Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 22 de 53

Páginas do PDF

Duas Vezes Amor

Capítulo 22

Antes

Eu estava sentada em uma mesa na saleta do jornal, mal ouvindo uma aluna do primeiro ano ansiosa ler uma matéria sobre a limpeza do refeitório, quando senti o celular vibrar dentro do bolso de trás. Ignorei a princípio – Noelle, nossa editora, era extremamente rígida com relação a mandar mensagens de texto durante as reuniões –, mas ele vibrou de novo um minuto depois, insistente. Pesquei o aparelho o mais discretamente que pude.

Olhe para a frente, dizia a mensagem.

Olhei e me assustei: Sawyer estava de pé no corredor, diante da janela da porta da sala, os braços cruzados, uma expressão levemente divertida. Ele inclinou a cabeça como cumprimento quando me encarou, e eu dei um enorme sorriso, o coração pulando um pouco. O que está fazendo aqui?, falei, sem emitir som.

– Hã, Reena. – Voltei a prestar atenção. Não fui a única que reparou em Sawyer: Noelle me lançou um olhar que poderia ter arrancado a casca de um coqueiro. – Você está prestando atenção ou nem tanto?

– Desculpe – falei para ela, corando. Estavam todos olhando agora. Sawyer parecia prestes a gargalhar. Peguei a mochila na cadeira ao lado e segui para a porta. – Acabei de lembrar que preciso ir a um lugar.

– E aí? – disse Sawyer quando cheguei ao corredor, me empurrando contra um armário e me cumprimentando com um beijo, como se fizesse muito mais que dois dias desde que não nos víamos. – Foi bem sutil, o que fez lá dentro.

– Cale a boca – falei, rindo. Empurrei Sawyer de leve pelos ombros, deixei que ele carregasse minha mochila pelo corredor como em algum filme adolescente. Estávamos andando juntos com frequência cada vez maior ultimamente, dirigindo durante muito tempo no litoral e indo para o Sonic tomar limonada com cereja, além de nos agarrarmos até minha boca ficar inchada e vermelha. – Como entrou aqui mesmo?

– Dei um jeito. – Sawyer deu de ombros. – Na verdade, uma caloura me deixou entrar.

Ri com deboche e revirei os olhos.

– É claro que deixou.

– É claro – repetiu Sawyer. – Então, como estão as coisas no mundo do jornalismo impresso? – perguntou ele em seguida, abrindo a porta para mim e saindo para o anoitecer do início do inverno. – À beira da extinção, como sempre?

– Sei lá – respondi, sorrindo. – Poderia responder isso um pouco melhor se você não tivesse me arrancado da reunião antes que ela acabasse.

Sawyer fez uma careta.

– Eu não arranquei você de lugar algum – respondeu ele, agarrando meu pulso e fazendo exatamente isso, me puxando para si a fim de conseguir passar o braço ao redor de meus ombros.

– Certo. – Gargalhei e me inclinei mais para perto, senti o tecido da camisa térmica dele quente contra minha bochecha. – Não, está bom. Noelle está começando a me dar algumas matérias além da coluna, o que é legal. Vou cobrir o musical de inverno, se quer saber.

Sawyer ergueu as sobrancelhas.

– Que chique.

Fiz um biquinho para ele.

– É, sim!

– Eu sei – disse ele, e me beijou de novo. – Isso é incrível, Reena. – Em seguida, girando a chave na porta do lado do motorista do jipe: – Então, o que vai fazer hoje à noite? Tem planos?

Bem, mais ou menos, se o dever de casa contasse.

– Eu estava pensando em pegar meu jatinho e ir para Havana no fim de semana, na verdade – disse a ele, imaginando que o sarcasmo fosse o caminho mais seguro na situação. Sawyer estava, definitivamente, agindo como meu namorado nos últimos tempos, me buscava na escola quando eu não pegava carona com Shelby e deixava romãs na minha varanda. Mesmo assim, o que quer que estivesse acontecendo entre nós ainda era dolorosamente cinzento e amorfo: Sawyer não havia feito declaração alguma, e eu decerto não tomaria a iniciativa. Só esperei. Observei. – Ver como é a vida noturna.

– Ah, entendo. – Sawyer passou a mão atrás do meu encosto de cabeça e deu ré para arrancar com o jipe. – Bem, se achar que talvez possa dispensar El Presidente apenas esta noite, vamos tocar na Prime Meridian mais tarde. Deveria ir nos ver, conhecer todo mundo.

Todo mundo.

Nas noites que passávamos de brincadeira no restaurante ou juntos na varanda dos pais dele, era fácil esquecer que Sawyer tinha uma vida inteira à qual eu não tinha acesso – que ele andava com amigos que nunca vi, que tocava música que nunca ouvi. Não gostava de pensar sobre onde ele estava quando não atendia o celular, nos fins de semana que passei com Shelby ou sozinha fazendo coisas normais, típicas da vida de uma aluna do ensino médio. Aquilo me deixava nervosa. Eu me sentia estranha.

– É. – Sorri e afastei a ansiedade pesada que já sentia se formar no fundo do estômago. – Sabe, é meio que um saco entrar em Cuba mesmo, então...

– Ah é, só a alfândega. – Sawyer riu, parou o carro diante da minha casa e puxou algumas mechas que tinham caído do meu rabo de cavalo. – Busco você às nove da noite.

A Prime Meridian não era legal. No meio de uma loja de animais e um restaurante chinês de aparência duvidosa em uma galeria aberta em uma saída da rodovia, a boate era longa e estreita e exibia um minúsculo palco nos fundos, uma plataforma erguida trinta centímetros ou mais do chão. O bar estava coberto de pisca-piscas multicoloridos e sob os cuidados de um cara mal-encarado que, com toda a sinceridade, deveria ter uns dois metros e dez. O lugar cheirava a cerveja e cigarros, pessoas demais em um espaço pequeno demais.

Eu tinha ido lá com Allie uma vez, bem no início do ensino médio, nós duas com maquiagem demais e usando os jeans mais apertados. Olhamos uma vez para dentro e saímos correndo para a segurança fluorescente da saideira na Panera Bread, mas imaginei que ela devia ter voltado algum dia, mais provavelmente com o garoto que, no momento, me guiava pela multidão com uma das mãos na minha lombar. A ideia me fez sentir triste e enojada, do mesmo modo que me sentia quando pensava em Allie e Sawyer.

– Preciso me preparar – disse Sawyer por cima do tagarelar barulhento da multidão, depois de me deixar no canto do bar. – Vai ficar bem sozinha? Mike disse que manteria você longe de problemas.

Mike, o barman gigante, assentiu, ranzinza, em minha direção. Balancei um pouco a cabeça, suando: estava quente como um forno dentro da Prime Meridian.

– É, vou ficar bem. Não se preocupe.

– Que bom. – Ele pegou minha mão e apertou uma vez, e então se foi. – Grite bem alto.

Sawyer me deixou e seguiu para o palco, onde dois caras já estavam montando uma bateria, conectando um amplificador. Observei o grupo por um tempo, até que o baterista – o próprio Animal, provavelmente – me viu e cutucou Sawyer. Ele disse algo, mas não consegui entender o que foi.

Tentei ficar confortável no banquinho, não encarar ninguém, parecer que pertencia ao lugar. Queria ter um caderno. E uma caneta. Uma garota escrevendo em um bar devia ser esquisito, mas não tão esquisito quanto uma garota apenas sentada ali, sozinha e suada, sem nenhum lugar para onde olhar à vontade. Queria ter chamado Shelby para ir junto.

– Quer alguma coisa? – perguntou Mike, inclinando-se sobre o bar para eu poder ouvir.

Concordei.

– Só uma Coca. Com muito gelo.

Ele ergueu a sobrancelha para mim.

– Só isso?

– Só.

– Boa garota.

Dei de ombros. Essa sou eu, quis dizer a ele. Serena Montero, sempre a boa garota. Deveria ter mandado fazer cartões de visita.

Mastiguei cubos de gelo enquanto o bar enchia, e outro cara subiu no palco e começou a afinar a guitarra. As pessoas continuavam entrando, e olhei em volta, cautelosa, quando um grupo de três ou quatro garotas se posicionou bem diante de mim. Havia definitivamente um público-alvo na Prime Meridian naquela noite, muita gente vestida com roupas da American Apparel por ali.

– Hã – falei quando Mike passou. – Posso fazer uma pergunta?

– Acabou de fazer. – Ele parecia impaciente; estava ocupado.

– Eles tocam muito aqui?

– Com algumas semanas de intervalo.

– É sempre assim? A... multidão, quero dizer?

– O quê, o batalhão de moças? – Mike deu um risinho, olhou ao redor. – Basicamente. – Ele me encarou por mais um momento. – Precisa de mais alguma coisa?

Sim. Como diabos eu não sabia que aquela era uma banda popular?, quis gritar, mas o vocalista, que vestia uma camiseta com MEU OUTRO CARRO É SUA MÃE estampado na frente se aproximou do microfone.

– Somos a Ideal Platônico – anunciou ele quando a bateria começou a bater ao fundo. – Tudo certo?

Voltei o rosto para Mike e sacudi a cabeça.

– Não – respondi devagar, o que foi inútil, não conseguia nem ouvir minha própria voz. – Acho que estou bem por enquanto.

Os membros da Ideal Platônico eram todos variações de um tema, garotos de cabelos bagunçados com atitudes malcriadas e tênis All Star Converse, mas funcionava para eles – não prejudicava o fato de as melodias serem maravilhosas, as harmonias perfeitas. O garoto no teclado usava aparelho, reparei, sorrindo; e o guitarrista, que usava óculos escuros estilo aviador, embora estivesse escuro demais ali, e que eu me lembrava de ter ouvido Sawyer chamar de Iceman, tinha um ar muito mais John Mayer do que provavelmente gostaria de admitir.

Sawyer, no entanto, meu Sawyer LeGrande, era obviamente o bonito da banda – jeans escuros baixos nos quadris estreitos e uma fivela de cinto do tamanho de uma frigideira. Ele vestia uma camiseta branca simples, do tipo que se compra no Wal-Mart em pacotes de três por seis dólares, mas é claro que tinha a aparência de um milhão de dólares, todo anguloso e musculoso e concentrado. Peguei mais um cubo de gelo do copo.

Sawyer sabia como atrair as garotas também, principalmente um grupinho de quatro ou cinco que estava de pé bem ao lado do palco, cantando todas as músicas e mexendo o corpo pra valer. Rebolando. Cruzes. Sawyer tocava baixo e não falava muito, apenas sorria de vez em quando, batia com o tênis no palco e cantava as músicas. Ele tinha uma voz linda, toda estilo tenor, aveludada e triste.

Eu me ajeitei no assento, inquieta e incomodada; não conseguia afastar a suspeita de que estava exatamente onde não queria. Tinha ido tão longe e, mesmo assim, a única coisa que conseguia fazer era assistir do outro lado do salão e desejar que houvesse um modo de capturar Sawyer, de escrever sobre ele – a garota no quintal na festa, escondida, fora da parte iluminada.

Sawyer falava com aquelas garotas entre as músicas, as Reboladeiras, rindo como se as conhecesse, agachado na beira do palco.

– Sawyer, tire a camisa – gritou uma delas mais do fundo, alto o bastante para todos ouvirem, e provavelmente estava brincando, mas mesmo assim quase engasguei e morri.

– Você primeiro – rebateu ele.

Por fim, me levantei para fazer xixi, serpenteando entre a multidão e tentando ser apalpada o mínimo possível. Quando terminei, empurrei a porta de entrada, ignorando o pequeno aglomerado de pessoas de pé em volta de uma picape no estacionamento, garrafas de vidro nas mãos. Olhei para a vitrine da loja de animais por um tempo, para os filhotinhos de cachorro e de gato dormindo nas minúsculas gaiolas. Peguei o celular a fim de ligar para Shelby.

– Domino’s – respondeu ela alegremente.

– Este lugar está cheio de vadias.

– É claro que está. – Shelby parecia divertir-se. Eu conseguia ouvir a TV nos fundos, os programas de crimes hediondos de que ela gostava. – É nojento.

– Nenhuma delas tem idade para estar aqui. Quero dizer, eu não tenho idade para estar aqui também, mas pelo menos minha saia não está no meio da bunda em pleno mês de janeiro.

– Verdade – concordou Shelby. – Verdade, deve-se esperar até os meses de verão para usar a saia no meio da bunda.

– Cale a boca. – Ri, apesar de não querer. – Estou falando sério. Sabia que essa é, tipo, uma banda que as pessoas vêm, de verdade, assistir?

– Como eu poderia saber? – perguntou ela. – É você quem vai escrever uma tese de doutorado sobre a vida de Sawyer LeGrande.

– Acho que preciso ir embora.

– Por causa das vadias?

– Eu me sinto uma tiete, Shelby. – Chutei alguns pedaços quebrados de concreto, como uma criancinha dando chilique. – Gosto muito dele, quase estupidamente.

– Eu sei. – Shelby suspirou com deboche do outro lado da linha. A paciência dela com Sawyer era limitada, eu sabia. Por um momento, me permiti pensar em Allie, no modo como conseguíamos passar a tarde inteira no oitavo ano desconstruindo o novo corte de cabelo de Sawyer ou o modo como ele pronunciava a letra L. Era só mais uma coisa da qual eu sentia falta em relação a ela, como os tornozelos esquisitos e ossudos dela e o quanto amava as piadas sem graça que começavam com “toc-toc”, o código e a língua secreta de uma amizade que tinha uma década ou mais.

– Quer que eu vá buscar você?

Suspirei, me recompus.

– Não, vou ficar bem. Sou grandinha.

– É mesmo. Ligue se mudar de ideia.

– Obrigada. – Desliguei, tamborilei os dedos uma vez contra a vitrine da loja de animais e me arrastei de volta para dentro. Tinha perdido meu assento, então peguei mais uma Coca com Mike e me contentei em assistir o resto do show prensada contra a parede, um braço cruzado sobre o peito como escudo. Tinham acabado de anunciar a última música quando senti a mão de alguém no ombro, ouvi uma cantoria alegre perto da orelha.

– Se-ree-na. O que está fazendo aqui?

Virei, encolhendo o corpo ao ser tocada, e ali estava Lauren Werner. É claro. Ela vestia jeans de grife e uma regata feita para parecer gasta, um pingente de ametista delicado em uma corrente fina ao redor do pescoço. Eu já queria morrer. Ou, melhor, queria que ela morresse.

– Oi. Eu, hã... – Recomponha-se, Reena, cruzes. A sensação que tive era de que tinha sido flagrada, como se ela tivesse me encontrado fazendo algo ilícito. – Vim com Sawyer, na verdade.

Isso a surpreendeu. Seus olhos se semicerraram, como os de um felino.

– É mesmo? Vocês dois estão, tipo... – disse ela, como uma acusação. – Namorando?

– O quê? Não, não – respondi depressa. – Só estamos... Nossos pais têm um negócio juntos, então...

Então.

– Não diga. – Lauren me olhou de cima a baixo. Eu conseguia sentir o cheiro do perfume dela, suave e caro. – Ele nunca disse nada. Você tem aquele olhar espantado do tipo primeira vez com Sawyer LeGrande. Mas acho que se conhecem desde que eram apenas pirralhinhos?

Encolhi o corpo.

– Tipo isso.

– Que fofo! – disse Lauren. – Ele é ótimo, não é? – Comecei a responder, mas Lauren continuou falando. – E vocês, você sabe, tinham Allie em comum e tudo o mais.

Ah, uau. Eu estava a quase meio segundo de sair correndo pela porta de novo, ligar para Shelby, pegar carona, se precisasse, mas Sawyer apareceu atrás de mim neste momento, colocou a mão dentro do meu bolso de trás como um cumprimento. Virei. Ele estava quente e encharcado de suor.

– Oi, Laur – disse Sawyer. – Está cuidando bem desta aqui?

– Ah, muito bem – respondi por ela.

– Somos velhas amigas – acrescentou Lauren.

Os dois conversaram um pouco sobre alguma festa a que tinham ido umas semanas antes, sobre algumas pessoas das quais nunca ouvi falar, e então Lauren desapareceu na multidão, sorrindo para se despedir de um modo que parecia, sinceramente, uma ameaça. Sawyer não reparou.

– Então, o que achou? – perguntou ele depois que Lauren se foi.

Respirei fundo, fiz cara de paisagem.

– Incrível demais, lógico.

Ele sorriu e então franziu a testa.

– O que foi?

– Nada – respondi, piscando. – Só um pouco cansada.

– Quer que eu a leve para casa?

Sacudi a cabeça.

– Não. Fique se quiser. Posso ligar para Shelby e pedir para ela me buscar.

– Não, não faça isso – disse Sawyer. – Não vá. Me dê alguns minutos e nós saímos daqui.

– Sawyer...

– Não tem problema algum – prometeu ele.

Levou mais de alguns minutos. Foram mais três Cocas e duas idas ao banheiro tosco, além de ter sido apresentada a cerca de trinta amigas mulheres e excessivamente lindas de Sawyer, muitas das quais disseram:

– Ah, ela é tão bonitinha! – Como se eu não estivesse presente e tivesse quatro anos de idade. Passava da meia-noite quando conseguimos sair.

Eu me acomodei com cuidado no lado do passageiro do jipe, encostada na porta, tão distante dele quanto naquela noite no pátio do restaurante, meses antes. Sawyer devia estar pensando o mesmo, porque revirou os olhos para mim.

– Ah, pare – disse ele, estendendo a mão e pegando a minha. Os calos de Sawyer arranharam minha palma quando ele me puxou pelo assento, até eu estar quase sentada em seu colo. – Desculpe por termos ficado tanto tempo. Não percebi que estava tão tarde.

Sacudi a cabeça.

– Não, não é isso.

Sawyer sorriu.

– Você não se divertiu nada, Reena. Pode dizer.

– Eu não diria isso – falei.

– Então o que diria? – Ele estava mexendo na costura do meu jeans, os dedos se movendo, distraídos, para cima e para baixo na minha coxa.

Dei de ombros, inutilmente.

– Gostei muito da sua banda.

– Que bom, mas não foi isso o que perguntei.

– Sawyer... – Suspirei. – Não sou seu tipo.

Ele ergueu as sobrancelhas.

– Qual é o meu tipo?

Allie. Lauren. As Reboladeiras.

– Não eu.

– O que isso quer dizer?

– Não sou boa com esse tipo de coisa. Não gosto... – De bares. De garotas mandando você ficar pelado. De me sentir como uma fã. – ... de grandes grupos de pessoas. Não sou, tipo, supersociável. Não sou seu tipo.

– Quem se importa? Odeio meu tipo. Quero você. – Ele girou a ponta do meu rabo de cavalo entre dois dedos. – Por que está chateada?

– Não sei. – Dei de ombros. Quero você, ele disse. – Odeio Lauren. – Só para começar.

O rosto de Sawyer se abriu em um sorriso.

– Jura?

– Há quanto tempo vocês são amigos? – perguntei enquanto Sawyer engatava a primeira marcha e arrancava para sair do estacionamento.

– Desde o nono ano? – disse ele, olhando para trás. – Não sei. Ela namorou Iceman por um tempo.

– Vocês dois já...? – Parei de falar, arrependida antes mesmo de as palavras saírem.

Mas Sawyer estava sorrindo.

– Nós dois já o quê, Reena?

Abaixei o rosto, desviei o olhar.

– Esqueça.

– Isso incomodaria você?

– Talvez.

– Não.

– Que bom.

Sawyer olhou para o relógio no painel. Estávamos entrando na rodovia àquela altura. Se Sawyer virasse à esquerda, acabaríamos na minha casa e na dos pais dele; virar à direita nos levaria para o sul, na direção da rua em que Sawyer morava agora. Ele parou o jipe em um sinal vermelho.

– Precisa ligar para seu pai? – perguntou Sawyer.

Sacudi a cabeça. Nossos pais tinham passado a noite juntos em um jantar para comemorar a aposentadoria de um dos clientes mais antigos do restaurante. Eu os imaginei no salão de banquete, estranhamente reconfortada pela ideia de estarem todos no mesmo lugar. Não menti quando contei a Sawyer que sentiria falta deles quando saísse de casa.

– Não sabia quanto tempo duraria, o show, então disse a ele que provavelmente ficaria na casa de Shelby.

Sawyer assentiu, não disse nada por um bom tempo. O rádio murmurava.

– Quer ficar lá em casa um tempo? – perguntou ele, e fiz uma pausa antes de responder, na qual mal respirei. Meu rosto pareceu quente. O sinal ficou verde.

– Reena? – perguntou Sawyer de novo.

– Sim. – Assenti. – Posso ir.