Duas Vezes Amor
Capítulo 15
Depois
A mãe de Aaron e de Shelby mora em um pequeno bangalô kitsch em Poinsettia Heights, com pisos de ladrilho legais e plantas verdes, grandes e espiraladas explodindo como formas de vida alienígenas por todo o deque elevado que cerca a piscina. Hannah se sente no paraíso, dentro da água azul e fresca, no bote de plástico amarelo para bebês, com várias mulheres de meia-idade vestindo biquínis floridos neon ao redor dela, que usa os óculos escuros infantis em formato de estrela.
Por fim, os dedinhos de Hannah ficam enrugados e subimos com cuidado no deque, a água do meu cabelo escorrendo em filetes frios pelas minhas costas. O corpo de Hannah está gelado e escorregadio como o de uma foca. Enrolo minha filha em uma toalha com capuz que parece um sapo de olhos esbugalhados e a levo para dentro a fim de se trocar, parando na cozinha na volta para pegar alguns lanches da bolsa que arrumei de manhã. Shelby está olhando dentro da geladeira em busca de um limão para acompanhar a cerveja.
– Estava imaginando onde você se meteu – diz ela, estendendo a garrafa. Shelby veste short cargo e chinelos, o cabelo molhado está preso em um coque na altura da nuca. – Quer?
Olho por cima da fileira de minicactos no parapeito da janela, observando o grupo grande no quintal.
– Não vou beber, sendo menor, na frente da sua família inteira.
– Ah, até parece que alguém se importa. Já está aqui com a filha ilegítima e todos a amam. E por falar nisso: e você, menininha? – diz Shelby para Hannah. – Mai tai? Margarita? – Ela me olha e franze a testa. – O que foi? Estou brincando. Não vou, de fato, preparar uma margarita para sua filha. Ela é um bebê. Isso não seria de bom tom.
– Hã? – Olho para ela, distraída, ainda observando o deque lotado. – Não, não. Desculpe. Eu nem estava ouvindo.
– Bem, obrigada – diz Shelby, fingindo se ofender. Então, ela bate o ombro no meu: – Ei. Como você está aí?
Dou de ombros, tentando demonstrar alegria, e provavelmente não consigo.
– Estou bem – digo. – Não tenho dormido muito bem.
– É. – Shelby para de falar quando dois de seus primos adolescentes passam pela cozinha, cotovelos ossudos e pernas como as de gazelas. – Olha – diz ela quando ficamos sozinhas de novo. – Pode falar comigo. Sei que é estranho agora porque está namorando meu irmão bobão e andando com todas as minhas tias gordas e tal, mas você falava comigo antes e... sabe como é. Pode me contar as coisas.
Dou os biscoitos Goldfish para a bebê, embromando, mas é inútil fazer isso com Shelby. Ela espera por mim todas as vezes.
– Sawyer foi a minha casa hoje – confesso, por fim, e como alguns biscoitos também, por educação. – Tivemos, sabe, a conversa.
– A conversa eu sei que somos muito católicos, mas é daqui que vêm os bebês? – Shelby gargalha, os olhos azuis arregalados. – Sem ofensa, Reena, mas vocês deveriam ter tido essa conversa, tipo, dois anos atrás, entende?
– Ah, você é muito engraçada. – Faço uma careta. – A conversa fizemos um bebê e aqui está ela, engraçadinha.
– Aaah! – exclama Shelby, recostando-se no balcão com a garrafa de cerveja, batendo o gargalo da garrafa de leve contra os dentes. – Essa conversa. Como foi?
– Bem. Não sei. Nada que o resto do universo já não soubesse, certo? Vamos passar um tempo juntos amanhã, nós três.
– Como uma família? – dispara Shelby, e eu me sobressalto ao ouvir isso. É o que somos, nós três? Isso não pode ser o que somos.
– Hum, é – respondo após um momento. – Acho que sim.
– Bem. – Shelby fica em silêncio, e sei por experiência que isso significa que ela está entendendo a lógica da coisa como um tipo de enigma médico: músculo e tendão, cartilagem e osso. – Isso é uma coisa boa, não é? Quero dizer, querendo ou não, Sawyer é o...
– Não diga – imploro, sabendo o que virá. Shelby adora essa expressão em especial.
– ... papai do seu bebê. Deve haver alguns sentimentos importantes aí, ou o que seja, mas isso não quer dizer que ele não deve participar da vida da sua filha. Não é mesmo, Hannah? – pergunta ela, aceitando o biscoito de laranja que a bebê oferece e beijando a mão suja de migalhas dela. – Você quer que seu pai lindo, mas degenerado, a leve para a Disneylândia e coisas assim, não quer?
Começo a rir, não posso evitar.
– Pode parar com isso? – imploro.
– Estou provocando. Desculpe, não ajuda. – Ela passa o braço livre em volta de minha cintura quando voltamos para o sol e o barulho. – Mas, sabe, não esqueça das merdas todas que ele fez. E lembre que você agora é feliz.
– É – respondo, distraída, olhando para a multidão ao redor da mesa. Os tios de Shelby estão discutindo política com bom humor; os primos dela fazem uma brincadeira barulhenta. Penso de novo em famílias, na dela e na minha e na de Sawyer, em como exatamente elas são e o que fazem.
Shelby me olha com seriedade.
– Você é feliz agora, não é? – pergunta ela.
Na churrasqueira, Aaron está assando uma salsicha, porque é assim que gosto de comê-las. Uma nuvem de fumaça, uma coroa escura, se forma ao redor do rosto dele.
– É – repito, com mais certeza desta vez. – Sim, é claro.