uma tarefa olímpica.

– Ah, nem brinque. – Ela para e olha para mim. – Contou a meu irmão?

Reviro os olhos.

– Não há nada para contar.

– Besteira. Reena – chama ela, a voz baixinha e urgente. Se for legal comigo, vou cair em lágrimas. Começo a sacudir a cabeça, mas lá vem ele pelas portas vaivém da cozinha. Mesmo depois de todo esse tempo, a sala parece orbitar em torno de Sawyer, como se ele tivesse um holofote perpétuo em todo lugar aonde vai. Penso, de repente: Ressuscitado dos mortos.

– Senhoritas – diz Sawyer, galanteador. Segura outra raspadinha, enorme, rosa e brilhante em um copo de plástico transparente.

– Senhoritas? – Shelby rosna. Minha amiga nunca teve medo de Sawyer. Nunca teve medo de quase nada, até onde eu sei. – Sério? Dois anos depois e o melhor que consegue dizer é senhoritas?

– Quis descontrair – diz ele, franzindo o nariz e sorrindo, meio tímido. Sua boca está levemente vermelha devido ao corante. – Exagerei? Exagerei.

– Um pouco. – Shelby revira os olhos. – Vou precisar de uma bebida.

– É mesmo? – Cade olha para a frente do outro lado do salão e franze a testa, mas não chega a fazer nada para impedi-la. Cade sempre foi um pouco apaixonado por Shelby. – Ainda nem abrimos.

– Bloody Marys! – diz ela alegremente e vai para o bar. – Farei um para você também, Kincade. – Shelby levanta a abertura do balcão e cutuca meu irmão para que saia do caminho. – E você, Sawyer? Quer uma bebida alcoólica bem forte para ajudar a diminuir a sensação de ser você mesmo?

Sawyer e eu rimos com deboche ao mesmo tempo; ele olha para mim, rindo, e ergue a raspadinha como um brinde em minha direção.

– Estou bem – diz ele com os olhos em mim.

– Sério? – As sobrancelhas de Shelby se erguem enquanto ela pega o suco de tomate. – Por quê? Parou de beber?

– Isso mesmo.

– Um atendente de bar que não bebe mais? Que romântico.

– É, bem. – Sawyer assente e desliza para um banquinho do bar. – Sou um cara romântico.

Ah, por favor. Cade parece prestes a vomitar por todo o restaurante e, sinceramente, não o culpo. Também estou me sentindo um pouco enjoada. Levanto e volto para o escritório para bater o cartão, então prossigo completando o máximo de tarefas insignificantes que encontro: dobro guardanapos, empilho louça, encho garrafas de ketchup, o que me enoja infinitamente. Mantenho as mãos ocupadas. Trabalho. Lotamos no brunch todo domingo, a fila de espera sobe pra uma hora ou mais, e, depois que Shelby abre as portas, são pães e sorrisos até o meio da tarde. Quando enfim tenho um minuto para olhar para o bar, Sawyer desapareceu em meio à multidão fervilhante de corpos, como se nunca tivesse passado por ali.