Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 17 de 53

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Duas Vezes Amor

Capítulo 17

Depois

– Não é um encontro – digo a Soledad na manhã seguinte, quando ela pede os detalhes sobre o passeio ao parquinho com Sawyer e Hannah. Ela está sentada à mesa bebendo seu chai preferido em uma caneca velha da Northwestern que encomendou milhões de anos atrás; sua pele bronzeada é macia e sem maquiagem. Eu odeio aquela caneca. – Ele só quer passar um tempo com Hannah, então falei que podia. – Faço cócegas nos pés de Hannah, que está na cadeirinha, e ela ri. – Beijo, por favor – peço, e espero até que ela me dê um antes de me virar para Sol. – Na verdade, acho que é um comportamento bastante adulto de minha parte.

Soledad me avalia por cima da bebida, como se achasse, talvez, que estou disfarçando.

– Soube que você e Hannah têm uma vida social muito agitada. – É tudo o que ela diz.

– Ah, você é hilária. – Faço uma careta.

Agora são três e meia da tarde e faz trinta e um graus lá fora. Sawyer e eu empurramos Hannah no balanço para bebês do parquinho da escola de ensino fundamental, o asfalto está quente e grudento sob nossos pés. Meu carro ainda está no mecânico, e Sawyer me buscou em casa, exatamente como costumava fazer. Count Basie tocava no rádio, e precisei me concentrar muito para olhar pela janela; não queria me partir em pedacinhos bem ali no assento do passageiro. Não lembro por que concordei com isso. Nem mesmo pareceu uma boa ideia na hora.

– Então, o que a fez mudar de ideia? – Sawyer quer saber agora. Ele veste jeans e uma camiseta, boné de beisebol baixo sobre a testa, e fico chocada ao perceber que Sawyer não parece um astro de rock ou um namorado fujão, mas um pai. Ele toma mais uma raspadinha e trouxe uma para mim também, sabor Coca-Cola, que está congelando, suando agradavelmente em minha mão.

Ergo as sobrancelhas, dificulto as coisas.

– Sobre o quê?

– Não sei – responde ele, assumindo meu posto quando me afasto do balanço. Estamos trocando de lugar há quase meia hora, com a cadência de um metrônomo. Hannah poderia se balançar durante dias, as perninhas gorduchas de bebê chutando alegremente; ela descobriu como bater palmas alguns meses atrás e de vez em quando bate as mãos juntas com algum tipo de felicidade secreta de bebê. – Isto. Eu.

Sacudo a cabeça.

– Não mudei de ideia quanto a você.

Sawyer ri com deboche.

– Ai.

– Sawyer... – Perco a compostura, bufando um pouco. – Estou tentando, sabe?

– Eu sei – responde ele.

Empurramos em silêncio, pacientes. O sol está forte. Meus pulmões doem como se estivessem cheios de poeira, secos e estéreis.

– Qual foi o melhor lugar que visitou? – pergunto, por fim, não tanto porque quero saber. É quase mais seguro não saber, acho. Mas não consigo pensar em outra coisa para perguntar, e o silêncio me dá nos nervos. Há um estêncil do mapa dos Estados Unidos, com tinta preta, no asfalto do playground. Imagino se pequenas coisas como essa algum dia deixarão de me fazer ficar triste por causa de tudo o que perdi. – Qual foi seu preferido?

Sawyer olha para mim uma vez, parecendo surpreso, então pensa por um momento.

– Nashville – decide, por fim. – Você gostaria muito de Nashville.

Murmuro um pouco, misteriosa.

– É?

– Sim, Reena – responde Sawyer. – Acho que gostaria.

– Fora – diz Hannah muito claramente, e Sawyer ri.

– Fora? – repete ele.

– Fora!

– Tudo bem, então. Para fora. – Sawyer a tira do balanço e a coloca no chão; Hannah caminha com alegria na direção da caixa de areia, rápida e sem equilíbrio. – Minha mãe diz que tem sido bom para ela – diz Sawyer. – Para Hannah, quero dizer, ter todos os avós por perto e você e... – Ele sorri, um pouco envergonhado. – Ela disse que Hannah é muito inteligente.

Bem, isso chama minha atenção.

– Sua mãe disse isso? – pergunto, incrédula... Hannah é inteligente, sim, mas se isso tem alguma coisa a ver com o interesse aguçado demonstrado pelos avós, então sou o cardeal de Roma. – Sério?

– Hã, sim. – Sawyer de súbito parece desconfortável, como se achasse que pisou um calo... Não é uma expressão de que me lembro de quando estávamos juntos, ele era tão seguro de si na época. – Por que, isso não é...?

Aquilo me espanta um pouco, embora não tanto quanto se imaginaria. Lydia deve estar tentando usar todos os freios que pode para fazer Sawyer ficar desta vez, e se isso significa convencê-lo de que todos se dão muito bem por aqui, que somos todos um tipo de família moderna e heterogênea... bem, então, que seja. Mesmo assim, por algum motivo, não consigo delatá-la, não de forma explícita: parece trabalho demais por nada, além disso, não está totalmente descartada a possibilidade de que uma parte bem pequena de mim torça para que ele fique.

Dou de ombros.

– Não, ela é realmente peculiar – respondo, sem me incomodar em especificar de qual ela estou falando ou o que esse peculiar possa ser. Assinto para Hannah, que me chama da beira da caixa de areia. – Estou indo, docinho de côco!

Sawyer me olha como se não engolisse totalmente o que estou dizendo; mas não insiste, como se tivéssemos um acordo tácito de sermos legais um com o outro naquela tarde quente e ensolarada.

– Então, ei – diz Sawyer ao seguirmos Hannah pelo parquinho, o sol reluzindo na nuca dela. A bebê se agacha para pegar um punhado de areia, quase perdendo o equilíbrio, e estendo a mão para segurá-la. – Ainda escreve?

Começo a rir sem controle, uma gargalhada baixa e irritada, como a Bruxa Má do Oeste. Tento não me sentir amarga. Nem sempre funciona.

– Não – respondo. – Na verdade, não.

Sawyer franze a testa.

– É uma pena.

– Não tem problema – digo, esperando que ele mude de assunto, mas insiste:

– Por que parou?

– Porque sim. – Dou de ombros e tiro o protetor solar da bolsa da bebê. Talvez essa nem seja a resposta verdadeira, mas no momento é o melhor que posso fazer. – Não se pode ser escritora de viagens sem jamais ter ido a lugar algum.

Sawyer leva um tempo para absorver a informação. Com o boné, é um pouco difícil ver o rosto dele.

– Entendo – responde Sawyer, depois de um minuto, e não faz mais nenhuma pergunta. Em vez disso, olha para o balanço, para o campo de beisebol, para Hannah. Ele se agacha na areia e cava.

Chegamos em casa e papai está preparando um lanche na cozinha, sobras de frango e arroz da noite passada, sem pele e com pouca gordura, como Soledad sempre prepara para ele. O rádio canta, sintonizado na estação pública de jazz de Miami da qual ele gosta.

– Oi – digo, colocando Hannah no cadeirão e afastando os cabelos encharcados de suor do rosto dela. Cato alguns cereais que ela espalhou hoje cedo e jogo tudo na pia.

Meu pai assente para mim, impassível. Os remédios para colesterol e pressão dele estão alinhados no balcão. No último ano, ele ganhou peso.

– Estávamos no parque – digo.

– Eu soube. – Ele assente de novo.

– Com Sawyer – continuo.

– Eu soube. – Mãe de Deus, pela terceira vez.

Ah, pare com isso, quase disparo. Em vez disso, respiro fundo, acalmando-me.

– Tudo bem – digo, jogando a toalha. Com a possível exceção de Soledad, não somos emotivos na família. Mesmo assim, papai vence qualquer um no silêncio, mesmo eu. – Podemos apenas... falar sobre o fato de que isso está acontecendo?

– O quê?

Isso me irrita.

– Você sabe o quê – respondo, um tom alterado na voz que não consigo disfarçar. – Ele estar aqui. Tudo isso.

Papai suspira.

– Reena, não vejo motivo para conversar. Você sabe como me sinto. Você faz as próprias escolhas. Faça o que quiser. – O jornal da manhã está sobre a mesa, e ele o abre no caderno internacional. – Tem comida – diz ele, sem olhar para mim.

– Tudo bem – respondo, por fim, e abro a geladeira. – Tá... tudo bem.

Faz pouco tempo, na minha aula de artes, lemos sobre a Renascença e sobre como, durante um bom tempo depois dela, foi quase impossível para os artistas italianos fazerem qualquer coisa. Toda aquela história já estava ali, eles pensaram. Por que tentar?