Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 3 de 53

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Duas Vezes Amor

Capítulo 3

Depois

– Sawyer LeGrande voltou?

Estou lívida quando entro batendo os pés em casa, duas horas inteiras antes do habitual, ao voltar da loja de conveniência, irrompendo na cozinha com a graça e o temperamento de uma granada. Estava dirigindo em círculos de pânico pela tempestade como se, caso não me mantivesse em movimento, algo ruim fosse acontecer, como se o acaso favorecesse os que se movimentam e a sorte já estivesse lançada. Do lado de fora, as palmeiras se dobram em súplica. Meu carro parou em três sinais diferentes.

– O quê? – Soledad recobra a atenção com um estalo. Ela estava cortando cenouras no balcão e a faca cai com um ruído na pia; Soledad xinga baixinho em espanhol antes de levar o dedão à boca. Hannah, que está sentada na cadeirinha de bebê macerando um tomate sem casca da horta de meu pai, começa a gritar. Ela é pequena, tem cabelos castanhos e é determinada, minha menina; quando tenta de verdade, o grito dela pode parecer com o de uma criatura dez vezes maior que ela.

– Mama – choraminga Hannah, aquele último e prolongado a dito como se o universo tivesse sido completamente injusto com ela. Aconchego Hannah contra o corpo e começo a caminhar de um lado para outro como uma felina nervosa, uma leoa ou um lince.

– Está tudo bem – minto, sussurrando absurdos até ela se acalmar, e a polpa aquosa escorre de seus punhos gordinhos. – Aquilo foi assustador. Eu sei. Está tudo bem. – Olho de novo para minha madrasta, que ainda mantém o dedo sangrando na boca e me encara incrédula. – Sawyer LeGrande – repito, como se houvesse algum outro Sawyer e ela não soubesse de quem estou falando. – De pé na frente da máquina de raspadinhas.

Soledad demora um momento para processar essa informação, então pergunta:

– De que sabor?

Hesito.

– Que sabor?

– É o que estou perguntando.

– Que droga de pergunta é essa?

– Cuidado – lembra-me Soledad, e olho, culpada, para Hannah. Minha filha já está andando e toda tagarela, absorvendo o universo com uma ganância incrível, e sei que é apenas uma questão de tempo até ela chegar à pré-escola e começar a perguntar à professora por que o lanche do dia está uma merda.

– Desculpe – murmuro, e beijo a cabeça morna e coberta por uma penugem de Hannah enquanto ela amassa um pouco de tomate em meu rosto. – Sua mãe tem a boca suja.

– Você matou aula? – pergunta Soledad, e estou prestes a dizer a posição que a faculdade ocupa em minha lista de prioridades naquele exato momento quando meu irmão entra pela porta dos fundos, meu pai logo atrás. Houve uma reunião de gerência no restaurante esta tarde, lembro-me de repente.

– Senhoras. – Cade me lança um olhar breve e vai direto para a geladeira. Ele ocupava a posição de fullback no time de futebol americano do colégio há algum tempo e ainda come como se precisasse ganhar massa para um jogo. – Vi Aaron na academia hoje de manhã.

Eu o ignoro – assim como a referência a meu namorado – como se nem mesmo tivesse ouvido.

– Sabia que Sawyer voltou? – pergunto. Não quero parecer tão louca quanto pareço, tão perto da histeria; respiro fundo, apoio Hannah no quadril e tento conter a enxurrada de emoção. – Sabia?

– Não – diz Cade imediatamente, mas, de súbito, ele desvia o olhar e minha nuca está formigando. Cade franze a testa para ver o conteúdo da geladeira, como se houvesse alguma coisa muito interessante ali. – Bebeu todo o suco de laranja? – pergunta ele.

– Kincade, vou perguntar de novo...

– O quê? – Cade parece irritado comigo agora, com raiva. – Eu não sabia, exatamente...

– Cade!

– Reena. – Meu pai se coloca entre nós como se tivéssemos sete e doze anos, e não dezoito e vinte e três, e eu estivesse prestes a dar uma de irmãzinha mimada, com um chute na canela ou um soco na nuca. Como se eu não estivesse de pé ali segurando minha própria filha. – Chega – diz ele, e viro para meu pai. Ele e o pai de Sawyer são amigos desde que eram crianças; são donos do restaurante há mais de uma década, são padrinhos dos filhos um do outro. De modo algum no mundo dos vivos Sawyer LeGrande sequer atravessaria a fronteira do estado da Flórida sem que meu pai soubesse.

– E você? – Exijo saber, tentando manter a voz firme. O cabelo dele já está grisalho nas têmporas. Hannah se encolhe, irritada, em meus braços. – Você devia saber.

Meu pai assente.

– Sim – diz ele, e olha para mim com o rosto sério. Uma coisa que ele nunca faz é mentir.

– E você não me contou?

Ele fica em silêncio por um minuto, como se estivesse pensando. A tempestade deixou manchas escuras de água salpicadas na camisa dele.

– Não – responde ele quando está pronto. – Não contei.

Nada disso é informação nova, mas mesmo assim me acerta como um soco, um saco cheio de pedras ou Deus enviando uma enchente por quarenta dias.

– Por que não? – pergunto, e sai muito mais triste do que pretendo.

– Reena...

– Soledad, por favor.

– Não contei que ele estava aqui – diz papai, devagar, a calma em pessoa –, porque esperava que ele não ficasse.

Bem.

Os três estão me olhando, esperando. Soledad leva uma das mãos ao coração. Cade ainda está de pé diante da geladeira, todo fortão, cauteloso.

– O suco de laranja está na porta – digo a ele, por fim, e levo Hannah para cima, para uma soneca.