Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 16 de 53

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Duas Vezes Amor

Capítulo 16

Antes

Sawyer basicamente desapareceu no verão seguinte à morte de Allie, ficou tão recluso que parecia quase subterrâneo, afogando as mágoas em bares no lado mais indecente de Broward e se metendo em brigas e encrencas. Em junho, ele foi preso por embriaguez e perturbação da ordem. Em julho, acabou com a mão quebrada. Em agosto, enfim disse aos pais que, por acaso, não tinha a menor intenção de ir para a faculdade como deveria, o que, embora não fosse bem uma novidade para ninguém que acompanhasse a vida dele na cidade, deixou Roger e Lydia praticamente apopléticos e transformou o restaurante em pano de fundo para todo tipo de dramalhão familiar dos LeGrande.

– O pai dele pirou – contou Cade ao voltarmos para casa uma noite, a chuva batendo com força e sem parar no para-brisa, os limpadores rangendo ritmicamente. É um mito que garotos não gostam de fofocar: Cade, em particular, não conseguiria guardar um segredo para salvar a própria vida. – Disse que ele precisaria sair de casa se não fosse para a faculdade. Investiram muito dinheiro para a faculdade dele.

– Foi o que imaginei. – Os LeGrande eram mais ricos do que nós, eu sabia, mas não ricos o bastante para que coisas como depósitos para a faculdade não importassem. Mesmo assim, eu suspeitava que Lydia ficaria mais chateada do que qualquer outra pessoa: Sawyer era, afinal de contas, a única alma viva que ela jamais criticava. Mesmo que Lydia jamais admitisse para ninguém, eu só imaginava como ela se incomodava com o desleixo dele.

Isso também me irritava, obviamente, mas eu não diria a ninguém.

Porém, o lance da faculdade meio que fazia sentido para mim. Mesmo antes de tudo acontecer, eu me lembro de pensar que era estranho ele ir para a Universidade do Estado da Flórida como qualquer outro veterano do estado – que medíocre, como se alguém como Sawyer devesse ir para campos muito mais verdes do que festas com barris de cerveja ou seminários de calouros sobre a história da civilização ocidental. Ele deveria assombrar cafés em Nova York ou tocar em bares na Califórnia, arrastando-se por aí, sendo lindo e esperando ser descoberto.

Ou, talvez, viajar pelo mundo com alguma garota que gostasse desse tipo de coisa.

Não importa.

– Então – falei, exibindo uma expressão neutra cuidadosamente dissimulada e olhando para Cade pelo canto do olho. – Onde ele vai morar?

Cade deu de ombros.

– Com uns amigos em Dania, acho. Tem um monte deles morando em algum apartamento caindo aos pedaços. Roger ficou todo irritado com isso também, pois, ao que parece, dá para sentir o cheiro da metanfetamina cozinhando no final da rua.

– Parece bastante atraente. – Tirei os sapatos, coloquei os pés descalços no painel. – Ele disse por que não vai fazer faculdade?

– Não sei. Ele está bem perturbado, acho. – Meu irmão hesitou, me olhou meio nervoso. Não conversávamos muito sobre Allie em minha casa. Eu tinha a impressão de que todo mundo sentia um pouco de medo do que eu poderia fazer se a mencionassem, estourar de repente, feito uma bomba, espalhando vidro e fragmentos por todo canto. Três meses enterrada e era quase como se ela nem tivesse existido, como se talvez só tivesse sido minha amiga imaginária. – Por causa de tudo o que aconteceu.

– Certo. – Engoli em seco o nó repentino em minha garganta. – Bem – falei com alegria. – A Universidade da Flórida está cheia de perturbados. Ele teria se encaixado direitinho.

Uma coisa que Sawyer definitivamente não fazia era aparecer para os turnos no restaurante, e é por isso que fiquei tão surpresa quando fui trabalhar no turno do jantar uma sexta-feira de setembro e o encontrei preparando um mojito no bar.

– Oi – disse ele ao pegar um pano e limpar uma gota da superfície brilhante, mal olhando para a frente. – Seu pai disse para procurá-lo quando chegasse.

– Você ainda trabalha aqui? – disparei, deixando a mochila deslizar do ombro. Eu estava acostumada a não ver mais Sawyer àquela altura, acostumada com a ideia de que jamais falaríamos sobre nada: que eu passaria os doze meses seguintes sentindo culpa, confusão e tristeza, e então iria embora. Por um segundo, pensei naquela noite no estacionamento, o gosto de sorvete de chocolate e a sensação dos dedos dele no meu pescoço.

Você me beijou, pensei, olhando para Sawyer. Você me beijou e então Allie morreu. Por um segundo, era como se ela estivesse sentada no bar diante de mim, o queixo fino apoiado em uma das mãos magras – nós duas observando Sawyer, como costumávamos fazer, na época em que observá-lo parecia inofensivo.

Agora ele inclinava a cabeça, os lábios mal se contraíam.

– É bom ver você também – disse Sawyer para mim, levando-me de volta para o presente. E assim, do nada, Allie se foi.

– Não foi o que eu quis dizer. – Corei. – É só que... você sabe. Faz um tempo.

– Acho que sim. – Sawyer sacudiu a coqueteleira algumas vezes, despejou o conteúdo sobre gelo e acrescentou duas folhas de hortelã para enfeitar. Sawyer trabalhava no bar do Antonia’s praticamente desde a puberdade; ele poderia preparar drinques dormindo. – Sentiu minha falta?

– Não – respondi de imediato. Olhei em volta, envergonhada... ainda era cedo, três ou quatro pessoas embromando com as bebidas no bar. The Best of Ella Fitzgerald tocava nos alto-falantes, música da tarde. – Não sei.

Peguei minha mochila de volta, pronta para encontrar meu pai, mas Sawyer não tinha terminado.

– Eu a vi um dia desses – disse ele para mim. – No carro, perto do mercado de pulgas.

Hesitei.

– O que você estava fazendo no mercado de pulgas?

– Eu não estava no mercado de pul... tive ensaio da banda – respondeu Sawyer, como se correr atrás de antiguidades e colecionáveis fosse mais ridículo do que o resto da porcaria estilo James Dean/James Franco que ele andava fazendo. – Nosso baterista mora por lá.

– Como se toca piano com a mão quebrada? – perguntei, e Sawyer deu um sorriso irônico.

– Não está mais quebrada, princesa. – Ele movimentou a cabeça indicando um banquinho vazio para eu me sentar e, depois que fiz isso, empurrou alguns pretzels na minha direção. Olhei para o relógio acima do bar, tinha alguns minutos até precisar bater o cartão.

– É o que anda fazendo, em vez de vir trabalhar? – perguntei com cautela. – Tocando com a banda?

– Quer dizer, em vez de buscar uma educação superior?

Dei de ombros.

– Em vez de... tanto faz.

– Acho que sim – disse Sawyer. – Não sei. Tocamos na Prime Meridian às vezes. – Ele ergueu as sobrancelhas quase em desafio. – Você deveria ir.

A Prime Meridian era uma boatezinha com cara de espelunca à beira da estrada em Dania, com cerveja barata e leões de chácara que não se incomodavam em pedir identidade. As pessoas eram esfaqueadas na Prime Meridian.

– Por que não toca aqui? – perguntei, sem mais comentários.

Sawyer riu com deboche, como se aquilo fosse hilário.

– Meu pai adoraria, tenho certeza.

– Por quê? – disparei de volta. – Você é tão ruim assim?

– Calma lá. – Ele riu de novo. – Somos incríveis, Serena.

– Bem – falei, enrolando. – Tenho certeza de que são.

Um cara no canto do bar pediu um uísque com soda; Sawyer se levantou e esticou o braço na direção de uma garrafa na prateleira do alto, e a camiseta dele subiu pelo tórax e revelou uma pequena tatuagem curva acima do cós da calça jeans, um símbolo verde do infinito que reconheci do livro de cálculo.

– Isso doeu? – perguntei quando Sawyer jogou gelo em um copo.

– O que doeu?

Gesticulei vagamente.

– Nas suas costas.

– Ah. Não. – Sawyer entregou a bebida ao cara e se inclinou sobre o bar como se fosse me contar um segredo. Senti cheiro de madeira polida e limões. – Sou muito macho.

– Certo – respondi, aproximando-me um pouco também, sem intenção. – É claro.

Sawyer deu dois tapinhas sobre o balcão, batucando, e esticou o corpo.

– E você, princesa? – perguntou ele com uma voz que fazia parecer que talvez estivesse brincando, talvez não. – Tem tatuagens das quais ninguém sabe?

Eu ia abrir a boca para responder quando meu pai passou pelas portas de correr no fundo do restaurante. Ele parou ao nos ver no bar.

– Reena – disse ele, determinado, e acho que estava mais surpreso do que qualquer outra coisa. Mas, por outro lado, jamais conversamos sobre o que eu estava fazendo com Sawyer naquela noite no hospital. E, pela cara dele, dava pra ver que não gostava do que via. – Sabe que não quero você sentada aí quando temos fregueses. Venha.

– Desculpe – falei, descendo do banquinho do bar. Minha pele parecia repuxada e quente. Não olhei para Sawyer ao seguir para o escritório, dois minutos atrasada para bater o cartão.