Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 8 de 53

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Duas Vezes Amor

Capítulo 8

Antes

Eu não tinha amigos no primeiro ano.

Tudo bem, estou sendo dramática. Eu tinha amigos. Não almoçava sozinha sentada no vaso sanitário ou nada assim. Na maior parte dos dias, eu simplesmente não almoçava. Ia para a biblioteca. Ficava lendo nas arquibancadas. Quando ia ao refeitório, ficava sentada com Shelby, a nova anfitriã do restaurante. Shelby estava no segundo ano e tinha acabado de se mudar de Tucson com a mãe e o irmão gêmeo, Aaron, embora ele só tivesse precisado de uns dois dias no pântano pestilento do sul da Flórida para decidir que de modo algum poderia morar ali. Aaron pegara um avião para Nova Hampshire para morar com o pai antes de as aulas começarem. Os cabelos de Shelby pareciam uma cenoura neon em chamas, e ela era muito boca-suja; usava minúsculos brincos prateados até o alto da orelha esquerda e estava namorando a capitã da equipe de futebol feminino. Eu automaticamente presumi que ela me considerava muito chata, até o dia em que Shelby apoiou a bandeja bem ao lado da minha e exigiu saber qual era o problema com a comida naquele lugar esquecido por Deus, como se talvez tivéssemos sido amigas a vida toda.

– É uma droga – falei para ela, piscando, agradavelmente surpresa. – Esse é... o problema, basicamente.

Shelby sorriu e me entregou metade do Kit Kat que estava abrindo.

– É o que parece.

Certa tarde, ela me deu uma carona para o trabalho, do último volume dos alto-falantes do Volvo caindo aos pedaços saía o som de uma banda de rock feminina dos anos 1990, enquanto saíamos do estacionamento, ela riu com ironia e gesticulou na direção do para-brisa com o queixo.

– Aquele é o atendente do bar? – perguntou Shelby, semicerrando os olhos um pouco. – Do restaurante?

Segui o olhar dela até a lateral do prédio, meio escondida por uma fileira de arbustos marrons e secos: na sombra projetada pela placa acima da porta lateral da academia, Allie e Sawyer estavam grudados contra o concreto, a palma da mão dele deslizando, determinada, para baixo da saia dela.

– É – respondi devagar. Por um segundo, senti dificuldade para respirar, como se houvesse algo pouco familiar ocupando espaço em meu peito ao lado do coração e dos pulmões. – É, é ele.

– Pessoas se esfregando em plena luz do dia – disse Shelby alegremente, embicando o carro para o trânsito. – É assim que você sabe que os terroristas não venceram. – Então, ela olhou para mim, franzindo as sobrancelhas claras. – O quê? – perguntou Shelby. – Merda, desculpe. Você é uma daquelas pessoas que odeiam piadas de terroristas?

Isso me fez rir.

– Não odeio nada – menti, olhando pela janela por mais meio segundo antes de inclinar a cabeça para cima a fim de olhar para as nuvens gordas e pesadas.

O ano prosseguiu dessa forma – Halloween, Ação de Graças. Finalmente, consegui licença para dirigir. Passei muito tempo com meu diário. Soledad me observava com cuidado, catalogava os parâmetros cada vez mais estreitos de minha vida adolescente como uma antropóloga conduzindo um estudo de campo: escola, trabalho, casa. Enxague e repita. Não contei a ela sobre Allie e Sawyer – jamais contei a ela sobre Allie e eu – mas isso não a impediu de saber.

– Quer conversar sobre isso? – perguntou ela uma vez, um sábado à noite, depois de três episódios de uma maratona de Bridezillas na TV a cabo.

Dei de ombros como se não fizesse a menor ideia do que ela queria dizer.

– Falar sobre o quê? – Imaginei, distraída.

Soledad revirou os olhos.

Liguei para Allie uma vez, para constar. Ela não atendeu, e não deixei recado.

Também para constar: ela não me ligou de volta.

A solução, sempre pensei, era sair da cidade.

Sempre gostei de ler sobre lugares estrangeiros – eu assinava a National Geographic desde os dez anos –, mas naquele inverno, eu estava completamente insaciável, acampada na cama cercada por livros de viagens da biblioteca, as capas de celofane empoeiradas. Eu planejava. Fazia listas. Ficava acordada a noite toda clicando em blogs e mais blogs, histórias e fotos de mulheres que passaram anos no Marrocos, na Tanzânia e no sul da França – então, mapeava meu próprio itinerário; traçava a rota com caneta de feltro prateada como algum tipo de Rota da Seda imaginária.

Eu queria tanto, tanto, ir embora.

– Aonde vai hoje? – perguntou meu pai certa noite ao surgir à porta de meu quarto segurando uma água tônica com limão. Ele estava tocando piano no andar de baixo e em algum lugar da minha cabeça eu havia registrado distraidamente o silêncio, do modo como percebemos a lava-louças desligando.

– Chicago – respondi, animada, desviando o olhar das fotos de Oak Park no laptop. Meu pai tinha sofrido um enfarte uns dois anos antes, caiu no estacionamento ao sair da minha formatura do sétimo ano do ensino fundamental; eu tentava demonstrar entusiasmo com ele sempre que podia. – Ou talvez Copenhague.

– Chicago é uma cidade de música muito boa – respondeu meu pai, parecendo pensar a respeito, como se fosse um lugar para o qual eu pudesse mesmo ir. – Mas faça uma parada na cozinha primeiro. Soledad está fazendo pesto.

Sorri, fechei o computador e saí rolando da cama.

– Já vou.

Certa manhã, naquela primavera, recebi um bilhete na sala de aula me pedindo para passar no Aconselhamento até o fim do dia, o que me deixou sobressaltada e inquieta. Nunca tinha sido chamada ali antes. Imaginei se poderia estar em apuros por alguma coisa que não sabia que tinha feito, ou se algum bom samaritano tinha expressado preocupação com minha habilidade de lidar com a tirania do ensino médio em geral.

– Notamos que você é socialmente inepta – imaginei a conselheira dizendo, seu rosto marcado inclinado para o lado a fim de demonstrar estar prestando atenção. – Você olha pela janela constantemente. É obsessiva, passa tempo demais imersa em seu mundo.

– É mesmo? – Imaginei minha resposta ao colocar a mochila no ombro e seguir pelo corredor a caminho da aula de inglês. – Diga algo que não sei.

Passei a manhã toda com um pequeno nó de ansiedade no peito, então, hesitante, bati à porta da sala no início do intervalo do almoço. O ar tinha cheiro de café e poeira. Eu esperava encontrar a sra. Ortum, a conselheira mais velha e com aparência levemente excêntrica que chefiara todos os nossos seminários do nono ano e cujo marido, ao que parecia, ganhara cem milhões de dólares em ações de empresas tecnológicas; mas no lugar dela estava uma mulher jovem de cabelo preto que eu jamais tinha visto, e uma plaquinha na qual se lia sra. Bowen fora colocada sobre a mesa.

– Oi, Serena – disse ela, com um sorriso caloroso. – Entre. – Eu não fazia ideia de como ela sabia quem eu era, mas a mulher era bonita e parecia inteligente de um modo que logo me fez querer agradá-la. Percebi que estava sorrindo.

– Você não está em apuros – disse ela assim que me sentei. As mangas da camisa de botão branca engomada dela estavam dobradas até a metade dos braços. – Todos os que recebi até agora acham que estão em apuros. – Ela pegou uma pasta e deu batidinhas com ela contra a mesa por um tempo. Lendo de cabeça para baixo, vi que continha meus arquivos. – Sou nova aqui, então só estou percorrendo minhas listas para tentar conhecer todo mundo que puder.

Ela me perguntou como estavam as aulas e se eu trabalhava depois da aula, anotando em um bloco amarelo conforme eu respondia o mais vagamente possível. Um anel personalizado turquesa brilhante reluzia no dedo médio de sua mão esquerda. Havia uma moringa com água na mesa ao lado dela, do tipo chique que usamos no restaurante, com fatias redondas de limão flutuando dentro. Parecia estranhamente glamouroso para a escola. A maior parte do corpo docente carregava xícaras de plástico para a viagem com logomarcas de bancos estampadas.

– Já pensou na faculdade? – perguntou ela, por fim, recostando-se na cadeira de aparência desconfortável e me olhando com esperteza. Apoiou a caneta e o papel na mesa.

– Um pouco – respondi, o que era mentira. Na verdade, eu pensava na faculdade constantemente, em aonde poderia ir e nas pessoas que conheceria lá. Havia, naquele exato momento, um catálogo de cursos da Northwestern na minha escrivaninha de casa, tão folheado que estava quase aos pedaços, com o programa de literatura marcado com um post-it amarelo neon. Eu poderia relacionar de cor os requisitos da faculdade de letras e ciências deles. – Mas estou apenas no primeiro ano, então... Imaginei que ainda tinha algum tempo.

– Bem – disse a sra. Bowen –, é sobre isso mesmo que eu queria conversar com você. Andei olhando seu histórico, Serena, e é muito impressionante. Uma média geral de 4,0 em todos os semestres desde que entrou aqui, várias honras desde o ano passado. Gostaria de vê-la participar de uma ou duas atividades extracurriculares, mas a questão é que, se ficar nesse caminho, continuar participando das aulas avançadas e se der bem nelas, pode ser elegível para se formar um ano antes. – A conselheira inclinou o corpo um pouco à frente, de modo quase conspirador. Ela parecia animada por mim. – Gostaria de se empenhar para isso?

Levei um minuto para absorver a informação. Um ano antes. Elegível para se formar. Encarei a mulher por um momento, hesitante, e podia ouvir os ruídos da copiadora emperrando na recepção, junto com um droga frustrado da assistente.

A sra. Bowen interpretou minha hesitação como relutância; ela inclinou a cabeça reluzente para o lado, com a mesma pose empática que eu imaginara mais cedo.

– É claro que obviamente não precisa – acrescentou ela. – Conheço muitos alunos que não gostariam de deixar de ser veteranos, de abrir mão dos benefícios. Só queria informá-la que tinha a opç...

– Eu adoraria – interrompi depressa. Pensei em aviões e enormes e frias salas de palestras, a imaginação correndo solta. – O que preciso fazer?

O que a sra. Bowen precisava que eu fizesse era bem simples, pelo menos por enquanto: continuar indo bem nas aulas, fazer uma lista das faculdades para as quais queria me inscrever e comprar um livro a fim de estudar para o exame SAT.

– Vamos encontrar um trabalho voluntário para você no verão – prometeu a sra. Bowen, os olhos brilhando como se ela estivesse tão animada com a perspectiva de fazer aquilo dar certo quanto eu. – Para engordar um pouco seu histórico.

Em maio, duas das garçonetes pediram demissão, então, além de estudar mais, trabalhei como uma escrava, três noites por semana e turnos duplos todo fim de semana. Eu vivia de calça preta e camisa branca engomada. Meu pai e Roger compraram o Antonia’s quando eu era pequena, e eu atendia às mesas há quase todo esse tempo, conhecia o cardápio e os clientes regulares de cor. A verdade é que sempre gostei de estar lá: o lugar tinha teto de alumínio e ladrilhos como os do metrô, as toalhas de mesa brancas de linho pareciam centenas de vestidos de comunhão. Havia sempre uma banda ao lado do bar.

Os caras tocando naquela noite estavam entre os meus preferidos, um grupo quase ridículo de velhotes que tocava bastante Sam Coke, e eu cantava junto baixinho enquanto passava alguns cartões de crédito pelo computador na lateral do bar. Em algum momento durante o segundo verso, percebi que não estava sozinha: Sawyer inclinara-se contra a abertura do balcão e me observava, um sorriso secreto e irônico no rosto.

Fechei a boca, corada e surpresa: Sawyer nem estava trabalhando aquela noite. Ele não estava escalado. Eu não tinha feito nada legal no cabelo. Ele vestia jeans e uma camiseta, roupas de rua. Emanava o calor do lado de fora.

– Não implique – sugeri, recobrando a consciência depois de um minuto, tentando muito não demonstrar que meus sentimentos por ele não tinham diminuído nem um pouco, embora Sawyer estivesse namorando Allie há mais de sete meses. – Não é legal.

Sawyer deu de ombros e apenas continuou de pé; parecia que não tinha nenhum outro lugar no mundo para estar além de ali.

– Não estou implicando – disse ele para mim, e, na verdade, não parecia mesmo estar. – “Bring It On Home to Me”? É uma música boa.

– É uma ótima música – corrigi, e ele sorriu.

– Você parece seu pai.

– Não. Ele gosta de Otis Redding. – Rasguei a nota da impressora e sorri para o cliente. – O que está fazendo aqui?

Sawyer inclinou a cabeça.

– Procurando você.

– Ah, tá. – Ri com escárnio, colocando os cartões de volta na carteira da conta. – Sua mãe esteve aqui mais cedo. – Lydia não estava tão envolvida na correria diária do restaurante, embora as digitais dela estivessem por toda parte se você soubesse onde procurar: os retratos antigos formais fixados às portas dos banheiros, as lâmpadas pendendo acima do bar. Lydia era uma artista, uma fotógrafa, mas a família dela fizera fortuna com uma rede de churrascarias de sucesso em toda a Costa Leste, e ela provavelmente tinha mais conhecimento sobre o mercado de restaurantes do que Roger ou meu pai. Lydia aparecia de vez em quando, cautelosa, com uma expressão no rosto que parecia computar quantias secretas na mente. Os ajudantes de garçom morriam de medo dela; Shelby a chamava de Senhora Dragão pelas costas. Eu procurava ficar longe de Lydia.

A única pessoa para quem Lydia jamais lançava o olhar gélido e preciso de artista era Sawyer. Ele era o único filho dela, o Maior Amor de Lydia: Sawyer fizera uma cirurgia quando era bebê para consertar, literalmente, um buraco no coração; na verdade, Allie e eu sempre achamos isso insuportavelmente romântico. Desde que conheci Lydia, ela sempre foi ferozmente protetora em relação ao filho.

– Ela deve obrigar a pessoa a fazer um exame de sangue antes de permitir que seja namorada dele – Allie imaginou em minha casa, certa noite, e nós duas caímos na gargalhada; no fim, isso não foi impedimento para ela.

Eu estava prestes a voltar para o salão quando Sawyer estendeu a mão e me segurou pelo pulso.

– Reena. – Havia algo urgente e inesperado no modo como ele chamou, como se quisesse me contar um segredo e depois mudasse de ideia. – Por que não a vejo mais por aí?

Olhei para Sawyer, incrédula. Ele ainda estava segurando meu braço.

– Talvez eu seja melhor em me esconder do que você pensava.

Sawyer levou tanto tempo para responder que tive certeza de que ele não fazia ideia do que eu estava falando: fazia um bom tempo desde aquela noite no jardim de Allie, e Sawyer provavelmente tinha se esquecido na mesma hora. Eu estava prestes a me virar quando ele sorriu.

– Talvez – respondeu Sawyer, soltando meu pulso, mas sem se afastar. – Mas estou falando sério.

– É, bem. – Senti as sobrancelhas se arquearem. – Eu também.

– O que vai fazer hoje? – perguntou ele.

Inclinei a cabeça e olhei em volta. A banda tinha prosseguido para “It’s All Right”. Vi papai conversando com alguns fregueses regulares do outro lado do bar.

– Vou trabalhar – respondi.

Sawyer revirou os olhos para mim.

– Obrigada, princesa. Quis dizer depois disso.

– Vou para casa?

– Vamos fazer alguma coisa.

– Com você? – disparei, e Sawyer deu um sorrisinho preguiçoso como o do gato de Cheshire ao desaparecer da árvore.

– Sim, Reena. Comigo.

Durante os anos que eu o conhecia – e eu conhecia Sawyer, mais ou menos, desde que nasci – ele nunca tinha me chamado para ir a lugar algum. Levei um segundo para me recuperar. Mesmo assim, fiz que não, por instinto, como algo que eu soubesse dentro de mim. Pensei na festa na casa de Allie, em Lauren Werner e na multidão de gente com a qual eu não sabia lidar.

– Ouça, Sawyer. Allie e eu não... – deixei a voz sumir, tentei de novo, imaginei o que ela teria dito a ele. – Quero dizer, não estamos... andando juntas.

Sawyer franziu a testa, e lá estava aquela expressão de novo, como se ele tivesse vindo me dizer algo específico.

– Eu não pensei em chamar Allie – respondeu ele.

Ah.

– Ah – falei. Olhei para ele por um momento e depois para meu pai com o café, e ele sorria. – Sawyer...

– Por favor, Reena – disse Sawyer, já um pouco impaciente. Tive a sensação de que ele não insistiria mais. – Sou só eu.

Pensei em Allie e em coisas valiosas sumindo: em tubos de gloss enfiados em bolsos e paixões roubadas bem debaixo do nariz. Por mais que eu tentasse justificar, aquele era um crime hediondo na amizade. Era traição, mesmo que Allie a tivesse cometido primeiro.

– Sim – respondi. Atrás de mim, a música estava terminando, uma última nota e o ruído de um tambor. – Sim, posso ir.